Prova de português da Fuvest exigiu contexto histórico e cultural

Prova de português da Fuvest exigiu contexto histórico e cultural

Exame continua nesta segunda, 8, e terça-feira

Priscila Mengue e Sofia Patsch, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 22h28

SÃO PAULO - Candidatos que fizeram o primeiro dia da 2ª fase da Fuvest, exame de ingresso na Universidade de São Paulo (USP) neste domingo, 7, enfrentaram 10 questões dissertativas de português - quatro delas com obras da lista de leituras obrigatórias. A Redação, também feita no primeiro dia, abordou as recentes polêmicas que envolveram exposições de artes visuais no País.

De acordo com professores de cursinho, essa parte da prova manteve a tendência da Fuvest de cobrar sobre o contexto histórico e cultural das obras da lista obrigatória. “Não houve surpresas e os níveis de dificuldade foram menos elevados que na primeira fase”, avalia Claudio Caus, do Cursinho da Poli.

Para a vestibulanda de Física Gabriela Silva, de 23 anos, as questões de Literatura foram “muito específicas”, o que favoreceu os estudantes que leram os livros. “Já a parte de Português achei mais simples.” A taxa de abstenção foi de 7,75% – a menor dos últimos oito anos do vestibular. 

Redação. Estudantes ouvidos pelo Estado aprovaram o tema da Redação deste ano, sobre se a arte deve ter limites. Entre os casos citados pelo exame, estava o da exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença da Arte Brasileira. A mostra foi fechada em 2017 pelo Santander Cultural de Porto Alegre após acusações de que o trabalho incentivava a pedofilia, a zoofilia e a blasfêmia. “O fato de ter sido debatido no ano passado favoreceu a gente. Citei o caso do Queermuseu”, conta Pedro Azevedo, de 18 anos, candidato de Arquitetura. “Foi mais fácil do que eu esperava.”

“A arte não deveria ter limites, mesmo se ferir valores de determinados grupos, mas precisa seguir a legislação”, defende João Negasti, de 25 anos, que usou o argumento em seu texto. “No momento que transgride o que é lei ou norma, a arte não deveria ser tolerada”, diz.

O ex-estudante de Economia Pedro Ramos, de 20 anos, escreveu que a arte não deve ter limitação. “Afinal, esses temas polêmicos refletem a realidade. Se não for assim, a realidade fica escondida, debaixo do tapete”, argumentou ele, que agora pretende cursar Engenharia Mecânica.

“Nos anos anteriores a Fuvest vinha propondo temas abstratos, universais e filosóficos”, observa a professora Maria Aparecida Custódio, responsável pelo laboratório de Redação do Objetivo. Na edição anterior do vestibular, por exemplo, o tema foi “O homem pode sair da menoridade”, que envolvia um conceito do filósofo alemão Immanuel Kant.

“A Fuvest, diferentemente do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), não tem o costume de abordar questões atuais”, lembra Claudio Caus, professor de Língua Portuguesa e de Literatura do Cursinho da Poli. Os candidatos, segundo ele, podem ter se prejudicado por cair “em um lugar comum” na hora de escrever os textos. 

Para Maria Aparecida, o tema favoreceu os estudantes. “Eles estão, de alguma maneira, familiarizados com essa polêmica, que foi muito debatida, não só nas redes sociais, como em sala de aula”, explica. “A opinião do aluno não é importante para um bom texto, mas a boa capacidade de argumentação.”

Na opinião de Célio Tasinafo, coordenador do cursinho pré-vestibular Oficina do Estudante, “se o candidato não tivesse uma habilidade para ler e interpretar bem” a coletânea de textos apresentados na proposta de redação, havia o risco de escrever uma dissertação contraditória. 

Continua. A maratona da segunda etapa continua nesta segunda, 8, quando os candidatos realizam prova com 16 questões de todas as disciplinas do núcleo comum do ensino médio (como Química e Matemática), exceto Português. E, na terça, 9, ainda serão 12 questões de duas ou três disciplinas, conforme a carreira escolhida. Os alunos têm quatro horas para fazer a prova, a partir das 13 horas. 

A primeira lista de aprovados será divulgada no dia 2 de fevereiro. Cerca de 25% das 11.147 vagas da USP para este ano são disputadas pela nota do Enem. Com a redução do número de vagas pela Fuvest, candidatos esperam uma nota de corte mais alta, principalmente em cursos concorridos, como Medicina. 

Neste ano, pela primeira vez, a USP adota cotas. Com isso, 37% das vagas de cada unidade da instituição devem ser preenchidas por alunos da rede pública. Dentro desse grupo, também haverá reserva de vagas para candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas. 

 

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