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Profissões do Futuro: especialista em simplicidade

Como engenheiros, administradores e economistas inquietos e questionadores podem ajudar a descomplicar a vida nas empresas

VIVIANE ZANDONADI- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

29 Julho 2015 | 14h41

Uma afirmação atribuída a Albert Einstein diz que “tudo deve ser feito tão simples quanto possível, mas não mais simples que isso”. Se uma medida de simplificação é a qualidade, simplificar de modo eficiente não é um movimento ordinário e quem orienta a própria carreira para descomplicar processos e relações de trabalho tem de saber que nessa área de atuação mergulhos rasos não funcionam.

Em uma lista de carreiras novas e emergentes que estariam em alta no mercado até 2020, surgiu um profissional identificado como “especialista em simplificar e melhorar a eficiência da tecnologia na corporação”. O estudo, publicado em 2009 e resumido neste link, foi conduzido pelo Programa de Estudo do Futuro da Fundação Instituto de Administração (Profuturo-FIA). A menos de cinco anos de 2020, o especialista em simplicidade é uma figura importante – ainda que não tenha esse nome – nas fábricas e nos escritórios. A demanda é real, porque a angústia contemporânea tem reflexos individuais e corporativos. Queremos ser mais simples e eficientes para ter tempo, viver melhor e não perder o emprego ou o trabalho. A organização, por sua vez, quer obviamente ser mais competitiva.

Em seu último relatório anual de tendências em capital humano (clique para ver), a consultoria Deloitte entrevistou 3 300 CEOs e gestores de RH em 106 países. Eles disseram que diminuir a tensão e a complexidade no ambiente de trabalho, bem como simplificar os processos, é um enorme desafio (66% acham que os funcionários estão sobrecarregados; 74% pensam que a complexidade é um problema significativo). “É o começo de um movimento de longo prazo para ajudar as pessoas a se concentrar no que importa e aliviar o stress. Estamos entrando em uma era de ‘fazer menos e melhor’ em vez de ‘fazer mais e melhor com menos’. Tecnologia, globalização e compliance [diretrizes anticorrupção] adicionam complexidade. Se não forem direcionadas corretamente, o clima, o envolvimento, a qualidade, a inovação e o relacionamento com os clientes podem ficar comprometidos. A oportunidade está em endereçar corretamente essas questões”, conclui o estudo.

 

Especialistas – Mas quem são os profissionais da simplicidade? Eles já exista? O que estudam, como trabalham? O Estado pediu a Patrícia Molino, sócia da consultoria KPMG, e a João Lins, professor da Fundação Getúlio Vargas e consultor da PwC, que em um exercício de análise e antecipação do futuro ajudassem a desenvolver um pouco mais o perfil dos profissionais que o mercado precisa para transformar o modo como produzimos, entregamos e nos relacionamos com as tarefas. Veja a seguir as principais afirmações de cada um deles.

Patrícia Molino, sócia da consultoria KPMG:

“Eu não sei se as empresas terão especialistas em simplicidade, com esse nome e formato. O que fica muito claro para mim, porém, é que simplificar é uma demanda urgente, parruda, consistente e real.”

Competências – “Eu acho que as competências e expectativas vão depender do ambiente, da indústria e do segmento. Simplificar na mineração vai ser diferente de simplificar em telefonia, que vai ser diferente de simplificar em metalúrgica, que vai ser diferente de simplificar no banco. Mas algumas coisas são inerentes e terão de ser consideradas: quem abraçar o desafio de simplificar vai ter de trafegar por conhecimentos que hoje talvez estejam segmentados”.

Habilidade e conhecimento – “O profissional precisará ter um entendimento humano não só do ponto de vista das motivações individuais, mas também em termos sociológicos. Como os grupos funcionam e se organizam e qual é o preço de trabalhar ou não juntos? Isso deverá ser aplicado também nas relações com fornecedores, terceiros e clientes. Outros saberes importantes: produtividade, tecnologia, alternativas, processos e caminhos de trabalho. Estudará compliance (obrigação, regulamentação e ética); projetos (qualquer transformação passa por começo, meio e fim); qualidade (a simplificação não pode ter impacto negativo) e sustentabilidade (‘É mais simples se eu usar tudo descartável. Será que resolve?’; ‘É mais simples eu reaproveitar a água. Funciona?’)”.

Desafio – “Eu acho que o desafio vai ser olhar o trabalho e identificar o que é necessário para continuar cumprindo a lei, atender aos requerimentos e às partes interessadas. Aí a gente inclui o indivíduo ou o grupo que realiza o trabalho, cliente, fornecedor, mercado acionista etc. Como eu preservo produtividade e eficiência, ao buscar uma mudança que aumente o resultado e não o comprometa?”.

Perfil – “São mentes inquietas que fazem perguntas o tempo todo. Não pode ser uma pessoa que não pergunta ‘e se...?’. E se eu fizer de casa ou não? E se eu terceirizar? E se eu colocar um sistema para fazer? O viés de tecnologia é brutal. Boa parte dessas soluções de simplicidade virão das respostas de tecnologia. E no momento em que a gente vive de data analytics talvez você possa formular as suas perguntas para entender os problemas através dos dados. A formulação dos questionamentos virá muitas vezes do saber tecnológico”.

Satisfação – “Acho que isso vai também endereçar uma tentativa de limitar as horas de trabalho e o desgaste. Eventualmente vai passar por não dispender três horas no trânsito ou poder estar em contato com a comunidade. Isso vem sendo um exercício de felicidade pessoal. Eu ouço falar muito em retorno e busca da simplicidade. No mundo em que a gente vive, essa quantidade de aplicativos, essa urgência, as demandas e as próprias questões regulatórias, não há um tempo dedicado. É uma coisa meio assustadora. Acho que os distúrbios de atenção, a complexidade e a tensão têm consequências físicas e fisiológicas para o ser humano.”

Individual e coletivo – “A busca pela simplicidade será pessoal, mas a capacidade que o indivíduo tem de influenciar a simplicidade no trabalho é limitada. Se eu propuser para o meu chefe que serei mais feliz fazendo home office, de alguma forma estou enfrentando o status quo implementado nessa empresa que diz que as pessoas têm de estar no escritório todos os dias. Sozinha é bastante complexo. Existe a necessidade individual de cada pessoa escolher se vai para o trabalho de carro ou de metrô, de carona ou de Uber, mas ela não vai conseguir sozinha convencer a empresa a implementar horário flexível e home office. Ela tem um limite. Uma parte da simplificação precisa de uma demanda corporativa e que dá poder para alguém desafiar o status quo mais profundamente. Eu acho que boa parte dos escritórios de projeto das empresas e de consultoria passam pela questão de estruturar a simplicidade.”

Prioridades – Eu acho que a simplicidade está nos valores e competências básicas das empresas. Elas entendem que deveria ser core, estar na mentalidade de cada pessoa e que, na dúvida, qualquer decisão deve ser pautada pelo mais simples. Mas de isso ser um desejo até ser prática em ter um profissional focado em resolver, eu acho que tem um tempo. Está na pauta, há preocupação, mas o foco não é esse. Hoje a simplicidade está passando como segunda entrega de outra demanda principal.

Dificuldades – “A maior parte das ferramentas e coisas geradas para promover simplicidade criam complexidade. Se antes eu só tinha de olhar minha mesa de memorando, eu tenho de olhar hoje minha mesa de correio, e-mail, aplicativos de mensagens. Quando eu vou procurar essa informação, ela está em qualquer lugar. O tempo que eu tenho é cada vez menor o cliente tem exigência cada vez mais customizada. Há questões contemporâneas que se opõem à simplicidade e algumas coisas até que são criadas para simplificar no fim complicam”.

Inteligência cultural – “A gente precisa ter pessoas mais focadas em aprender do que em usar o que elas já sabem. Eu preciso estar focado em poder incorporar novos saberes a partir da minha experiência, mais do que em querer usar a fórmula aprendida no colégio. A sociedade vem de um nível de transformação que não está resolvido. A questão de inteligência cultural, de poder lidar com questões mais globais, ainda é assunto em muita empresa”.

A função da tecnologia – “Eu não sei se vai chamar especialista em simplicidade e se vai ter um em cada empresa. Talvez exista na consultoria interna, no RH ou nos escritórios de projeto. Talvez brote das áreas de qualidade ou de processo, mas eu acho que tem a força da busca por simplicidade: eliminar o que não adiciona valor, simplificar o que é feito, procurar maneiras que gerem menos desgaste aos indivíduos, que sejam mais confortáveis para os grupos, procurar resultados melhores para clientes e fornecedores em conjunto eu acho que é um drive e usar tecnologia para isso, que a tecnologia, em vez de nos escravizar, nos liberte”.

João Lins, consultor da PwC e professor da FGV:

“Eu acho que esse profissional já existe. Ele começa a se disseminar no Brasil nos anos 90 e agora se intensifica e se espalha. O vetor de transformação do trabalho nesta década e na próxima é muito direcionado pela inovação tecnológica”.

Personagem histórico – “Na minha percepção, dos últimos trinta anos, ele aparece pela primeira vez de maneira muito forte no movimento de qualidade e competitividade dos anos 90, quando cresceu o papel dos profissionais de melhoria de processo, primeiro nas fábricas e depois em serviços e escritórios. Isso se intensificou na primeira década deste século”.

Tendência – “Agora e na próxima década, esse profissional da simplificação, da otimização de processos, da melhoria do atendimento, vai ganhar uma roupagem tecnológica, porque o vetor de transformação do trabalho é direcionado pela inovação tecnológica e essa melhoria, essa simplificação, assume uma conotação de inovação radical”.

Origens – “No princípio, eram os analistas de organização e método (O&M), nos escritórios, e os engenheiros de processo, nas fábricas, os que tinham o domínio da simplificação dos processos. Eles diziam aos outros como trabalhar. Com o movimento da qualidade, você passa a ter a ideia de que todo mundo, dentro de certos limites, pode achar uma maneira de melhorar seu trabalho reduzindo burocracia e economizando recursos. Isso passou a ser obrigação de todo profissional eficiente. Na primeira década dos anos 2000, surgiram forças-tarefas com essa missão de simplificação. Essas forças, dentro da metodologia Six Sigma(*), eram identificadas por cinturões que certificavam o grau de capacitação das pessoas em fazer a transformação e lidar com realidades complexas. A melhoria de processos simples já não era suficiente. São profissionais da área financeira, de logística ou RH que ganharam treinamento adicional para fazer parte das forças de simplificação e em geral atuar preventivamente numa determinada área em projetos estruturados de simplificação. A terceira virada de chave é agora, quando esse mesmo papel é turbinado pela inovação tecnológica”.

*Six Sigma ou Seis Sigma é o conjunto de práticas e aplicação de metodologia para obter melhores resultados e qualidade. Na esteira do Six Sigma surgiram cinturões (belts), como o blue, o green e o black belt, que são na verdade certificações na formação dos profissionais voltados à transformação de processos. Eles são treinados em ferramentas estatísticas mais sofisticadas para fazer análise de processo, estratégias de gestão da mudança, gerenciamento de projeto, para você trazer essa inovação e simplificação.

Transformações – “Agora, talvez de uma maneira menos estruturada, os profissionais estão pensando em usar a tecnologia para revolucionar seu trabalho e simplificar as coisas. Se uma empresa que oferece soluções de videoconferência e ferramentas de colaboração chega em um escritório e propõe que a equipe de vendedores espalhada em várias localidades entre numa dinâmica de encontros virtuais periódicos usando essa uma nova ferramenta, ela transforma o trabalho. Usar um aplicativo para compartilhar documentos, e três pessoas trabalharem simultaneamente em um contrato, uma em cada lugar, como ocorre no Google Docs, simplifica o trabalho enormemente”.

Autonomia – “Antes, o vetor da transformação tecnológica estava muito dependente da área de tecnologia. Quando eu queria eliminar um formulário em papel, gerar um eletrônico, eu precisava chamar um analista de sistemas que desenhasse a solução, levasse aos programadores e fizesse um ajuste. Eu continuo tendo brigadistas, os caras que atuam em projetos. Mas agora eu como profissional comum tenho hoje à disposição dezenas de ferramentas e aplicativos muitas vezes disponíveis nos sistemas corporativos para fazer a simplificação do meu trabalho sem depender do analista de sistemas”.

Formação – “Já encontramos esses profissionais nas empresas de consultoria e, dentro das empresas, na área de gestão de processos. Existem várias formações que direcionam para essa área, como economia, administração e engenharia. Normalmente elas trabalham as ferramentas necessárias, principalmente da engenharia de produção. Essas são as principais carreiras, e elas devem evoluir para incorporar novas ferramentas”.

Postura – “O que é legal é que grande parte dessa capacidade de fazer mudança e contribuir para a fluidez vem de uma postura e de uma formação básica mais ampla, que é você se interessar por lógica e ter um posicionamento científico e questionador. ‘Por que as coisas são feitas desse jeito?’. Eu diria que esse profissional depende muito de adaptação e mudança, junto com a formação específica. Profissionais de todas as áreas que se interessem por essa flexibilidade e adaptação vão poder se dar bem no ambiente de trabalho do futuro”.

Capacidades criativa – “Tem essa questão da lógica, de relacionar causas e efeitos, aprimorar a capacidade analítica e, do lado da formação humanística, adotar a postura questionadora das coisas e das regras e das políticas. O mundo como a gente vê hoje é formado por um conjunto de convenções. Mudam-se as premissas ou convenções e a realidade muda. Eu nunca imaginava que ia ter algo na mão que eu ia apertar um botão e aparecer um táxi e eu não tenho que pagar nada por isso. Se pensar o trabalho que dava antes para programar, achar um táxi de madrugada... e de uma hora para a outra sua vida simplificou, porque alguém mudou as premissas. Essa capacidade criativa vai ser fundamental no futuro”.

Futuro – “Quando eu tento imaginar o futuro eu acho que vai continuar a existir um profissional da simplificação destacado de suas funções tradicionais para atuar temporariamente num projeto [de transformação e simplificação] e há também a iniciativa de cada profissional de pensar em como pode ser produtivo e usar as ferramentas tecnológicas disponíveis para simplificar e melhorar o trabalho”.

Duas realidades – “O profissional comum tem um espaço de liberdade onde ele pode fazer melhoria e simplificação, mas ele esbarra em políticas corporativas estabelecidas. Sempre tem uma área dentro da empresa específica para estimular grandes mudanças, como qualidade, estratégia e processos. Isso vai continuar, porque alguns projetos precisam de mudança na política empresarial e no preparo da tecnologia. Vamos viver as duas realidades”.

Condições – “O sucesso das empresas vai depender cada vez mais de criar ambientes onde eu tenha mais espaço para inovação e flexibilidade. No ano passado, a PwC publicou um trabalho em parceria com o Linkedin chamado “Adaptar-se para sobreviver”, em que tentamos entender a relação da força de trabalho e o desempenho das empresas. Conseguimos mostrar, ao cruzar dados da rede social e da Price, que em países onde a força de trabalho era mais flexível e adaptável as empresas tinham uma produtividade maior”.

Para os profissionais, uma das recomendações finais do estudo citado por Lins é: “ter uma mente aberta e de longo prazo para sua carreira. Isso significa ousadia ao olhar para além das fronteiras geográficas e setoriais em termos de experiência e aprendizagem, antecipando as habilidades que serão necessárias no futuro e mostrando sua capacidade de adaptabilidade”.

Paradoxo – “O nosso ambiente se torna cada vez mais complexo e temos muitas ferramentas à disposição para ser mais eficientes. Isso permite, se usar de maneira inteligente, simplificar a vida. Mas eu vou precisar gastar algum tempo planejando meu trabalho e refletindo sobre ele para ver como essas ferramentas podem me ajudar e não as transformar em objetos de dispersão que vão me atrapalhar. Esse profissional que vai atuar na simplificação não pode correr o risco de reduzir a complexidade do ambiente. Quem criou uma solução que simplifica a nossa vida em determinado momento parou e pensou sobre as coisas. O mesmo acontece no dia de trabalho. Às vezes te colocam uma demanda e você tem cinco ou seis ferramentas. Se usar todas, não vai dar tempo de resolver seu problema. Antes de agir, é importante parar, planejar, pensar. Um erro que eu vejo muito comum em jovens profissionais é partir para a ação – e o mundo hoje nos demanda muita ação e reação – e investir pouco na reflexão, quando esses minutos ou horas vão te poupar tempo lá na frente em termos de retrabalho”.

Equilíbrio – “Estamos o tempo todo conectados e isso só vai piorar. Um valor emergente muito forte da sociedade é a busca pelo equilíbrio profissional e pessoal. Essa também é uma equação a ser resolvida pelos profissionais daqui pra frente.”

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