Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Professores e funcionários podem aderir a greve na USP

Universidade teve manhã tranquila; só na FFLCH houve aulas suspensas e, à tarde, alunos de Arquitetura aprovaram paralisação

Felipe Tau, do Jornal da Tarde, e Estadão.edu,

09 Novembro 2011 | 10h25

A greve definida por estudantes da USP em assembleia ontem à noite pode ganhar a adesão de professores e funcionários. A Associação de Docentes da universidade (Adusp) faz assembleia desde as 17 horas desta quarta-feira, 9, no Instituto de Matemática e Estatística (IME). O Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp) pretende tomar posição em reunião amanhã, ao meio-dia, na sede da entidade. De lá, os servidores prometem se juntar aos estudantes numa assembleia geral proposta para a tarde em frente à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro.

 

A direção da Adusp convocou o encontro em repúdio à presença da Polícia Militar no câmpus da zona oeste. “A discussão sobre a greve não está em questão, até o momento, por parte da diretoria”, disse a presidente da Adusp, Heloísa Borsari. “Mas nada impede que professores proponham isso durante a reunião.”

 

Amanhã, na assembleia do Sintusp, os funcionários vão discutir como participar do movimento dos estudantes. "Nossa pauta é comum: a saída da PM do câmpus, a revogação de processos administrativos e disciplinares contra alunos, servidores e professores e, agora, a retirada dos processos contra os 72 detidos ontem", disse o diretor de base da entidade, Domenico Colacicco.

 

Numa assembleia com 2 mil alunos ontem à noite, estudantes de toda a universidade votaram pela greve em protesto contra a ação da PM, que horas antes havia detido 72 pessoas numa operação para desocupar a reitoria. O prédio da administração tinha sido invadido no dia 2, por alunos que desejam o fim do convênio que permite à PM atuar de forma mais ostensiva na Cidade Universitária.

 

Os estudantes detidos começaram a deixar o 91.º Distrito Policial, na zona oeste, às 23h11. O último só saiu às 3h45 desta quarta-feira.

 

Mobilização

 

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) foi a escola com maior adesão à greve nesta manhã, com algumas aulas suspensas. Em outras grandes unidades, como a Escola Politécnica e a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, o dia foi normal. O Centro Acadêmico da FEA até divulgou uma nota em que diz ser contra a greve.

 

Na Letras, mais de 250 alunos fizeram uma assembleia pela manhã na qual a proposta de apoio à greve saiu vencedora por 43 votos (148 a 105). Integrantes do C.A. disseram que haverá nova assembleia à noite. Eles garantiram que não impedirão a entrada de alunos que queiram assistir às aulas.

 

Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), uma assembleia com cerca de 400 alunos de Arquitetura decidiu, por maioria, aderir à paralisação. Por volta das 18h40, estavam discutindo o calendário de atividades e a comissão de greve.

 

Contrários

 

Representante do C.A. da FEA, Thomás de Barros, de 22 anos, aluno do 4.º ano de Economia, criticou a radicalização da mobilização dos estudantes e explicou a recomendação passada aos colegas para que não apoiem a greve.

 

“A gente acha que todo o movimento não tem se pautado pelo diálogo e está estimulando uma polarização muito grande”, disse. “Temos notado uma constante radicalização, tanto para a direita quanto para a esquerda. E os moderados estão ficando reféns disso.”

 

O Grêmio Politécnico não se definiu sobre a greve, mas não tem pressa de fazê-lo. A entidade pretende realizar uma assembleia até o fim desta semana ou no começo da próxima.

 

Segundo o diretor Alessandro Andrade, de 20 anos, aluno de Engenharia de Produção, o grêmio quer ouvir a comunidade da escola, formada por 4,6 mil estudantes de graduação e 2,3 mil de pós. “A greve foi declarada sem que os alunos da Poli tivessem tido tempo de se expressar. Aqui por enquanto está tudo normal.”

 

 

Estudantes

 

Na Letras, antes mesmo da assembleia da manhã, alunos já tinham colocado uma lousa na entrada do prédio e empilhado carteiras num dos corredores, o que atrapalhava, mas não impedia a circulação dos colegas.

 

Alguns estudantes disseram que a rotina não sofreu alterações, enquanto outros não tiveram aulas. O aluno do 2.º ano que se identificou como Artur M., de 18 anos, disse que não houve aula de Linguistica nesta manhã. No lugar dos 60 alunos habituais, só havia 5 e o professor cancelou a atividade.

 

Apesar de ter tentado assistir à aula, Artur disse que está solidário com os grevistas. “Comecei a apoiar a manifestação dos estudantes ontem, depois que desci do ônibus para tomar café da manhã no bandejão e vi aquele monte de PMs no câmpus.”

 

Formada em Pedagogia, uma aluna de Letras de 27 anos, que não quis se identificar, criticou a decisão de fazer a greve. “A prisão dos estudantes foi justa. Eles invadiram um prédio público. Se quisessem se manifestar, eles tinham outros meios.”

 

A estudante disse que não iria participar de nenhuma assembleia. “Não me manifesto porque quem é contra o pessoal que organiza não tem vez e ainda é agredido verbalmente.”

 

Na FAU, os estudantes favoráveis à greve também usaram o expediente de empilhar carteiras e um mural de madeira em rampas, mas não as obstruíram totalmente. Não houe suspensão de aulas. Uma diretora do C.A. que se identificou apenas como Renata disse que os alunos se preocuparam em distribuir panfletos e convocar os colegas para uma assembleia ao meio-dia.

 

Aluno de um programa de intercâmbio, o francês Lucas Eydoux, de 21 anos, está há quatro meses na FAU. Ele disse ser favorável à manutenção de um esquema de segurança no câmpus, mas criticou a ação da PM. “A polícia não deveria fazer uma invasão como a de ontem, ainda mais com uma tropa de elite. Se fosse na França, certamente os alunos se revoltariam e quebrariam tudo.”

 

Aluno do curso de Design, Daniel Preto, de 24 anos, foi à FAU entregar um trabalho. Ele disse ter dúvidas sobre se a PM deve fazer o policiamento do câmpus. Mesmo assim, criticou a greve. “O assunto é importante, merece ser discutido, mas a greve não é o melhor caminho”, disse. “Se você faz greve, os menos engajados nem vem à escola e uma parcela importante da universidade acaba sendo retirada da discussão.”

 

Daniel sugeriu a quem for contra a presença a PM a realização de passeatas “pacíficas e organizadas”. “Uma multidão exaltada pichando prédios do governo não é a melhor forma de ser ouvido.”

 

Reitoria

 

Em frente do prédio da reitoria, epicentro da agitação na universidade nos últimos dias, a manhã foi tranquila. Cerca de 40 policiais em 12 veículos faziam a segurança do local.

 

A reportagem apurou que a PM tem ordens para manter o esquema de segurança indefinidamente. Se for necessário, os policiais podem ser substituídos por homens da Tropa de Choque.

 

Os servidores da reitoria só retomarão o trabalho no prédio amanhã.

 

* Texto atualizado às 19h

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