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Provas externas têm de mudar sala de aula, afirmam especialistas

Avaliações devem orientar a prática de professores; na pandemia, medir o que alunos aprenderam é requisito para avançar

Júlia Marques e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 05h00

O Brasil está atrás quando o assunto é agilidade para que os resultados de avaliações nacionais cheguem à sala de aula. Para enfrentar desafios educacionais impostos pela pandemia, secretários de Educação, especialistas e professores ressaltam a importância de medir o que estudantes aprenderam durante o ensino remoto em casa.

Na rede estadual paulista, os primeiros resultados de avaliações diagnósticas feitas em 2020 e 2021 apontam para um cenário preocupante. “Além de não avançar, estamos regredindo”, afirmou o secretário estadual da Educação, Rossieli Soares, durante o seminário O futuro das avaliações educacionais, realizado pelo Estadão, Fundação Lemann e o Instituto Natura.

Ele defende a importância do retorno presencial dos alunos - até mesmo para que seja possível avaliá-los. O Estado foi um dos poucos que já conseguiram medir impactos da pandemia na aprendizagem. Pelo mundo, os desafios são parecidos. “Poucos países estão medindo essas perdas. Precisamos ir além das simulações”, afirmou João Pedro Azevedo, economista líder do Banco Mundial.

Para Kátia Schweickardt, professora da Universidade Federal do Amazonas e ex-secretária municipal de Educação de Manaus, é preciso que as avaliações externas contemplem outros indicadores, que ainda são pouco abordados, como a equidade. Mais do que medir a aquisição de conteúdos como Português e Matemática, os levantamentos precisam ser “indicadores de melhoria da qualidade de vida das pessoas”. Na pandemia, diz ela, houve desigualdades até mesmo na forma como as famílias conseguiram apoiar as crianças nos estudos.

Provas externas, como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), precisam resultar em orientações pedagógicas claras, que atinjam a diversidade de alunos de uma rede, segundo Kátia. Essa é, inclusive, uma das recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE), em um relatório sobre a reforma de avaliações no Brasil, encomendado pela Fundação Lemann e publicado nesta semana. Para a organização, o Brasil deve se concentrar em fornecer resultados das avaliações “em tempo hábil para que Estados e Municípios usem essas informações em seu planejamento”.

Professora de Educação Especial da Escola Estadual Pontezinha, em Cabo de Santo Agostinho (PE), Andréa Maria Bernardino diz que dados de avaliações externas e internas são interpretados pelos gestores locais para orientar práticas em sala de aula. Na pandemia, os professores se depararam com o desafio de alfabetizar as crianças de forma remota. 

Os primeiros resultados de avaliações sobre a alfabetização estão saindo agora, conta Andréa, após pré-testes de fluência de leitura realizados no retorno presencial. Segundo ela, os alunos conseguiram avançar - mas o caminho é longo e exigirá apoio das famílias. Para Ana Selva, secretária executiva de Desenvolvimento da Educação de Pernambuco, também é fundamental construir pontes entre gestões municipais e a estadual, principalmente em um contexto de omissão do Ministério da Educação.

A alfabetização é considerada crucial para o desenvolvimento dos estudantes nos anos seguintes - por isso é tão importante entender como as crianças nesta etapa aprenderam, segundo Priscilla Bacalhau, consultora de impacto social. Para ela, a pandemia escancara a necessidade de repensar o Saeb sob os parâmetros da Base Nacional Comum Curricular, documento que orienta o que os alunos devem aprender em cada etapa. “Se já era importante antes, agora se torna ainda mais urgente.”

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