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Quando se abusa do virtual

Que necessidade uma criança tem deter um aparelho com acesso à internet? Nenhuma

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2022 | 05h00

Não há uma semana em que eu não seja consultada por pais a respeito da relação dos filhos, de diferentes idades, com telas de celular e tablet. “Com qual idade posso dar um celular ao meu filho?”, “Qual o tempo ideal para meu filho usar a internet?”, “Ele adora ficar nas redes sociais, isso é prejudicial?” são alguns dos exemplos de questões. Vamos, então, pensar sobre isso.

Comecemos com as crianças. Que necessidade uma criança tem de ter um aparelho com acesso à internet? Nenhuma. Ah, mas os pais oferecem a elas já na primeira infância por dois motivos principais, segundo eles. Primeiro: a criança fica quieta e entretida com o que vê. Não há dúvida alguma sobre isso, certo? Ela fica seduzida pela tela e parece – só parece – que se acalma. Não entre nessa. Ela fica quieta, sim, quase que hipnotizada. Mas, depois, pode desenvolver ansiedade e irritabilidade, por exemplo.

Segundo: as crianças são chamadas de “nativos digitais” porque já nasceram em um mundo com essa característica, e os pais temem que os filhos fiquem alienados do seu tempo. Não se preocupe: se seu filho não tiver um aparelho, ele não será excluído do mundo em que vive. No máximo, não saberá a respeito de alguns personagens que só existem nas telas, mas isso não é problema. Quantas vezes não sabemos do que se trata uma conversa? Normal. Bastaria os pais emprestarem, de vez em quando, para que vissem algo interessante. 

Pelo jeito, perdemos a noção de que a criança precisa descobrir o mundo real, que exige relacionamentos interpessoais – rede social não substitui isso –, que tem natureza oferecendo benefícios e obstáculos,     que mostra que precisamos nos conhecer e ao outro, aprender a conviver e a se adaptar nos diferentes contextos. É isso, entre outras coisas, que promove o desenvolvimento saudável.

E os adolescentes? Adoram jogar online e buscar temas – muitos deles perigosos – nas redes. Perdem horas de sono e se isolam do mundo real.

O mundo virtual pode trazer benefícios a eles, não podemos deixar de reconhecer. Mas o uso abusivo que muitos jovens fazem das redes é, sim, prejudicial. A questão é que nós, adultos, é que estimulamos isso. Damos exemplos usando os mesmos aparelhos também exageradamente e nos ausentamos do relacionamento com os adolescentes. É difícil conviver com eles? Pode ser. Mas, se soubermos cultivar essa ligação – mesmo conflituosa em certos momentos –, o relacionamento pode ser agradável e surpreendente.

*É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

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