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Profissão do Futuro: nutrição personalizada

A relação entre genética e alimentos está transformando o trabalho dos cientistas e nutricionistas. Veja áreas de atuação promissoras

VIVIANE ZANDONADI- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2015 | 09h47

Por que uma pessoa responde a uma determinada dieta emagrecendo satisfatoriamente e outra, comendo exatamente as mesmas coisas, não vê o ponteiro da balança sair do lugar? O que acontece em cada célula do meu organismo quando eu passo a ingerir, com regularidade, frutas vermelhas? Isso pode ter efeitos e reações genéticos diferentes em mim e em você? De que forma isso tudo pode determinar se eu terei mais ou menos saúde no futuro? A interação da genética e dos alimentos está revolucionando o trabalho dos cientistas da alimentação e dos nutricionistas. O conhecimento, por sua vez, transforma o modo como nos relacionamos com a comida.

De um lado, as pesquisas que investigam a relação de genética e alimentação são uma área de trabalho fascinante para quem deseja atuar em laboratório. A nutrição, assim como a medicina, não existe sem a comprovação científica. Abre-se assim um campo de trabalho enorme para epidemiologistas, cientistas de alimentação, os próprios nutricionistas e mais: biólogos, geneticistas, bioquímicos, farmacêuticos e bioinformatas e estatísticos preparados para lidar com a enorme quantidade de dados gerados por tantos estudos.

De outro lado, o nutricionista vai a campo e ajuda a aplicar na vida real (interpretar, utilizar, traduzir para seus clientes) os resultados das pesquisas científicas na área de alimentação e nutrição. E, estimulados justamente pela produção da ciência, surgem os primeiros traços mais definidos da nutrição personalizada.

No laboratório – O farmacêutico bioquímico Thomas Ong tem doutorado em ciência dos alimentos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado na área de programação metabólica na Universidade de Cambridge. É professor no departamento de nutrição experimental da USP e pesquisador associado ao Food Research Center, um centro de pesquisa apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Na USP, Ong coordena um laboratório de nutrigenômica e programação. “Queremos entender de que maneira a nutrição da mãe em etapas-chave do desenvolvimento, como gestação e lactação, pode afetar a saúde das filhas no longo prazo”, explica. “A hipótese é de que essas experiências da mãe podem programar o risco do câncer de mama quando essas meninas se tornam adultas. A ideia é entender quais são os padrões de alimentação que programam esse risco maior e entender os mecanismos moleculares que estariam envolvidos. Se a gente conseguir entender como isso acontece, pode se estabelecer novas estratégias de redução do risco dessa doença, que é um problema de saúde pública, e começa já a pensar em uma boa nutrição materna durante a gestação e a lactação para maximizar a saúde das filhas.”

Ong conta que o estudo tem sido feito em uma porção de camundongos, mães e filhas, divididos em dois grupos e acompanhados durante anos. Em um desses grupos, a dieta das mães era rica em banha de porco. No outro, a ração foi balanceada. Já se sabe que as filhas de mães que tiveram uma dieta rica em banha de porco tiveram menor incidência de câncer de mama do que as filhas de mães que consumiram a ração balanceada. “Não estamos recomendando ingerir banha de porco como prevenção do câncer de mama, porque é um estudo inicial. Mas o que esses dados contam é que o início da vida é um momento importante para pensar em estratégias de prevenção de doenças crônicas e que provavelmente, na vida real, seria interessante que você tivesse uma combinação de ácidos graxos que vai encontrar em diferentes tipos de gordura. Então, o excesso de saturada é ruim, sim, mas se tiver um pouco de saturada, com ômega 3 e ômega 6, isso talvez leve a um aumento da saúde das filhas. É justamente atrás dessa combinação que nós estamos indo.”

Essa investigação é amparada em um ramo da nutrição chamado nutrigenômica, um termo relativamente novo que surge na literatura científica no começo da década de 2000. “Naquela época, com a conclusão do projeto genoma humano, havia uma expectativa muito grande de que com base na informação contida no DNA a gente ia estabelecer a cura dessas doenças crônicas que hoje são as que mais matam, como doença cardiovascular, diabete e câncer”, relata Ong. “Hoje, mais de uma década depois, o desafio é muito grande, porque essas doenças decorrem não apenas das informações contidas no DNA, mas também em função do meio-ambiente ao qual estamos expostos. O estado de saúde vai ser influenciado por uma interação entre o genoma e os fatores ambientais, dentre eles poluição, exercício físico, consumo de medicamentos e, para a área de nutrição, a alimentação é um dos principais fatores. Se estima que 30% dos cânceres em termos mundiais estariam relacionados à alimentação.”

Nutrigenômica, nutrigenética, nutri-epigenética – A nutrigenômica, especialidade do laboratório que Ong coordena, estuda a interação entre o genoma e os alimentos. Ela quer saber de que forma o que comemos interfere no funcionamento dos genes e a diferença que isso faz, para o bem e para o mal, na nossa saúde.

Outros dois ramos novos na nutrição estão, junto com a nutrigenômica, ajudando a promover essa transformação no conhecimento que se tem sobre o que e como comemos, e o que isso muda em nossas vidas e de nossos filhos no futuro. Um deles é a nutrigenética, que investiga como características individuais afetam o risco para doenças crônicas e como essa variação genética afeta a forma com que cada pessoa responde a uma mesma alimentação. “Em consultório se vê muito que muitas vezes uma mesma recomendação para emagrecer funciona para um indivíduo e não para outro. Isso em parte se explica pela genética. A nutrigenética estuda a perspectiva da constituição genética prevendo como que você responde à alimentação”, diz o cientista Thomas Ong. “Com isso, será possível, no futuro, a prescrição de uma “dieta personalizada” de acordo com a constituição genética do paciente”, completa a professora do Mackenzie e nutricionista Renata Furlan Viebig.

O outro termo chave é a nutri-epigenética, que considera o impacto da alimentação na expressão dos genes, no modo como eles são ligados e desligados. “As alterações epigenéticas ocorrem em momentos específicos da vida e são potencialmente reversíveis, diferentemente das mutações genéticas”, explica Renata. “Elas não modificam a sequência do DNA, mas podem ser transmitidas às próximas gerações. Os mecanismos epigenéticos estão associados a doenças como obesidade e diabetes.”

Para estabelecer recomendações que possam melhorar a saúde e reduzir os riscos de doenças, cada vez mais é importante entender o que os alimentos fazem em nível molecular. Isso é justamente o que a nutrigenômica, a nutrigenética e a nutriepigenética se propõem. Trazer informações em relação às informações biológicas e moleculares. Nesse sentido, o papel do nutricionista é estratégico para a saúde das pessoas. E não importa se ele vai atuar na pesquisa ou na aplicação. É assim agora e sobretudo no futuro, quando muito mais respostas estarão disponíveis.

Formação e oportunidades – Para a professora Renata, a nutrição é bastante promissora em termos de atuação e a área se expande na medida em que as pesquisas avançam e mais estudiosos se interessam por elas. “Há boas possibilidades também em hospitais e unidades produtoras de refeições, bem como na área de saúde pública. Essas são as três principais vertentes. Entretanto, novos nichos têm surgido, como restaurantes comerciais, hotéis, supermercados, lojas de suplementos nutricionais, academias de ginástica, clubes, serviços de atendimento ao consumidor e lojas virtuais, entre outros.”

Renata recomenda que o futuro nutricionista se esforce para ser um cuidador em saúde, sem impor regras rígidas nem simplesmente separar alimentos em bons ou ruins ou desestimular a autoestima. “Hoje em dia, não há quem não esteja preocupado em comer corretamente, muitos se interessam por alimentos orgânicos, não transgênicos, livres de gorduras e açúcares. Ocorre que em excesso tal preocupação pode se tornar uma obsessão e levar a um tipo de transtorno alimentar da atualidade, a ortorexia nervosa, na qual o paciente “se obriga” a comer corretamente. Muitos profissionais da área da saúde têm percebido que este contexto não promove a mudança de comportamento e não torna as pessoas mais saudáveis. Evidências científicas apontam para a importância do prazer de comer e os resultados do atendimento nutricional parecem ser mais efetivos quando há uma comunicação responsável, positiva e inclusiva na promoção de um comportamento saudável.”

A pedido do Estado, Renata listou algumas especialidades em destaque. Veja abaixo:

Nutrição esportiva: ganha impulso no combate ao sedentarismo e na redução dos riscos de doenças crônicas não transmissíveis, além da promoção de uma alimentação que propicie a melhor performance de atletas.

Hotelaria e a gastronomia: a expressiva expansão de lazer e turismo cria oportunidades em restaurantes comerciais e hospitais.

Nutrição clínica: atuação em equipes multidisciplinares e em atendimento domiciliar (home care), especialmente na área de geriatria.

Indústria de alimentos: relações com o mercado; políticas e regulamentações; comunicação nutricional e desenvolvimento de novos produtos.

Tecnologia: os nutricionistas têm se envolvido nos processos de desenvolvimento de software, equipamentos e aplicativos que ajudam na avaliação da composição corporal dos indivíduos, no manejo das refeições e no oferecimento de informações nutricionais para a saúde.

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