Aly Song/Reuters
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Reabertura bem-sucedida de escolas no exterior teve ação sanitária básica e foi junto do comércio

Estudo avalia retomada de aulas presenciais em 20 países; diálogo transparente com as famílias também é essencial

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 10h02

Países que tiveram sucesso na reabertura das escolas fizeram a retomada de atividades presenciais de maneira voluntária, com protocolos sanitários conhecidos e, muitas vezes, voltaram junto ou até antes do comércio. A comunicação transparente com os pais também foi crucial, mostra estudo sobre os processos em 20 nações de todos os continentes. Mesmo onde havia forte oposição à volta, com o tempo, as famílias passaram a confiar nas medidas e enviaram seus filhos às escolas.

A análise foi realizada pela consultoria Vozes da Educação a pedido de entidades do terceiro setor que fazem parte de uma coalizão para ações durante a pandemia - entre elas, Fundação Lemann, Itau Social, Instituto Unibanco e Instituto Natura. Os resultados, obtidos com exclusividade pelo Estadão, foram apresentados para as instituições nesta semana.

Foram considerados países com resultado satisfatório aqueles onde “as escolas reabriram e não registraram contaminação entre alunos e professores que saísse do controle”. Segundo a pesquisa, na maioria deles, a volta se deu quando os casos do novo coronavírus estavam em declínio, com exceção de Portugal e China, onde a curva da infecção ainda era estável.

O levantamento também indica que medidas mais sofisticadas, como testagem em massa e medição de temperatura, não necessariamente foram realizadas nesses países com reabertura elogiada. Os sistemas educacionais se organizaram para que houvesse lavagem frequente das mãos, grupos menores de alunos sem contato com o restante (esquema de bolhas) e uso de máscaras.

“São relativamente simples, não é algo como reformar todas as escolas, por um robô na porta ou divisórias de acrílico. São dados que jogam a favor da gente considerar com mais seriedade a volta às aulas aqui”, afirma o diretor executivo da Fundação Lemann, Denis Mizne.

Na Dinamarca, as escolas voltaram em abril, depois de um mês fechadas, antes de restaurantes, lojas e parques. Pais chegaram a fazer movimentos que diziam “meu filho não é cobaia”, mas, em maio, 90% das crianças já estavam em aulas e não houve aumento de contágio. O governo negociou com sindicatos e garantiu que professores no grupo no risco não voltariam, o que se efetivou.

As aulas na França retornaram em maio de maneira voluntária, junto com o comércio. Houve também forte oposição dos pais. Por causa da contaminação, sete escolas tiveram de fechar na primeira semana, mas depois disso, não foram registrados picos de contágio mesmo com retorno obrigatório em junho.

“Países que entendem a importância da educação também entendem que ter escolas fechadas não é um problema banal e, apesar das dificuldades, se esforçam para retornar as aulas presenciais mesmo que não perfeitamente”, diz o diretor-presidente do Instituto Natura, David Saad. 

A Unesco, braço das Nações Unidas para a educação, tem alertado sobre os graves prejuízos a crianças e adolescentes de escolas fechadas por muito tempo. Entre eles, aprendizagem interrompida, abandono escolar, má nutrição, lacuna no cuidado, maior exposição à violência e à exploração, perda do contato social e pressão sobre pais que não podem voltar ao trabalho.

Entre os melhores exemplos analisados no estudo, a maioria está bem posicionada no ranking do Pisa, a maior avaliação mundial de estudantes, como Singapura, Alemanha, Nova Zelândia e China. A pesquisa checou dados de quatro Estados que já tinham reaberto as escolas nos EUA, também no topo do Pisa, mas não foi possível concluir ainda se os resultados são satisfatórios porque começaram esse processo há pouco tempo.

No Uruguai, que reabriu em junho suas escolas de maneira voluntária, o sindicato dos professores mudou sua posição e passou a ser favorável à retomada ao ser inserido nas decisões pelo governo. A educação uruguaia voltou antes dos shoppings.

Os países europeus entraram em períodos de férias de verão depois da reabertura - quando houve aumento de casos em alguns locais - e começam a voltar para o novo ano letivo neste mês. Especialistas aguardam para saber como se dará a curva de contágio, embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) já tenha declarado que as escolas não são grandes focos de infecção de covid.

Após retorno com infecções em alta, África do Sul volta a fechar colégios

A África do Sul teve sua reabertura classificada como insatisfatória no estudo. O país voltou às aulas em junho com casos ainda aumentando e teve de fechar novamente em julho. Professores reclamaram que as medidas sanitárias prometidas pelo governo não estavam disponíveis e houve contaminação de mais de mil docentes e de 500 estudantes.

Em Israel, a decisão de abertura das escolas em maio foi comunicada com 48 horas de antecedência e não houve tempo para preparação dos protocolos sanitários. Além disso, com a onda de calor, o governo permitiu que os estudantes deixassem de usar máscaras, o que aumentou ainda mais o contágio. O sistema educacional voltou a fechar em julho.

“A ideia é tentar contribuir para o debate no Brasil, que está muito polarizado. Há mais tons nessa paleta que não estão sendo observados”, diz Carolina Campos, fundadora da Vozes da Educação, consultoria técnica formada por educadores que trabalharam efetivamente em escolas. Segundo ela, foram escolhidos países de bom desempenho no Pisa e que se aproximassem do Brasil de alguma maneira. A busca de informações foi feita em sites oficiais do governo, imprensa e think tanks.

Dificuldades de comunicação atrapalham processo no Brasil

Um dos achados da pesquisa é de que a opinião pública só foi determinante para a reabertura ou não das escolas em um país, a Bolívia, que decidiu só voltar ano que vem. No Brasil, pesquisas indicam que a maioria da população é contra o retorno. Especialistas acreditam que, em ano eleitoral, isso tem influenciado prefeitos a decidir pela continuidade do ensino remoto. 

Na capital, o prefeito Bruno Covas (PSDB) não autorizou a volta de atividades presenciais em 8 de setembro, como previa o governo estadual. E várias cidades da Grande São Paulo determinaram o retorno só em 2021.  No caso da Prefeitura de São Paulo, um inquérito sorológico com crianças e adolescentes, em agosto, apontou 64% de infecções assintomáticas nesse grupo. A dificuldade de rastrear infectados nessa faixa etária e a incerteza científica sobre a capacidade de transmissão por parte de doentes mais novos têm sido citadas como justificativas para adiar a reabertura.

“Essa solução é de avestruz, de fingir que não vê o problema. Nenhum país que valoriza a educação colocou essa discussão de ficar o ano todo sem aulas, como estamos fazendo”, diz Mizne, da Lemann. Para ele, essa decisão deveria ser vista como um ônus e não um bônus eleitoral, já que “o gestor está mostrando que não tem condições de abrir a escola em segurança”. “Shoppings, restaurantes, bares estão abertos. Por que não as escolas, em lugares em que a contaminação está em declínio?”

Segundo Mizne, no entanto, a abertura não pode ser imposta aos pais e a comunicação tem sido falha, algo que não ocorreu em países que tiveram uma volta de sucesso. Na Nova Zelândia, foram criadas fases para o retorno às aulas que valiam para todo país, com os níveis de alerta que fizeram a população entender o risco de contaminação e as consequentes restrições.

“As pessoas no Brasil não estão inseguras à toa, a ausência da comunicação e certa irresponsabilidade e negacionismo prejudicam o debate da volta às aulas. Fora a falta total de coordenação nacional” completa o superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques. Segundo ele, a comunicação do que será feito tem de ser muito transparente para que a população possa cobrar e confiar depois. “A gente tem pouca cultura de comunicar procedimento e se dispor a ser monitorado.”

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