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Quem mudou, afinal?

Talvez o mais sensato seja reconhecer que mudaram crianças, adultos e o mundo

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 07h00

Quando alguém diz a frase “as crianças, agora, já nascem com um chip a mais” para explicar as dificuldades que nos apresentam, você concorda? E qual sua reação quando ouve frases desse tipo, tanto ditas por famílias, referindo-se a filhos, quanto no geral, que se tornaram populares? Vejamos algumas: “As crianças já nascem sabendo o que querem”, “elas são bem mais espertas do que as crianças de antes”, “tenho certeza de que meu filho é precoce”, etc.

A tendência das pessoas tem sido a de concordar com esse estilo de pensamento a respeito do comportamento das crianças. Deveríamos? Eu prefiro perguntar: mas, afinal, mudaram as crianças, ou o mundo mudou e mudamos também nós, os adultos? 

Que o mundo mudou bastante nas últimas décadas, e rapidamente, ninguém tem dúvidas. Mas quais mudanças interferiram tão intensamente na relação dos adultos com os mais novos que justifiquem a construção das frases acima?

Primeiramente, vamos considerar a avalanche de informações e de conhecimento, tanto profissional quanto leigo, disponíveis a quase todos. Sabemos muito, por exemplo, sobre a gestação, o nascimento, o desenvolvimento do bebê e da criança e os respectivos estímulos para conseguir alcançar o máximo do potencial infantil, não é verdade? 

Bastou juntar todas as informações acessíveis dessa área ao desejo ardente dos pais de oferecer aos filhos as melhores oportunidades possíveis para um futuro exitoso, para termos exatamente o que testemunhamos hoje: crianças hiperestimuladas desde o nascimento e, em alguns casos, até antes dele.

Claro que as crianças reagem, aparentemente, da melhor maneira aos estímulos que recebem. Assim, na comparação com as gerações anteriores, muitas falam, sentam, andam e correm bem antes.

Isso me faz lembrar uma frase que li em uma dessas redes sociais muito frequentada por mães e pais: “Passamos os dois primeiros anos da vida de nossos filhos fornecendo muitos estímulos para que falem e andem, e o restante da infância deles implorando para que fiquem sentados e calados”. É ou não é?

Podemos concluir, portanto, que as crianças vivem um contexto familiar e social bem diferente no que diz respeito aos estímulos ofertados, o que contribuiu muito para que pareçam – apenas pareçam – ser mais espertas, inteligentes e antenadas do que eram os seus pares décadas atrás.

O que mais mudou? Vale a pena pensar no medo de ser temido pelos filhos. 

É também muito frequente você ouvir mães e pais dizerem que tiveram, em sua própria infância, medo dos pais, ou de um deles, e que não querem provocar isso nos filhos. Querem ser respeitados pelos filhos, mas temidos, jamais!

Prepare-se para saber que é o medo da criança que origina a possibilidade de ela ser educada por seus pais. Claro que não se trata de ter medo de apanhar ou de ser castigado, mas sim o medo de perder o amor dos pais.

E, antes do que possamos imaginar, a criança já começa a decifrar a gramática de sua relação com seus pais: o que ela faz e os deixa alegres ou satisfeitos, e o que faz que provoca apreensão, desaprovação, etc. Assim, como ela se sabe totalmente dependente deles, teme perder o amor deles e, por isso, permite que eles a guiem, pelo menos nos anos iniciais da vida.

E precisamos considerar mais um aspecto importante de mudanças no mundo e, consequentemente, de nossa relação com os mais novos: a perda, vagarosa mas efetiva, do conceito de infância existente até então. Assistir ao curta-metragem A Invenção da Infância (disponível no Portal Curtas) nos ajuda a compreender como temos “desinventado” tal conceito no mundo contemporâneo. 

Consequência? Não sabemos mais o que é ser criança como sabíamos até então, tampouco sabemos como nos relacionar com ela. Exemplo comum: uma criança de menos de 3 anos faz birra, e os adultos tentam contê-la explicando a ela porque não deve se comportar desse modo. Pois é!

Então: mudaram as crianças, ou o mundo e os adultos? Talvez o mais sensato seja reconhecer que mudaram todos os três. Quem sabe, assim, tenhamos mais liberdade para buscar novas maneiras de afetar favoravelmente nossos filhos, respeitando a etapa inicial de suas vidas. 

*É PSICÓLOGA

rosely.estadao@gmail.com

 

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