Programas não competem com universidade, dizem professores

A Rua Maria Antonia, em São Paulo, encravada entre o exclusivo bairro de Higienópolis e o deteriorado centro da cidade, já foi palco de guerra entre estudantes da USP e do Mackenzie na época da ditadura militar. Hoje, de modo democrático, elegantes senhoras de Higienópolis dividem com estudantes de mochila a sala de aula dos cursos livres mantidos pelo Centro Universitário Maria Antonia.Eles acontecem mensalmente, duram até dois meses, têm preços bastante acessíveis e professores de gabarito, que ensinam desde literatura até música erudita, passando por filosofia.A poucos metros dali, no mesmo quarteirão, o crítico Rodrigo Naves recebe um público com perfil semelhante, tão heterogêneo como o do Centro mantido pela Universidade de São Paulo. Há alguns anos, de forma despretensiosa, reuniu alguns interessados em história da arte em sua casa e, depois, numa pequena sala do bairro de Santa Cecília.O curso cresceu tanto que Naves ? considerado um dos maiores críticos do País ? foi obrigado a reformar um prédio e fazer uma seleção rigorosa do candidatos. Já não recebe neófitos, mas alunos qualificados.Em ambos os casos ? o do Maria Antonia e o curso de Naves ?, o trânsito interclassista desperta a atenção. Universitários, socialites ou aposentados do bairro têm a mesma oportunidade de aprender a linguagem do teatro de Shakespeare (com o ator Marco Antonio Pamio, no Maria Antonia) ou do expressionismo abstrato de Pollock (com Naves) sem passar pelo vestibular e pagar altas mensalidades.Diferente da pós-graduação?Há uma demanda que não se pode comparar aos cursos de pós-graduação?, diz um dos coordenadores dos cursos do centro uspiano, João Bandeira. A universidade, segundo Bandeira, não está falhando, mas crescendo junto. Ele cita o curso de Filosofia como exemplo. Há alguns anos sobravam vagas na USP. A situação atual, garante, é diferente.Competição em tempos de crise leva as pessoas a um investimento compulsório na formação profissional ? e isso é muito bom não só para os críticos-professores dos cursos livres, mas para instituições culturais, que descobriram aí um filão para manter suas atividades.O Instituto Tomie Ohtake, no bairro de Pinheiros, atraiu, por exemplo, artistas como o pintor Paulo Pasta e o pianista Dante Pignatari para ministrar, respectivamente, cursos de pintura e música.O diretor da Casa do Saber, Mário Vitor Santos, analisa a questão do ensino informal com remissão direta às práticas terapêuticas. Entre amigos, as pessoas não temem fazer perguntas que seriam consideradas tolas numa universidade. ?Muita gente relutaria em perguntar o que aconteceu antes do Big Bang a uma professora de física quântica, mas aqui isso é normal?, conta.As aulas correm como sessões coletivas de psicanálise ? com preços equivalentes, observa. ?Mas isso não quer dizer que todos sejam ricos.? De qualquer forma, 90% dos alunos da Casa do Saber têm nível universitário.  leia também  Cursos livres ensinam o que faltou na escola     Cinema e teatro atraem alunos com perfil eclético  

Agencia Estado,

17 de agosto de 2004 | 14h25

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