Que educação queremos?

Jorge Werthein * Em 1872, aprovou-se uma lei educacional que visava à promoção de ensino de qualidade para todos os cidadãos, sem discriminação de gênero, raça ou condição social, para que todos pudessem conquistar igualmente a felicidade e a prosperidade.Além de afirmar que ?aprender é a chave do sucesso na vida?, a lei ainda ambicionava que ?dali em diante, em todo o país, em nenhuma vila haverá uma única casa sem educação, em nenhuma casa uma só pessoa ignorante?. Estamos falando do Brasil? Infelizmente, não.A lei à qual nos referimos foi aprovada no Japão, durante a era Meiji, onde se buscava construir um país rico e próspero. Por volta de 1910, o Japão já estava completamente alfabetizado.Meio século antes, em 1852, publicava-se um ato que impunha a pais e mestres a responsabilidade pela alfabetização e educação básica de seus filhos e empregados. Eram inspecionados por funcionários do governo, que comprovavam se as crianças e os empregados tinham competência na leitura e na escrita.O objetivo principal era possibilitar a leitura e a compreensão dos códigos escritos, das leis e dos documentos preparados pelo governo. Estaríamos, agora, falando do Brasil?Não, trata-se aqui do Ato de Massachussets, província dos Estados Unidos, atualmente um dos maiores pólos científicos e tecnológicos do país.Em 1895, foi publicado um decreto sobre educação para o futuro da nação, reafirmando a importância da educação e focalizando no desenvolvimento de inteligências e habilidades que permitiriam atingir os objetivos maiores de formar pessoas capacitadas e competentes, contribuindo para reerguer a nação.A partir daí, escolas modernas de ensino fundamental e vocacional, foram estabelecidas na capital e outras regiões do país. E agora, estamos falando do Brasil? Ainda não.O edito ao qual nos referimos foi declarado pelo Rei Gojong, da Coréia (atual Coréia do Sul), possibilitando um grande movimento nacional pela educação que, após a Segunda Guerra Mundial, guiaria a Constituição daquele país.Em 1865, em resposta à agitação popular, a Assembléia Legislativa aprova a primeira legislação educacional, com a previsão de abertura de escolas públicas gratuitas e não-sectárias.Um Conselho Geral de Educação foi criado e fortalecido para estabelecer distritos escolares, criar e modificar currículos, nomear professores e indicar livros didáticos. Estamos falando do Brasil?Não, trata-se da província canadense de British Columbia, mais especificamente de Vancouver, sua capital, que promoveria uma grande e profunda reforma no sistema educacional local.Em 1906, criam-se cursos de ensino técnico e formação de professores, com maior ênfase para o ensino de mulheres. Em 1909, 21 moças se formam. Dois anos mais tarde, o número sobe para 100 jovens, alcançando 214 estudantes em 1918.Dado relevante é ainda o fato de que cerca de 75% dessas jovens conseguiram emprego após concluírem o ensino técnico. E dessa vez, estamos falando do Brasil?Na verdade, o exemplo refere-se a Taiwan, onde houve, no início do século, um grande esforço para incluir as mulheres no sistema educacional, o que implicou em grandes avanços nos indicadores educacionais e na situação das mulheres na ilha.Em 1946 e 1947, uma Comissão se reúne para reestruturar o sistema educacional do país, buscando ?adaptá-lo à estrutura social?. O plano apresentado afirmava que, enquanto em 1880, havia a necessidade de difusão do ensino fundamental para as massas, atualmente, devido à rapidez do processo de transformação econômica, o problema é o recrutamento de profissionais mais qualificados e com maiores conhecimentos técnicos.Buscava, portanto, aproximar a escola do mundo real, aproveitando os progressos científicos para a melhoria do aprendizado. Teria isso ocorrido no Brasil?Infelizmente, esse processo de reforma se deu na França, após a ocupação na Segunda Guerra Mundial, sendo apontado como um fator fundamental na melhoria do ensino do país.Em 1971, a Universidade Aberta é inaugurada, promovendo um novo conceito de ensino superior e de educação de adultos, com 19.500 alunos registrando-se para os cursos oferecidos.Começou-se a empregar as novas tecnologias de informação e comunicação, com a elaboração de um sistema de educação a distância que deixava o estudante exposto simultaneamente a diversos meios de aprendizagem. Estamos finalmente falando do Brasil?Não, a Universidade Aberta foi criada na Grã-Bretanha, desenvolvendo-se hoje como um dos principais instrumentos educacionais daquele país.Por mais que os eventos acima citados não se refiram ao Brasil, não devemos ficar pessimistas em relação à educação de nosso país. Afinal, em várias áreas o Brasil avançou substancialmente nos últimos anos. Estamos caminhando, por exemplo, em direção à educação fundamental universal, atingindo a meta estabelecida em Dacar (2000), além de oferecer o mesmo número de vagas a meninos e meninas.Entretanto, ainda há várias áreas nas quais precisamos avançar: qualidade de educação, treinamento de professores, educação para a cidadania etc. E, sobretudo, precisamos perseguir com firmeza a meta de erradicação do analfabetismo.O que os exemplos citados mostram é que há, realmente, soluções concretas para vários de nossos problemas. E essas soluções já foram testadas, com muito sucesso, em outros contextos, respondendo por muitos dos avanços encontrados nesses países.Avançar em áreas nas quais somos deficientes é, portanto, possível. E esse é certamente o caminho para que, daqui a cem anos, possamos olhar para trás e apontar os grandes feitos que realizamos na área de educação.* Doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA) e Representante da Unesco no Brasil

Agencia Estado,

13 de agosto de 2004 | 16h38

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