Rafael Arbex
Rafael Arbex

Quando a crise vira oportunidade

Com a desaceleração econômica do País, ganham força setores como gestão de riscos, recuperações judiciais e controle tributário

Victor Vieira e Juliane Freitas/Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

28 Abril 2015 | 05h00

Em situações em que alguns profissionais só veem crise, outros enxergam oportunidades. Mesmo com a desaceleração econômica e a queda de investimentos no País, há setores que ganham força. Estão em alta campos como gestão de riscos, recuperações judiciais de empresas e controle tributário e, para alavancar a carreira na fase de revés, cresce a busca por pós-graduações relacionadas a esses assuntos. 

A advogada Rosely Cruz, de 39 anos, já trabalha na área de recuperação de empresas e falências, mas quis aprofundar seus conhecimentos em sala de aula. "Busquei um curso que realmente tivesse enfoque mais prático e bom corpo docente", conta ela, que faz pós-graduação sobre o assunto desde 2014 na Fadisp, faculdade especializada em Direito. 

Para professores e alunos, a percepção é de que o atual cenário elevou as demandas judiciais, tanto de credores quanto de empresas em recuperação ou falência. "Com a crise, a variedade de exemplos práticos levados para aula também fica maior", afirma Daniel Costa, coordenador do curso.

Antes mais procurada por advogados, a pós hoje tem público bem diverso. "Atrai também administradores, economistas e contadores", lista Costa. O incremento da rede de contatos é outra vantagem de fazer o curso enquanto o mercado está em baixa. A diversidade de colegas pode ajudar na conquista de um novo emprego ou até mesmo a mudar de área.

Tributaristas também são bem procurados em tempos difíceis. A pós é uma saída para discutir alternativas enquanto o governo federal eleva impostos. Esse foi um dos interesses de Felipe Andrade, de 31 anos, ao procurar um Master Business in Administration (MBA) de Gestão Tributária. "Na empresa, sempre buscam aqueles que otimizam despesas, reduzem ineficiências e evitam riscos." Coordenador da área de impostos de uma grande companhia de cosméticos, ele terminou a pós em setembro. 

O que mais atraiu Andrade para fazer o curso, ofertado pela Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), foi o conteúdo multidisciplinar. "Além da parte jurídica, que é minha formação original, aparecem questões financeiras, fiscais, econômicas."

PROFISSIONAIS COMPLETOS

Para Ana Cláudia Utumi, professora do MBA, o mercado tem exigido profissionais mais completos. "Nesse momento, é ainda mais essencial calcular na ponta do lápis cada centavo desembolsado." O quadro econômico leva ainda as empresas a olharem mais para o exterior. "Os alunos estão cada vez mais interessados em entender a tributação internacional."

Outra competência em alta é a de vigiar o cumprimento de regras e evitar desvios dentro das companhias. "Em tempos de vacas gordas, a fraude consome a gordura. Em fases magras vai até o osso", afirma Renato Santos, coordenador do MBA de Gestão de Riscos e Compliance da Trevisan Escola de Negócios. 

Gustavo Melchiori, de 30 anos, analisou o mercado antes de escolher esse MBA. "De dois anos para cá, senti que houve aumento de demanda na área", relata ele, que atua em auditorias no agronegócio. 

Como a área é nova no País, conta Melchiori, as aulas servem para discutir o alcance da gestão de riscos e como estruturar isso nas empresas. Escândalos recentes, como o de corrupção na Petrobrás, servem de exemplos em classe.

Também há um laboratório para discutir questões do setor, aberto para alunos e empresas. Como há carência de profissionais do ramo, esse contato é quase como uma entrevista de emprego. "Muitos profissionais do mercado estão lá para fazer uma pré-seleção", afirma Santos. Na turma, cerca de um terço ainda não atua em gestão de riscos. 

GESTÃO DE PESSOAL GANHA IMPORTÂNCIA

A crise aumenta as demandas também na área de gestão de funcionários. Situações de cortes na equipe, por exemplo, tornam o trabalho mais difícil. Cursos como o MBA de Gestão de Pessoas, da Anhanguera, discutem essa questão, dos pontos de vista administrativo e psicológico. "Se não investir nas pessoas, a empresa continuará com problemas", afirma a aluna Cyntia Rodrigues, de 35 anos. Já no workshop Mediação de Conflito em Gestão de Carreira, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a ideia é melhorar o diálogo para negociar soluções em meio a dificuldades.

ANÁLISE*

PROBLEMAS ESTIMULAM DEMANDAS

De tempos em tempos, nos deparamos com os desafios de capacitar pessoas para problemas emergentes. Eles estimulam as demandas, o que existe em abundância no País. Seja no setor público ou privado o que assistimos é desabastecimento de água e energia, corrupção em todos os níveis, problemas de infraestrutura e questões ligadas às gestões tributária e patrimonial. 

As oportunidades são únicas, apesar do viés negativo, para a escolha de uma pós-graduação. Há certo casuísmo na oferta, e a razão é obvia, pois se pretende aproveitar o momento. Mas nessas ocasiões deve-se escolher algo que capacite para esse mercado "emergente".

Mas não faz sentido fazer uma pós de 60 horas se a formação é inconsistente ou se não há conexão com a graduação. Exemplo: um bom gestor de riscos deve ter feito um curso de Ciências Atuariais de qualidade e especialização na área. 

E não são só problemas conjunturais que devem estimular a busca pela pós. Há setores em contínuo desenvolvimento, como tecnologia de informação, redes sociais e gestão estratégica de pessoas. Levar isso em consideração, seguramente, fortalece a escolha. 

*Elisabete Adami é especialista em carreiras da PUC-SP

DEPOIMENTO

'AGORA FAÇO PREVISÕES MELHORES'

"Senti que precisava de um curso para entender melhor o mercado e suas táticas. Depois da pós-graduação em Inteligência de Mercado, pela Fundação Instituto de Administração (FIA), fui trabalhar nessa área e realmente eu pude aplicar o que aprendi, diante da grande instabilidade econômica do Brasil. Um exemplo foi a queda de vendas no fim de 2014, depois da Copa do Mundo. 

Sou formado em Marketing, mas comecei minha carreira em vendas e vi a necessidade de ter uma formação mais analítica. Os vendedores hoje não conseguem visualizar, por exemplo, todo o potencial de um consumidor durante uma venda. 

A formação me deu a possibilidade de analisar o mercado e de ver os problemas de uma forma diferente, ajudando na hora de tomar decisões. A capacidade de antecipar o mercado é uma das principais habilidades que eu adquiri.

Acredito que consigo, agora, fazer melhores previsões. Ninguém faz “futurologia”, mas é possível errar menos, e é o que as empresas buscam. Tudo isso fez com que a pós-graduação valesse muito a pena para mim, com uma repercussão real no meu dia a dia."

*Leonardo Tessler, gerente comercial e egresso da pós-graduação de Inteligência de Mercado da FIA

SERVIÇO

Recuperação de Empresas e Falência (Fadisp)

Inscrições: Abertas, com início das aulas em 4/8

Duração: 18 meses

Custo: R$ 10.095 ou 15 parcelas de R$ 709

MBA de Gestão Tributária (Fipecafi) 

Inscrições: Abertas, com início das aulas em 12 de maio

Duração: 18 meses

Custo: R$ 23.800 à vista ou matrícula de R$ 980 e 17 parcelas de R$ 1.466,37

MBA de Gestão de Riscos e Compliance (Trevisan)

Inscrições: Abertas, com início das aulas em setembro

Duração: 22 meses

Custo: R$ 17.964, em 12 parcelas de R$ 1.422,15 ou 18 de R$ 998 - à vista, tem 10% de desconto (R$ 16.167,60)

MBA em Gestão de Pessoas (Anhanguera) 

Inscrições: Abertas para agosto

Duração: 14 a 18 meses

Custo: R$ 279,99 (mês)

Mediação de Conflito (ESPM) 

Inscrições: Abertas

Duração: 18/6, 19h30 às 22h30

Custo: R$ 90 a R$140

Pós em Inteligência de Mercado (FIA)

Inscrições: Abertas, aulas com início em setembro

Duração: 12 meses

Custo: Matrícula de R$ 2.100 e 12 parcelas de R$ 1.405

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