Washington Alves/Estadão
Com o dinheiro que vem da popularidade nas redes, a estudante de História da UFMG Débora Aladim, de 21 anos, saiu da casa dos pais, alugou um apartamento e se sustenta Washington Alves/Estadão

Professores youtubers, edutubers atraem 5 milhões para aulas fora da escola

Tratados como estrelas nas redes sociais, educadores fazem sucesso com linguagem fácil e estratégias para entreter o estudante

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 13h00
Atualizado 30 de novembro de 2019 | 19h00

SÃO PAULO - Animações digitais fazem letras subirem e descerem da tela, enquanto o professor ensina o que são as palavras oxítonas. No fim, ele canta o “funk da acentuação”. A professora jovem fala da Primeira Guerra Mundial como se tivesse batendo um papo, mas com conteúdo na ponta da língua, em um cenário montado em um quarto de adolescente.

Professores youtubers - já chamados de edutubers - fazem sucesso aproveitando-se justamente do que os jovens sentem falta na educação formal: agilidade, linguagem fácil e próxima dos adolescentes, estratégias para entreter o aluno. Os canais com vídeo aulas chegam a ter 5 milhões de visualizações por mês. Nas redes sociais, os professores são tratados como estrelas e têm até fã-clube.

Só com a receita vinda dos vídeos, a chamada “monetização do YouTube”, que leva em conta visualizações e publicidade, os mais conhecidos ganham cerca de US$ 2 mil (R$ 8.400) por mês. O piso salarial do professor do ensino básico público no Brasil é de R$ 2.455. O salário de um professor de ensino médio na maioria das escolas particulares de São Paulo é de menos de R$ 6 mil, segundo dados informados ao sindicato da categoria.

A popularidade dos vídeos faz com que eles vendam ainda cursos online, posts patrocinados nas redes sociais e sejam chamados para aulões pelo País por colégios e empresas ligadas a educação. O cachê pela participação é de cerca de R$ 8 mil.

“A sala de aula ficou obsoleta, agora o aluno pode voltar, pausar, ouvir de novo a explicação que não entendeu”, acredita o curitibano Noslen Borges de Oliveira, de 40 anos, o professor Noslen.

Recentemente, ele se demitiu do último dos sete empregos que acumulava, dando aulas em escolas e cursinhos. Hoje, só na internet, já ganha mais.

“Na escola, o professor de Português é aquele que foi colocado lá e pronto. O aluno (na internet) gosta de mim porque me escolheu.”

Seu canal de Português e Literatura tem 2,4 milhões de inscritos, que é como se chama quem o acompanha com frequência e recebe notificações sempre que um vídeo novo é postado. São alunos de São Paulo, Rio e Nordeste do País, entre 17 e 24 anos, conta. Bem humorado, ele assoa o nariz no meio da explicação sobre orações subordinadas e não edita quando se confunde ao falar.

Nos últimos 30 dias, período final da preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), foram 5,7 milhões de visualizações no canal do professor Noslen.

“As pessoas me param nos shoppings, na rua, na praia, para me agradecer pelo conteúdo, tiram fotos. Isso é muito legal.”

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A sala de aula ficou obsoleta, agora o aluno pode voltar, pausar, ouvir de novo a explicação que não entendeu
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Noslen Borges de Oliveira, edutuber

Veja vídeo do canal do professor Noslen:

“É a valorização do professor, acostumado a ser tão desprestigiado no Brasil”, diz a pedagoga Joana Dourado, que pesquisa os “professores influenciadores” para uma tese de doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Estudos recentes mostram que atualmente só 2,4% dos jovens de 15 anos no País querem ser professores porque a carreira passa a impressão de pouca realização pessoal. Muitos veem a docência ligada a baixos salários, condições de trabalho ruim e desprestígio na sociedade.  

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É a valorização do professor, acostumado a ser tão desprestigiado no Brasil
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Joana Dourado, pedagoga e pesquisadora

Para Joana, por outro lado, a “sedução do aluno pelo espetáculo”, que ocorre no YouTube, tem resultados positivos e pode ajudar a abrir os olhos do professor tradicional para o mundo digital. Segundo dados do próprio YouTube Brasil, nove entre dez usuários usam a plataforma para estudar e buscar conteúdos de educação.

“Aula nem sempre é chata como se pensa, pois as pessoas gostam de aprender se o conteúdo está associado ao entretenimento ou a algum assunto que seja do interesse de quem vai assistir”, completa Priscila Gonsales, fundadora do Educadigital, entidade que faz projetos em educação na cultura digital.

Para ela, não há prejuízo em um estudante assistir a uma aula na escola e depois ver cinco minutos de um conteúdo online para reforçar.

“O perfil dos estudantes é outro e o mundo fora das escolas é tomado pelo contexto digital. Mas continua sendo muito importante para a escola ser o espaço de acolhida para debates e reflexões sobre quem somos e como estamos sendo cooptados e influenciados pelas mídias digitais.”

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Aula nem sempre é chata como se pensa, pois as pessoas gostam de aprender
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Priscila Gonsales, fundadora do Educadigital

Por causa da grande evasão no ensino médio público, em que estudam os adolescentes, muito se discute o quanto a educação está distante dos jovens do século 21. Mas, apesar da necessidade de se repensar as práticas pedagógicas, dizem as especialistas, a escola continua sendo um espaço essencial para aprender valores, ética, interações sociais e reflexões, imprescindíveis para a educação. O ideal é uma estratégia híbrida, em que os professores possam ser mediadores do conteúdo digital e ele funcione como um complemento.

Fora da escola

A youtuber mineira Débora Aladim, de 21 anos, foi uma das sensações de um aulão preparatório para o Enem, patrocinado pelo Santander em outubro no Ginásio do Ibirapuera, com 6 mil alunos. Ela ainda cursa História na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e seu canal no YouTube, em que faz vídeos como “A revolução francesa em 5 minutos”, tem 2,3 milhões de inscritos. 

Débora se forma professora em breve e não pensa em trabalhar em escolas.

“Como professora online tenho liberdade, monto minhas aulas de acordo com a demanda”, diz.

Com o dinheiro que vem da popularidade nas redes, ela saiu da casa dos pais, alugou um apartamento e se sustenta. Débora grava os vídeos sozinha, na sua casa, e tem apenas um editor para fazer a montagem. Mas sua equipe inclui empresário e assessores.

Filha de um veterinário e uma dentista, ela virou youtuber por acaso. Quando tinha 15 anos,  costumava escrever resumos de História para os colegas antes das provas. Certo dia, seu computador quebrou e ela fez o resumo em vídeo, no celular. Como era pesado demais, teve de colocar no YouTube para que os colegas pudessem assistir. O vídeo teve rapidamente mil visualizações, e ela percebeu que podia fazer mais.

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Como professora online tenho liberdade, monto minhas aulas de acordo com a demanda
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Débora Aladim, edutuber

Hoje, os mais vistos do seu canal são truques para se dar bem na redação do Enem - outro tema que ela passou a ensinar. Um dos campeões, com 3 milhões de visualizações, chama-se “Escrevendo redação sem saber nada do tema”. Débora é popular também no Instagram, onde posta viagens, tatuagem, fotos com o namorado e faz posts patrocinados pela Uber Eats.

Veja vídeo do canal de Débora Aladim:

O matemático Daniel Ferretto, de 44 anos, tem mais o estilo de professor de cursinho convencional. Foi justamente como ele começou em Santa Catarina em 1998, quando chegou a dar 65 aulas por semana em sete cidades. Em 2012, passou em um concurso para papiloscopista na Polícia Federal. Mas sentia falta das aulas e arriscou gravar um vídeo sobre adição simples.

“Em um dos quartos de casa montei um estúdio, com cadeira, tripé e lousinha”, conta.

Aprendeu sobre equipamentos de vídeo, edição e fez tudo sozinho.

“No começo tinham quatro inscritos, achei que ia chegar a, no máximo, 300.”

Hoje o canal Ferretto Matemática tem 2,2 milhões de inscritos, com vídeos que vão do básico da porcentagem à matemática financeira. Trabalham com ele atualmente 17 pessoas, entre monitores e assessores. Nos últimos meses, fez dezenas de vídeos e aulas ao vivo de revisão do Enem, e ganha também com os pacotes de R$ 22 mensais por cursos online.

“Como já está tudo na internet, o professor não é mais o detentor do conhecimento, não dá para continuar dando aulas como em 1920.”

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O professor não é mais o detentor do conhecimento, não dá para continuar dando aulas como em 1920
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Daniel Ferretto, edutuber

Veja vídeo do canal de Daniel Ferretto:

Se você estuda usando canais no YouTube, nos conte quais são os seus edutubers preferidos.

 

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Campeão de audiência no YouTube, Felipe Castanhari era mau aluno

Youtuber conta que passou de ano na escola 'sempre colando' até chegar ao ensino médio, quando 'mudou completamente'

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 13h00

SÃO PAULO - Ele não é professor, mas se tornou um dos campeões de audiência entre os canais de educação do YouTube. Também foi um péssimo aluno e hoje ensina História e Ciência. Felipe Castanhari, de 29 anos, criou o Canal Nostalgia, hoje com 13 milhões de inscritos, para “compensar o que deixou de aprender na escola”, conta.

Seus vídeos sobre a vida de Adolf Hitler ou sobre o desmatamento na Amazônia são praticamente documentários, com efeitos visuais, roteirista e supervisão de historiadores e cientistas.

“A ideia foi trazer conteúdo de qualidade, mas com a linguagem mais simples possível, para ultrapassar a barreira intelectual do brasileiro”, conta Castanhari, que antes de ser youtuber trabalhava com animação 3D em publicidade.

Recentemente, ele fechou um contrato com a Netflix para um programa de História e Ciência que deve estrear em abril.

“Costumo dizer que quando eu entendo o vídeo, qualquer pessoa vai conseguir entender. Eu sou uma pessoa comum, não passei a vida lendo 1 milhão de livros.”

Castanhari conta que passou de ano na escola "sempre colando" até chegar ao ensino médio, quando de repente percebeu que não tinha nenhuma lembrança das aulas que havia assistido a vida toda.

“Por alguma razão notei o quanto eu tinha perdido a oportunidade de aprender, então mudei completamente, virei um bom aluno, comecei a sentar na frente.”

Foi aí que ele se identificou com um professor de História, que hoje é o historiador do canal e supervisiona todos os vídeos.

Veja vídeo do Canal Nostalgia:

O Nostalgia tem esse nome porque Castanhari começou contando histórias do que gostava na infância, como desenhos animados e ídolos, como Michael Jackson. Até que os assuntos se esgotaram, brinca o youtuber, e resolveu se voltar para a educação, como uma forma de compensar o que tinha perdido no passado.

Há dois anos, Castanhari se envolveu numa polêmica ao apresentar um programa da History Channel que foi criticado por escritores como Laurentino Gomes e Lira Neto. A produção foi chamada de superficial e que buscava o “polemismo fácil”. Ele afirma que não teve ingerência no conteúdo, que a produção cometeu erros e que não renovou seu contrato com o canal.

Castanhari, que cresceu em Osasco, na Grande São Paulo, acredita que o sucesso dos professores youtubers venha do fato de a escola não ser mais interessante para o jovem.

“Essa molecada não consegue ficar cinco segundos em um vídeo que acha chato, imagina sentada numa classe durante 50 minutos, olhando para a lousa? Temos que vender educação como entretenimento, como um filme, simples e leve.”  

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Essa molecada não consegue ficar cinco segundos em um vídeo que acha chato, imagina sentada numa classe durante 50 minutos, olhando para a lousa
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Felipe Castanhari, edutuber

Se você estuda usando canais no YouTube, nos conte quais são os seus edutubers preferidos.

 

 

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'Parece que os professores estão aqui em casa', diz aluna que estuda pelo YouTube

Sem dinheiro para pagar cursinhos presenciais, estudantes usam plataforma como alternativa; site lançou 'playlist educativa'

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 13h00

SÃO PAULO - Alice Bezerra, de 18 anos, queria cursar Direito, mas não passou no vestibular. A opção seria fazer um cursinho por mais um ano, mas ela mora em São Sebastião do Umbuzeiro, no interior da Paraíba. O pré-vestibular mais próximo estava a cinco horas de viagem.

“Conversando com pessoas da minha cidade que tinham nota alta no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), descobri os cursinhos online”, conta.

Com 3 mil habitantes, a cidade tem apenas duas escolas públicas. O formato das aulas dos professores da plataforma Descomplica, que cobra R$ 19 por mês, foi uma surpresa para Alice. 

Para ela, as aulas são “dinâmicas e divertidas”, o que faz a aluna passar horas na frente do computador estudando. “Essa menina só faz estudar. Já peguei ela estudando à meia-noite e dei uma bronca para ela ir dormir”, conta a diarista Joseane Bezerra, mãe da jovem.

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Essa menina só faz estudar. Já peguei ela estudando à meia-noite e dei uma bronca para ela ir dormir
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Joseane Bezerra, mãe de Alice Bezerra

“Parece que os professores estão aqui em casa, indo no meu ritmo. É muito descontraído, não sinto que estudar é uma obrigação”, diz a aluna Lívia Araújo, de 18 anos, que mora no Rio e não conseguia pagar um cursinho presencial.

Os vídeos a ajudam a estudar para cursar Comunicação Social.

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É muito descontraído, não sinto que estudar é uma obrigação
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Lívia Araújo, estudante

Veja vídeo da plataforma Descomplica:

O aumento da audiência dos estudantes em vídeos com conteúdo escolar levou o YouTube a lançar em julho deste ano um novo recurso chamado de "playlist educativa", permitindo que os canais credenciados pela plataforma possam estruturar o conteúdo produzido em capítulos, como introdução, aulas básicas e avançadas.

Desde 2013, a plataforma já desenvolve com a Fundação Lemann um projeto de revisar e validar canais voltados para educação. Atualmente, mais de 400 canais já passaram pelo crivo. Juntos, eles já tiveram 1,2 bilhões de visualizações e têm mais de 6,5 milhões por semana. 

Se você estuda usando canais no YouTube, nos conte quais são os seusedutubers preferidos.

 

 

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