VALERIA GONÇALVEZ/ESTADÃO
VALERIA GONÇALVEZ/ESTADÃO

Quando passar o dia na escola é rotina

Instituições investem em ensino integral, demanda crescente por causa de pais que trabalham por muitas horas seguidas

Luciana Alvarez, especial para o Estado

15 de setembro de 2019 | 09h00

De colégios particulares grandes e pequenos, novos ou tradicionais, gestores educacionais relatam uma procura crescente pelo período integral. Com os pais trabalhando por muitas horas seguidas e um trânsito em São Paulo que dificulta os deslocamentos, as escolas acabam sendo um lugar seguro para que crianças e adolescentes passem o dia. Sem sair de seus portões, os mais novos aprendem idiomas, praticam esportes e fazem atividades artísticas. Pode ser uma solução, mas é preciso ter cuidado. 

No ano passado, Ana Luísa Gonçalves Lorena, hoje com 11 anos, estudava em um colégio bilíngue, o que a obrigava a ficar algumas horas extras dentro de sala de aula, para dar conta dos conteúdos em dois idiomas. Embora não ficasse até tarde – saía às 15 horas – chegava em casa cansada e desanimada. Os pais decidiram mudá-la de colégio. Agora está no integral do Colégio Santa Maria. Ana Luísa fica mais horas na escola, mas está feliz – e aprendendo mais, dizem os pais. 

“Ela tem atividades esportivas, lúdicas e artísticas, o que ajuda a não ficar maçante. Não é só a quantidade de horas que importa, depende dos conteúdos e dos profissionais”, avalia o pai, Agnaldo Lorena. “No colégio anterior, as crianças ficavam confinadas num prédio fechado. No Santa Maria, ela tem contato com a natureza”, diz a mãe, Ana Paula Lorena. 

Este é o primeiro ano que o colégio oferece integral. “A gente percebeu que havia uma demanda das famílias. Atualmente há período integral para o infantil e o fundamental 1, mas a resposta tem sido tão positiva que estamos estudando expandir para o fundamental 2 em 2020”, conta a orientadora pedagógica Vanini Mesquita. 

Além de um momento para estudar e fazer a lição que seria para casa, as crianças aprendem artesanato, teatro, robótica, inglês e culinária. “A gente não quer que tenha a cara do curricular. A ideia é o aluno ter um momento de mais autonomia, mais em contato com os amigos. Outro dia, por exemplo, foi uma das alunas que ensinou os amigos a fazer biscoitos na culinária”, conta Vanini. 

Para a psicóloga Elizabeth Monteiro, a escola integral é “um mal necessário” para grande parte das famílias. “Criança em casa sem estímulo não se desenvolve na área cognitiva e intelectual. Adolescente sozinho só vai fazer besteira. Para muitos, o ambiente protegido e com estímulos da escola é a melhor opção.” Contudo, ela alerta que mesmo os estímulos precisam de certa moderação. É importante que a criança tenha sempre tempo livre, tanto na escola quanto em casa, para não fazer nada. “O que vemos em geral é um massacre de cobranças e agenda cheia, mas falta de convívio familiar. A turbulência começa já de manhã. As crianças têm de entrar num ritmo que não é o delas.”

A diretora da escola infantil Pacto, que funciona das 7 às 19 horas, Maria José Mammana, conta que muitas crianças ficam quase 12 horas sob seus cuidados, por necessidades profissionais dos pais. “Vejo que é um caminho sem volta, a escola é a segunda casa dos alunos. Mas os pais ficam tranquilos porque têm confiança.” A Pacto oferece uma série de atividades: inglês, taekwondo, teatro, circo, robótica, capoeira e ioga. “Tem de ser um tempo prazeroso. Acredito que a escola seja melhor do que criança ficar na frente da TV com uma babá”, afirma.

Vantagens

Se é uma realidade que muitas famílias necessitam de um período escolar mais longo, colégios buscam mostrar que as horas a mais são significativas no aprendizado. “Escolas de quase todo o mundo funcionam em período integral. E ainda assim a criança tem tempo para não fazer nada, brincar individualmente, sonhar”, diz Maria Helena Bresser, fundadora da escola Móbile e da Móbile Integral. 

A Móbile integral está em atividade há dois anos, mas vem sendo planejada desde 2014. “A nossa equipe sempre estudou, pesquisou, buscando conhecimentos interessantes para os alunos, mas tem coisas que não dá para injetar no currículo regular.” No período estendido, o tempo é dedicado sobretudo ao ensino de idiomas – principalmente inglês, mas também espanhol – e a aulas inovadoras de ciências. “Os alunos não ficam só memorizando, aprendem a praticar as ciências, constroem engenhocas. Dessa forma, vão percebendo as inter-relações entre os conceitos. Isso faz com que tenham mais espírito crítico.”

Tatiana Blanco, mãe de dois alunos que estão no ensino fundamental na Móbile Integral, confessa que tinha preconceito com escolas integrais. “A princípio não me interessava, mas alguns pais conheceram a proposta e me falaram bem. Decidi ir em uma reunião de apresentação e saí encantada. Eles aprendem gestão de projetos, as matérias são interdisciplinares, o que é a realidade da vida.” A mãe garante que as crianças dão conta dos estudos e muito mais. “Elas têm muita energia. Saem das aulas por volta das 16 horas e ainda vão fazer atividades, algumas fora, outras na escola, como handebol e aulas de música.”

“Hoje a maioria das famílias olha para além do curricular. Procura algo a mais, quer agregar o idioma e os esportes sem a preocupação de levar e buscar”, diz Patrícia Nogueira, diretora pedagógica da rede Pentágono, que há dois anos mudou o formato do seu período integral. “Não somos escola bilíngue, mas oferecemos uma imersão em inglês. Isso além dos esportes: futsal, vôlei, basquete, judô, ginástica, balé.” 

A educadora garante que não existe um melhor e um pior entre período regular ou integral, que tudo depende de vontade e rotina dos pais. “Para a maioria das crianças o integral funciona bem. Mas o curso precisa ser diferenciado, para ser motivador.” 

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