‘Próximo desafio é priorizar o ensino', diz ex-reitora, Suely Vilela

Professor ocupou a reitoria da USP entre 2005 e 2009

Bárbara Ferreira Santos,

24 Janeiro 2014 | 03h00

Primeira e única mulher a comandar a reitoria da Universidade de São Paulo (USP), Sueli Vilela ocupou o cargo de dezembro de 2005 a dezembro de 2009. Formada em Farmácia e Bioquímica pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP), ela fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na instituição. Chegou a ocupar a diretoria da FCFRP e foi Pró-reitora de pós-graduação antes de se tornar reitora. Depois que deixou o cargo, passou para a diretoria do escritório de São Paulo do Núcleo Internacional da USP, que coordena as atividades internacionais da USP na América Central, América do Sul e África Subsaariana. Ao Estado, ela falou sobre a dificuldade da universidade em se internacionalizar e o desafios das mulheres em chegar aos altos postos da USP nos 80 anos de história da instituição. 

Que desafios a senhora encontrou na sua gestão como reitora?

Nessa época, de dezembro de 2005 a dezembro de 2009, a USP estava se preparando para se internacionalizar, efetivamente ter um projeto de internacionalização. Nós iniciamos esse projeto enquanto eu era pró-reitora de pós-graduação, na gestão anterior, do professor Melfi, quando nós assumimos, um dos nossos desafios e um dos nossos objetivos foi exatamente ter como prioridade a internacionalização das atividades da USP, que seria estabelecer convênios internacionais de pesquisa, com intercâmbio de alunos e de professores e estimular o duplo diploma tanto na graduação quanto na pós-graduação. A USP avançou muito nos dados de internacionalização. Tanto que nesse período da nossa gestão ela galgou patamares mais elevados e que foram mostrados através dos diferentes rankings internacionais.Um desafio que enfrentamos é que a USP tinha passado, na gestão do professor Melfi, por um programa de expansão do governo do estado, então tivemos de consolidar os cursos novos que haviam sido criados, melhorar a infraestrutura desses cursos e dos demais cursos da universidade. Os desafios da USP, em qualquer que seja o momento, foi buscar essa inserção internacional da USP e ela permanece até então. Agora, eu diria muito mais: em função desse modelo de sociedade, uma sociedade globalizada, em que a necessidade de renovação do conhecimento é cada vez maior, então este modelo de sociedade exige que as universidades proporcionem aos seus alunos cada vez mais uma formação empreendedora. As universidades precisam formar uma geração empreendedora para que esses profissionais consigam sobreviver em qualquer sociedade.

Neste ano a USP caiu posições nos rankings internacionais. Quais são os desafios para melhorar o desempenho da universidade?

Esses rankings são importantes de olhar porque eles dão visibilidade às universidades para o mundo. Você pode até discordar dos critérios que são utilizados, mas ele é um indicativo que nós administradores temos que dar atenção ao que realmente esses indicadores estão mostrando. A USP caiu vários pontos nos rankings do The Times Higher Education, que é um dos principais rankings mundiais, mas que tem uma margem de indicadores subjetivos. Um dos pontos que foram colocados, além da qualidade de graduação e principalmente por causa do nível de internacionalização da universidade. Acho que as últimas três gestões focaram a questão da internacionalização e a USP vem melhorando. No entanto, nós atingimos um patamar que ou a USP realmente ela estabeleça o que eu sempre chamo de institucionalizar a internacionalização, tem que profissionalizar o processo de internacionalização no âmbito da universidade. Temos de investir significativamente na infraestrutura, infraestrutura para os estrangeiros, infraestrutura para estimular os nossos docentes e para receber os estrangeiros na universidade. Essa é a grande deficiência da universidade: ela ainda não tem uma infraestrutura profissional para acolher os estrangeiros no âmbito da universidade. É necessário investir significativamente no ensino da língua estrangeira para funcionários, docentes e alunos e criar ambiente internacional.

  

O que já vem sendo feito?

Na gestão do professor Rodas ele criou um programa internacional, criando 4 escritórios internacionais da USP, um em São Paulo, um em Boston, um em Singapura e outro em Londres. Esses escritórios abrangem diferentes regiões do mundo. Essa estratégia é fundamental. Esse caminho de olhar a internacionalização por regiões é fundamental, porque você vai olhar cada região, conhecer a especificidade daquelas regiões. O núcleo internacional de São Paulo, do qual eu fui diretora em 2013. Esse escritório se preocupava com América Central, América do Sul e África Subsaariana. Com esses núcleos, é possível conhecer melhores as universidades, demandas das regiões e estabelecer projetos específicos. Essa estratégia vai ser eficiente para que a USP avance na sua internacionalização. Além da infraestrutura, esta estratégia de trabalhar com as diferentes regiões, estudando as especificidades de cada um, é o caminho para se colocar em patamares vai avançados da internacionalização da universidade.

Que outros desafios a senhora acha que a universidade vive hoje?

A universidade precisa efetivamente priorizar o ensino de graduação, tratando a qualidade da graduação. A USP precisa ter uma avaliação interna da graduação, que eu chamo de ‘avaliação consequente’, que realmente tenha como consequência a valorização dos professores vinculados à graduação, estimulando esses docentes a estarem vinculados à graduação. A  qualidade do ensino de graduação, a USP vem trabalhando, mas ainda não estamos nos patamares desejados para universidade do porte da USP. Estruturas curriculares mais flexíveis, que permitam reconhecimentos de créditos, de disciplinas cursadas no exterior pelos alunos, ainda temos burocracia. Essa qualidade da graduação passa pela internacionalização, que é o oferecimento de disciplinas em língua estrangeira, tanto na graduação quanto na pós-graduação. O outro desafio é o ensino de graduação, ter uma ‘avaliação consequente’, para que a gente possa mostrar para a sociedade o nível dos profissionais que colocamos no mercado, que torne isso público.

Passados 80 anos de história, a senhora foi a primeira e única reitora da USP. As mulheres ainda não conseguem chegar aos altos cargos na academia?

Acho que esse é um desafio para as mulheres. Eu fui a primeira reitora quando a USP estava com 75 anos. Fui a primeira pró-reitora de pós-graduação da universidade e precisamos nos perguntar para as nossas cientistas e pesquisadoras quando teremos mais uma na universidade. Há uns 3 anos atrás fiz um estudo olhando as mulheres nas agências de fomento, as mulheres como cientistas, nas empresas e nas universidades. O que se observa é que a regra é a mesma: à medida que sobe o cargo, diminui a participação das mulheres. Nós temos 43 unidades de ensino e pesquisa na USP, em 10 delas em média há mulheres na direção. São poucas realmente as mulheres. Observamos, no entanto, que isso vem melhorando, elas estão assumindo esse desafio cada vez mais.

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