Qual é o futuro das universidades?
Conteúdo Patrocinado

Qual é o futuro das universidades?

Confira a opinião de especialistas da área da educação, que estiveram reunidos no 21º FNESP para discutir o assunto. Há um consenso: é preciso mudar a forma de pensar o ensino

Semesp, Media Lab Estadão
Conteúdo de responsabilidade do anunciante

02 de outubro de 2019 | 18h03

Ressignificar a percepção da realidade com o objetivo de abrir caminho para o aprendizado de novos conhecimentos. Essa foi a proposta do 21º FNESP, o maior fórum de ensino superior da América Latina, que foi realizado nos dias 26 e 27 de setembro. Organizado pelo Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior do Brasil, o encontro trouxe a São Paulo professores e especialistas de diversas áreas para falar sobre o tema “Mudança de Mindset: uma nova forma de pensar a Educação”. Mais de mil pessoas participaram do evento. Veja, a seguir, os principais destaques.

A complexidade do educar

O historiador Leandro Karnal abriu o fórum falando sobre as complexidades do educar. Segundo ele, o modelo tradicional, baseado numa disciplina prussiana e numa lógica francesa de compartilhamento de um “saber universal” passado de geração em geração, está falido. “Quando olho para uma turma sentada e organizada em fila, sinto uma discreta melancolia”, afirmou.

Na opinião de Karnal, pela primeira vez na história os alunos chegam à sala de aula na condição de alguém que sabe mais até do que o professor, pelo simples fato de ter acesso à internet e poder “buscar” respostas para quase todos os problemas. É justamente nesse momento de crise e de redefinição da identidade que a universidade deve ser o espaço de organização do conhecimento humano. “Vejo muito individualismo e um colapso de utopias, que não deu lugar a novas propostas, apenas a um grande vazio. Para muitos jovens, o mundo de hoje começa e acaba em cada pessoa - e isso é muito ruim.”

Novos métodos de avaliação

O físico holandês Eric Mazur, professor da Universidade Harvard (Estados Unidos), destacou a necessidade de rever a forma de avaliar os alunos de cursos superiores. Ele contou que pesquisas mostram que decorar os conteúdos escolares ou estudar para provas com a ajuda de fichas só serve mesmo para isso: passar na prova. “Apenas 35% desse material fica retido após uma semana e quase nada resta após duas semanas”, afirmou. Por isso, defendeu a importância de usar outras técnicas, em especial o feedback, para avaliar.



As provas tradicionais, em que cada um precisa resolver as questões sozinho, não fazem sentido porque estão desconectadas da realidade - principalmente do mundo do trabalho. Mazur destacou que em qualquer situação da vida real nós utilizamos a tecnologia (calculadoras, internet para fazer buscas) e, em muitos momentos, atuamos em conjunto com colegas e parceiros. E é isso que a universidade também deveria fazer. “Como podemos imaginar que uma prova clássica vai ajudar a entender como esse jovem vai desempenhar na vida social?”, questionou.

A missão do ensino superior

Luís Alcoforado, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra, em Portugal, usou a própria história da instituição, fundada há quase 730 anos, para falar sobre o papel do ensino superior na sociedade. Criada para atender aos interesses da igreja católica e da família real, ela foi adquirindo cada vez mais importância, até conquistar (no século 20) um reconhecimento incontornável. "As universidades, desde então, são o lugar em que pensamos o funcionamento da própria sociedade."

Na era digital, prosseguiu Alcoforado, as tecnologias têm uma “centralidade absoluta”: na economia, no lazer, na cidadania. Para ele, o maior desafio atual é construir uma nova economia ultraconectada sem perder de vista o mais importante, que é fazer com a que a sociedade seja cada vez melhor. “Não podemos pensar numa universidade sem pensar que estamos construindo o destino da humanidade.”

Combate à desigualdade

Francisco Marmolejo, líder especialista em educação superior do Banco Mundial, apresentou diversos números sobre o cenário da educação no planeta. Na Índia, por exemplo, o número de alunos universitários mais do que dobrou entre 2008 e 2016. No mesmo período, o total de instituições de ensino superior aumentou 78% (são seis novas faculdades ou universidades criadas por dia).

Nesse contexto que parece promissor, a competitividade também é enorme. “Mais do que nunca, a questão não é informação, mas a capacidade de analisar os dados, processar e pensar. É esse o papel primordial das universidades hoje e no futuro próximo.” O pesquisador falou sobre o uso de novas tecnologias, tanto no dia a dia das pessoas quanto nas salas de aula (inteligência artificial, jogos, realidade virtual, realidade aumentada etc.) e destacou que há outro grande problema a combater: a desigualdade. "A realidade é muito diferente dependendo de onde você vive. Isso está gerando nacionalismos, riscos à democracia. No mundo globalizado, o tribalismo se impõe e a sociedade enfrenta uma crise de credibilidade, principalmente por causa da proliferação de fake news.”

Universidade high tech

O reitor do Instituto Tecnológico de Monterrey, no México, David Garza, contou como (desde 1996) a universidade abraçou as novas tecnologias e virou referência global em inovação. Em suas aulas high tech é possível interagir com uma imagem holográfica em tamanho real de um professor que está em outro local, participar das atividades de forma virtual, com direito a interação online, e utilizar realidade virtual para atividades de imersão (como “navegar" por dentro do corpo humano), entre outras.

“A tecnologia intensifica a inovação. E já que temos tanta tecnologia disponível, o melhor é usá-la”, resume Garza. No projeto da Tec de Monterrey, a aprendizagem deve ser baseada em desafios (e não em conteúdos programáticos), com flexibilidade para os alunos organizarem seu percurso acadêmico. Em sua apresentação, o reitor explicou que são sete as competências transversais ao currículo utilizadas pela equipe docente: Autoconhecimento e gestão; Empreendedorismo inovador; Inteligência social; Compromisso ético e cidadão; Raciocínio para a complexidade; Comunicação; Transformação digital.

Aprender é para sempre

O pesquisador Conrado Schlochauer, doutor em Psicologia e fundador da Teya, falou sobre a importância da educação num mundo em constante transformação. "O único jeito de se adaptar ao processo de mudanças é continuar aprendendo. Até porque não tem como desaprender tudo o que já sabemos - só com lobotomia”, resumiu.

Desde os anos 1970 fala-se no conceito de lifelong learning (aprender ao longo de toda a vida) e, segundo ele, mais do que nunca isso é real e necessário, sem perder a perspectiva de qual o sentido desse processo. “Aprender não é só adquirir mais e mais conteúdo. Aprender é explicitar o conhecimento por meio de uma performance melhorada - na escola, na vida, no trabalho.”

O primeiro tutor virtual

“No passado, a escola e a universidade tinham a cara da indústria. Os problemas de hoje são completamente diferentes. Como, então, encarar tudo isso? Usando tecnologia de ponta para focar na transformação digital.” É assim que José Cláudio Securato, presidente da Saint Paul Escola de Negócios vê o ensino superior hoje. Segundo ele, o futuro já chegou e as escolas têm de mudar seu mindset para conseguir oferecer uma educação de qualidade para todos. Um exemplo que já faz parte do dia a dia da Saint Paul é o uso de dados: plataformas criadas para a coleta e o tratamento dessas informações usam estatística e econometria e permitem a cada aluno definir seu percurso acadêmico e potencializar a forma de aprender.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Vivemos uma explosão digital e a universidade precisa refletir essas mudanças trazidas pela tecnologia
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313

A Saint Paul vem trabalhando em parceria com a IBM Brasil na customização do Watson, a ferramenta de inteligência artificial da gigante global de informática. A versão que está sendo construída foi batizada de Paul e é considerada pela própria IBM como o primeiro “tutor" virtual do mundo. Entre outras funcionalidades, ele permite saber como cada estudante mais gosta de estudar: mais leituras, mais vídeos, mais interação com os colegas etc. Além disso, Paul “conversa” com o estudante, que informa quais temas já domina e, assim, “pula" os conteúdos conhecidos. Com isso, o curso fica menos repetitivo.

Combate à evasão

O pró-reitor de Iniciativas Estratégicas da Universidade do Sul da Flórida, Bill Cummings, contou como essa instituição pública norte-americana está trabalhando, desde 2010, para mudar o mindset e oferecer uma educação com mais qualidade para todos. Segundo ele, em todo o mundo há um número muito preocupante: a quantidade de jovens que entram num curso superior e não se formam.

No caso da Flórida, o governo definiu várias metas - e o professor Cummings detalhou duas delas: aumentar de 86% para 90% a taxa de retenção no primeiro ano e aumentar de 51% para 70% o total de formandos em seis anos de escolaridade. “Desde o início”, relatou, “o grande desafio era - e ainda é - como motivar uma universidade inteira para trabalhar pelo sucesso de todos os alunos”. As ferramentas usadas no caso são a chamada análise preditiva (uso de dados históricos para prever resultados futuros), com informações de desempenho acadêmico e também de engajamento, como participação nas atividades extraclasse.

Toda vez que o sistema identifica um aumento na probabilidade de um estudante enfrentar problemas que podem levá-lo a desistir do curso, entram em cena professores, conselheiros e os próprios colegas, para colocar-se ao lado desse jovem e mantê-lo estimulado. “Temos muitos alunos provenientes de países do Caribe e recentemente colocamos toda nossa energia para ajudar os estudantes de Bahamas, cujas famílias tinham sido afetadas por furacões”, relatou Cummings. Desde 2017, as metas foram atingidas: 91% de taxa de retenção na passagem do primeiro para o segundo ano e 71% de alunos formados em seis anos (no ano passado, esse número foi ainda maior, 73%).

O caminho da parceria

Duas instituições de ensino superior que se reestruturaram internamente foram escolhidas para exemplificar a importância de mudar o mindset organizacional. Oto Roberto Moerschbaecher, da Universidade do Vale do Taquari (Univates), em Lajeado, no Rio Grande do Sul, descreveu como parcerias em projetos de saúde ajudaram a aumentar as receitas nesses tempos de crise. "O Brasil tem muita dificuldade para encontrar a aproximação entre a academia e o setor empresarial”, começou ele, para logo explicar como muitas prefeituras contratam serviços terceirizados - justamente o caminho encontrado pela Univates.

O trabalho vem sendo desenvolvido desde 2015. Professores e alunos de cursos como Medicina e Enfermagem passam a atuar diretamente nos postos de saúde, formando os futuros profissionais e ampliando o acesso da população a esse serviço. Na projeção para o fechamento de 2019, as receitas geradas pelo projeto devem representar 16% do total. “É preciso reduzir a burocracia, pois todos têm a ganhar”, finalizou Moerschbaecher.

Outra experiência apresentada foi a da Unisinos. Criada há 50 anos como Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, também no Rio Grande do Sul, ela promoveu uma “inflexão tecnológica” no início dos anos 2000. “Estávamos com problemas financeiros e de gestão e decidimos montar um planejamento estratégico tomando por base o desenvolvimento da nossa região por meio da tecnologia”, afirmou o professor Daniel Puffal.

Os dez projetos listados no plano original se transformaram em cinco institutos tecnológicos, construídos com financiamento público. Cada instituto tem um programa de pós-graduação ligado a ele. As equipes (pesquisadores, auxiliares, técnicos) trabalham de forma independente da universidade - muito poucos também são professores da pós-graduação. O trabalho é prestar (e vender) serviços para empresas. As áreas atendidas são semicondutores, micropaleontologia, segurança funcional, alimentos para saúde e construção civil. Os cinco institutos são auto-sustentáveis e, assim como no caso da Univates, servem como fonte extra de receita para a Unisinos.

Histórias que inspiram

O momento mais emocionante do 21ª FNESP foi proporcionado pela professora Debora Garofalo. Ela era alfabetizadora em uma escola da rede estadual de ensino de São Paulo quando pediu à diretora para passar a atuar em um projeto de robótica, com crianças e adolescentes de um bairro pobre da capital.

O trabalho conquistou o público pelo envolvimento e, principalmente, pelo reconhecimento já alcançado: Debora foi escolhida finalista do Global Teacher Prize (um prêmio internacional de professores), um dos primeiros estudantes envolvidos no projeto entrou este ano no curso de Física da Universidade de São Paulo (USP) e a própria Debora ajudou a criar as diretrizes curriculares para o ensino de robótica, ampliando o alcance de suas ações para os 2 milhões de alunos da rede pública. “A escola tem papel crucial na formação desses meninos para a cidadania”, resumiu ela.

O papel do educador

Angelica Natera, diretora executiva do Laspau (iniciativa ligada à Universidade Harvard para a formação de parcerias com escolas e redes de ensino de países da América Latina), reforçou o papel do educador para mudar o mindset e repensar o papel das instituições de ensino. “É preciso definir uma estratégia que junte instituições e pessoas, é preciso ter um líder que puxe a equipe (se não o processo não acontece) e é preciso valorizar os professores. Um projeto pedagógico claro é o mais importante para quem busca se reinventar e educar cidadãos globais do século 21.”

Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna, encerrou a série de debates ressaltando que, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a educação aparece como o 26º direito, mas ela é, na prática, “a mãe de todos os direitos”. Segundo ele, o desafio de desenvolver integralmente a pessoa não é novo, mas é extremamente importante em nosso País. "O problema é que temos ótimos professores, mas um sistema que não aprende com esses professores.”

Formando futuros líderes

Terminadas as palestras, foi a vez de um grupo de estudantes ocupar o palco do FNESP. De um total de 205 inscritos, 32 foram selecionados e divididos em sete equipes, no chamado HackLab Fnesp, uma maratona empreendedora voltada a estudantes de instituições privadas e públicas, de várias áreas, com o objetivo de desenvolver soluções inovadoras para o ensino superior brasileiro. Cinco temas foram propostos: evasão escolar, como lidar com problemas de saúde entre os estudantes, a difícil conexão entre universidade e mercado de trabalho, como usar a tecnologia para o ensino a distância e formas de personalizar os cursos.

Durante os dois dias do evento, os jovens participaram de workshops e tiveram a oportunidade de conversar com o público presente. O time SDunity, que criou um aplicativo contra a evasão, foi escolhido o melhor - ganhou um prêmio de 8 mil reais e três meses de aceleração do projeto na startup Future Education.

Tudo o que sabemos sobre:
educaçãoensino superior

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.