Proposta de mudar exame do ensino médio é criticada

Especialistas afirmaram na quarta-feira que criar uma avaliação obrigatória, e não facultativa como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), como anunciou o governo anteontem, ou incentivar a permanência do estudante na escola com ajudas de custo podem se tornar apenas medidas paliativas se não houver mudanças no modo de educar. Voltar a formação para aspectos culturais e de cidadania seria mais eficiente no combate ao desinteresse do aluno, apontado em pesquisa conjunta da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e do MEC. "Seria como consertar febre com termômetro", disse o professor Nilson Machado, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). "O Inep está cheio de dados que se acumulam e não orientam políticas públicas." Para a professora Neide Noffs, da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), nenhuma avaliação externa pode superar uma análise interna da escola. "Avaliação institucional interna permite o autoconhecimento da escola. O preocupante de uma avaliação externa é se tornar um mero levantamento de dados que leva a uma rotulação das escolas." Neide elogia a idéia de se pagar meio salário mínimo para alunos do ensino médio menores de 19 anos, dado os custos com material didático, alimentação e transporte. "Mas é um paliativo que pode criar uma frustração, porque é insuficiente para pagar tudo." Machado critica a proposta. "É atirar para o lado errado. Qualquer tentativa de motivação do aluno tem de passar por uma formação cultural, não uma preparação técnica para o vestibular. O desinteresse existe porque o aluno não sabe porque está ali." Essa é a mesma constatação de Beatriz Pereira, de 16 anos, e Carolina Gorgulho, de 15, alunas do 2.º ano do ensino médio. "Gostar ninguém gosta, mas a maioria estuda porque é importante", disse Carolina. Para ela, a criação de um exame obrigatório tende a tornar o estudo ainda mais maçante. Beatriz concorda com medidas que permitam ao aluno saber o nível da instituição em que estuda. "Só agora estou conseguindo ter noção do que me ensinam. Seria bom saber antes de começar o ano." Mas faz uma ressalva em relação ao ensino. "Tudo é vestibular. Ainda tem muita ´decoreba´."

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