Quando a admiração faz carreira

Quando se fala sobre a escolha da carreira, o antigo e desgastado ditado que diz que ?filho de peixe peixinho é? não perde a atualidade. Em todas as áreas do conhecimento, sobram exemplos de quem optou por seguir a mesma profissão do pai ou da mãe.Se um dos dois está plenamente satisfeito com o que faz, a convivência diária muitas vezes se transforma em admiração e orienta a decisão dos vestibulandos. ?A influência de casa sempre ajuda?, afirma Anne Agopyan, de 18 anos, que está no primeiro ano do curso de Engenharia da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP). O pai de Anne é o diretor da Poli, o professor Vahan Agopyan, formado em Engenharia Civil. Ela conta que, quando pequena, ficava fascinada ao acompanhá-lo nas visitas a obras. ?Ele explicava como fazia e eu achava muito legal?, lembra-se.A grande quantidade de livros sobre o tema disponível em casa também serviu de estímulo à estudante, que folheava as edições. O interesse pela engenharia cresceu aos poucos, com o tempo, e se reforçou ainda mais com a experiência escolar. ?Sempre gostei de Exatas?, justifica a aluna.DúvidasHouve alguns momentos de dúvida. Aos 10 anos, Anne chegou a pensar em fazer Arquitetura. Desistiu ao saber que o curso dava mais enfoque à área de design. ?Meu pai me explicava tudo?, ressalta. Sempre que podia, ela procurava Agopyan para esclarecer cada detalhe sobre as profissões.As conversas revelaram as sutilezas do trabalho e a ajudaram a ter certeza de que estava tomando a decisão correta. ?Ela já tinha uma queda pelo assunto?, observa o professor. Ele garante que jamais houve pressão na escolha e se sente orgulhoso por ter inspirado a filha. ?É sempre gratificante.?CoraçãoO dia-a-dia do cardiologista Adib Jatene contribuiu para que três dos seus quatro filhos resolvessem também estudar Medicina. Como se isso não bastasse, todos optaram pela cardiologia como área de atuação. ?Ele nunca nos influenciou diretamente?, assegura a médica Ieda Jatene, de 47 anos.Segundo ela, a opção teve como principal origem o convívio. ?A gente sempre viu meu pai trabalhar de maneira tão prazerosa que achamos que o que ele fazia era muito bom?, analisa a cardiologista.Por um lado, Ieda destaca que o fato de ter um pai bem-sucedido ajuda a abrir portas quando se segue na mesma área. Por outro, ela salienta que aumentam as exigências e cobranças. ?Mas mais ajuda do que atrapalha?, acredita.De acordo com a cardiologista, Jatene foi o primeiro médico da família. Nem sempre, no entanto, o mesmo caminho é trilhado por mais de uma geração. Ieda conta que, embora os filhos tenham sido inspirados pela profissão do pai, nenhum dos netos seguiu a carreira até agora.DireitoA exemplo dos Jatenes, a maior parte dos integrantes da família da vestibulanda Maria Eugênia Prearo Fortunato, de 18 anos, optou pela mesma área de atuação. O pai, que é advogado, serviu de modelo para três filhos, entre eles a própria Maria Eugênia. ?Por viver nesse meio, eu me identifiquei com a carreira?, explica a estudante, que vai prestar Direito no fim do ano.Ela ressalta que desde pequena ouviu as vantagens da profissão. Também pesou na sua escolha saber que, se não quiser ser advogada, sobram opções de concursos públicos.Para a psicopedagoga Maria Beatriz Loureiro de Oliveira, de 48 anos, coordenadora do Serviço de Orientação Profissional da Unesp de Araraquara (SP), os vestibulandos que resolvem seguir a carreira dos pais devem tomar cuidado: ?É importante que, no futuro, eles não digam que foi uma influência tão grande que não puderam enxergar outro caminho.?De acordo com ela, vale a pena reunir o máximo de informações detalhadas sobre o curso e a carreira para evitar isso. ?As gerações passadas tiveram um tipo de formação e houve uma mudança curricular bastante grande.?Maria Beatriz alerta para o fato de os pais às vezes se sentirem tão lisonjeados com a escolha da mesma profissão que não falam sobre suas desvantagens. Segundo ela, os jovens não podem pensar apenas que, seguindo a mesma carreira, terão facilidade para entrar no mercado de trabalho. ?Eles podem se frustrar?, avisa.

Agencia Estado,

24 de outubro de 2003 | 12h29

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