ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Profissional de Administração: o polivalente que concretiza projetos

Novas gerações buscam na graduação a base para inovar e empreender na área, mesclando conhecimentos de Matemática e de Humanas

Luciana Alvarez, Especial para O Estado

29 Setembro 2016 | 03h00

Um curso de Administração costuma oferecer boas doses de Matemática (com disciplinas de Finanças, Logística, Marketing e Estatística) misturadas a generosas porções de Humanidades (há matérias como Sociologia, Psicologia e Gestão). Esses conhecimentos tão diversos se reúnem para formar um profissional capaz de organizar negócios, fazer planejamentos, pôr projetos em prática e, assim, realizar sonhos. 

“O administrador pode atuar em diferentes segmentos, e essa diversidade atrai os jovens”, afirmou a coordenadora do curso de Administração da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Graziella Comini. É possível trabalhar no próprio negócio ou de outras pessoas, em empresas de médio ou grande porte, companhias particulares, órgãos públicos ou terceiro setor. “Toda organização precisa de pessoas para tomar as decisões, planejar as ações. É algo bastante estimulante.” 

Para Graziella, o administrador é uma espécie de maestro que precisa coordenar as pessoas que operam diversos instrumentos. “O importante é o conhecimento dessa engrenagem, para fazê-la girar. É um profissional mais generalista, sem a necessidade de um conhecimento extremamente técnico, como no caso de um curso de Medicina ou Engenharia, por exemplo.” 

O estudante da USP Eduardo Urtado conta que na época do vestibular cogitou fazer Economia, mas preferiu Administração porque a grade do curso tem uma maior diversidade de assuntos. “Depois de formado, posso até me focar em alguma área.” E a escolha tem se mostrado acertada. “Eu me identifiquei muito, em grande parte por ter participado da empresa júnior da faculdade, pois foi a oportunidade de ver como os conteúdos se encaixam na prática.” 

Urtado entrou na companhia durante a graduação quando ainda estava no primeiro semestre e ficou até o fim do terceiro ano, chegando a ser o presidente da empresa. Só saiu no fim do terceiro ano, para procurar um estágio. Está em uma consultoria, diz que gosta bastante da área, mas alimenta planos de, mais tarde, ter o próprio negócio. “Desejo empreender, mas antes preciso de maturidade pessoal e profissional, além do capital financeiro inicial.” Ele está administrando a própria carreira para conseguir realizar seu objetivo. 

Há 30 anos na universidade, contando desde os tempos de aluna, Graziella sente que uma das principais mudanças ao longo do tempo está na expectativa dos jovens que entram no curso. “Minha geração queria fazer carreira em uma única organização. Hoje, os estudantes buscam um sentido para o trabalho, querem produzir impacto social.”

Para acompanhar as alterações nos anseios dos jovens, o curso da USP também foi mudando de perfil: “Nosso objetivo é formar agentes de transformação do País, pessoas que vão fazer a diferença, com a bagagem e a segurança para promover as mudanças necessárias e, dessa forma, realizar seus sonhos.” 

Potencial. Na escola, Fernando Assad organizava eventos e reabriu o grêmio, fechado na época da ditadura. Decidiu cursar Administração por acreditar que seu talento de fazer as coisas acontecerem seria potencializado pelo curso. Estava certo. Logo na aula magna da USP foi mordido pela vontade de trabalhar com a alfabetização de adultos. “Mostraram que se cada universitário alfabetizasse um adulto, em cinco anos erradicaríamos o analfabetismo. Eu disse: vamos fazer!”

Para realizar esse primeiro sonho, teve de ser muito “cabeça dura”. Além dos entraves burocráticos, enfrentouo menosprezo ao projeto. “As pessoas diziam que era ideia de jerico fazer isso na USP, um centro de excelência.” Mas em uma semana de pesquisa, encontrou cem pessoas analfabetas que trabalhavam no câmpus. O projeto foi adiante e conseguiu alfabetizar mais de 500 adultos. “Mais do que um sonho, é preciso ter resiliência”, diz o administrador, que atuava sobretudo na organização da iniciativa, encontrando das salas, buscando os recursos, recrutando voluntários.

No segundo ano de faculdade, Assad lançou uma consultoria focada em projetos sociai. Ajudou, por exemplo, comunidades quilombolas do Amapá a fazer sua gestão financeira e planejamento estratégico. A conta era paga por uma fundação internacional. “Eu era um estudante atípico, aquele cara meio hippie, que nunca desejou trabalhar em grandes empresas, mas que no segundo ano já era empresário.” Atualmente está envolvido com um projeto de urbanização de favelas, o Vivenda, que oferece reformas para população de baixa renda, num modelo que melhora a qualidade das moradias ao mesmo tempo que dá retorno financeiro aos donos do negócio.

Oportunidade. A dimensão humana é também o que encanta Leda Maemy Sato. Mas a princípio, foi a vontade de enfrentar desafios sempre diferentes que trouxe a estudante para a Administração. “Meu pai tem uma empresa e eu via na prática como a administração é dinâmica.” Nos anos iniciais da faculdade, Leda trabalhou em uma das empresas júnior da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), onde estuda, e fez um programa de intercâmbio na área de empreendedorismo em Boston, nos Estados Unidos.

Acabou se tornando diretora de intercâmbio social de uma organização estudantil presente em 130 países do mundo, e foi com essa experiência que Leda percebeu a relevância de saber lidar com as pessoas para crescer na carreira. “Acredito que a visão humana é muito importante para o administrador. Não é a busca por riqueza que deve nos conduzir, mas o poder de influenciar positivamente outras pessoas. Procuro treinar para ser essa líder.”

O coordenador da graduação em Administração na FGV, Nelson Lerner Barth, diz que em relação a outras formações que também trabalham na gestão de empresas, o administrador é o que costuma ter a dimensão mais humana. “É preciso entender a sociedade, o ser humano. Antes de tudo, ele administra pessoas.” Embora a necessidade de trabalhar em grupo, se comunicar bem e motivar os outros não sejam novidades, Barth acredita que cada vez mais o mercado vem reconhecendo a importância dessas habilidades nos profissionais.

Portanto, o conhecimento de questões puramente técnicas deve ser visto como secundário na carreira. “Se você é bom em derivativos, no início da carreira vai ser disputado pelos bancos, mas e depois? E as estratégias? E como vai liderar as pessoas?” O professor defende que, no momento atual, todos os profissionais precisam olhar a si mesmos como uma empresa. “Você é como um produto no mercado e, assim, tem de administrar sua carreira em primeiro lugar. E o mais importante é mostrar resultados.”

Segundo Barth, para “mostrar resultados” no longo prazo, o que mais faz diferença na carreira de um administrador de sucesso são as atitudes. “Conhecimento é saber estatística, todo mundo pode aprender. Habilidade é saber negociar, todo mundo pode praticar. Atitude é sua postura na hora de analisar os dados ou negociar. Tem de ter seriedade, honrar sua palavra; isso nenhuma escola ensina.” 

Futuro do administrador. Luciana Yeung, coordenadora acadêmica da graduação do Insper, acredita que, para se dar bem no futuro, o profissional precisa ter capacidade de adaptação. De acordo com ela, atualmente vivemos um período de modernização da gestão das empresas, com muitas práticas do exterior passando a ser adotadas por aqui. “Temos muito a aprender.” 

A tecnologia, é claro, tem grande parcela de responsabilidade pelas mudanças em curso no universo corporativo. Além da gestão apoiada em ferramentas digitais, os profissionais precisam aprender a lidar com outras formas de comunicação nas novas mídias. E, de forma ainda mais profunda, a inovação tecnológica tem modificado o próprio cerne dos negócios. “Temos uma oferta de produtos e serviços que há pouco tempo não existiam. A concorrência também é outra.”

O problema, diz, é que muitas faculdades são incapazes de acompanhar o ritmo. “De forma geral, os cursos não mudaram tanto quanto a carreira em si. Isso muitas vezes perpetua a ideia de que a faculdade não serve para nada. É importante a academia interagir sempre com o mercado, dar a possibilidade de renovação dos programas. Esse é um processo permanente.” 

Frente a esse novo mundo, o administrador de agora e do futuro precisa também se preparar para trabalhar e analisar um grande volume de dados. O que chamam de big data implica numa verdadeira revolução no mundo dos negócios, defende a coordenadora. “O profissional precisa de muito preparo para lidar com tantas informações e chegar a conclusões. Se o administrador não for capaz de trabalhar com essa inteligência, pode ficar restrito a posições de hierarquia menor dentro da empresa.”

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