Professores acumulam bolsas milionárias em convênios com Dnit e Petrobrás

Pelo menos 18 docentes mantêm bolsas em mais de um projeto em execução; quase R$ 4,5 milhões foram repassados aos professores

Felippe Aníbal , Gazeta do Povo

14 Abril 2015 | 03h00

CURITIBA - Um núcleo de professores de dedicação exclusiva recebeu nos últimos cinco anos quase R$ 4,5 milhões em bolsas obtidas com base em convênios e contratos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) com o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) e com a Petrobrás. Alguns acumulam benefícios, recebendo mais de uma bolsa de cada vez, e multiplicam seus ganhos. Há casos em que as bolsas passam de R$ 177 mil, cada uma. A série de reportagens publicadas mostraram como a UFPR foi usada para evitar licitações em convênios que somam R$ 74 milhões.

O acúmulo de bolsas vem sendo questionado dentro da universidade - pela Procuradoria Federal na UFPR e pelo Conselho Universitário de Planejamento e Administração (Coplad) -,  principalmente no que diz respeito à metodologia de concessão. Um levantamento feito pela reportagem nos portais de gestão de acordos da UFPR e de sua fundação de apoio, a Funpar, revela que pelo menos 18 professores mantêm bolsas em mais de um projeto, que ainda estavam em execução até o início do mês passado. 

Nos casos analisados pela reportagem, a maior concentração de benefícios nas mãos dos mesmos docentes ocorre no Instituto Tecnológico de Transportes e Infraestrutura (Itti) - braço da universidade que movimentou R$ 58 milhões em projetos com o Dnit. Quase todos os diretores ganharam para participar dos projetos. 

O coordenador do Itti, Eduardo Ratton, foi quem mais ganhou. Ao longo dos últimos cinco anos, teria recebido R$ 392,6 mil, em oito bolsas. Até o início de março, quatro projetos em que ele mantém bolsas ainda estavam em execução. Ao final desses trabalhos, ele terá recebido R$ 413 mil. 

Outro professor do Itti, Antonio Ostrensky Neto, já recebeu R$ 145,8 mil, pela participação em cinco projetos diferentes. Quatro deles ainda estavam em execução no mês passado. Quando os serviços forem concluídos, ele terá acumulado R$ 330,7 mil em bolsas. Ostrensky Neto também é diretor do Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA), que teve profissionais subcontratados pela UFPR para prestar serviços em obras do Dnit.

Os professores Carlos Aurélio Nadal e Donizeti Antonio Giusti são outros diretores do Itti que mantêm bolsas sucessivas. Ao final dos projetos em execução, Nadal terá recebido R$ 104 mil enquanto o colega terá somado R$ 96 mil. Giusti chegou a ser relator no Coplad no processo de análise de um projeto no qual ele ganharia bolsa. Contrariando parecer da Procuradoria Federal, ele defendeu a aprovação do contrato.

Um projeto da Petrobrás realizado pela UFPR vai pagar as bolsas mais polpudas. O professor Haroldo de Araújo Ponte e a mulher dele, Maria José Jerônimo de Santana Ponta, foram beneficiados, cada um, com uma bolsa de R$ 177 mil, segundo a gestão de acordos da universidade. De acordo com o plano de trabalho, cada um terá que trabalhar oito horas semanais, ao longo de 36 meses, no projeto.

Por telefone, a Gazeta do Povo tentou ouvir todos os professores mencionados, mas não conseguiu localizá-los. Por inúmeras vezes, a reportagem ligou diretamente no departamento ao qual cada um está vinculado. Além disso, desde a semana passada, a Gazeta vem tentando ouvi-los por intermédio da assessoria de imprensa da UFPR. Este setor não disponibilizou o contato dos docentes. A assessoria chegou a cogitar emitir uma nota conjunta em nome dos professores citados, mas não o fez.

Resposta da reitoria. O reitor da UFPR, Zaki Akel Sobrinho, disse que os professores que atuam nos projetos desenvolvidos em parceria com o Dnit e com a Petrobrás são selecionados com base em critérios técnicos e que são aprovados pelo departamento a que são vinculados. O processo, assegura o reitor, é muito debatido em todas as instâncias da universidade. "O departamento tem que apontar aqueles que são os experts no assunto. Isso é analisado. Não é uma ação entre amigos", disse.

Sobre série de reportagens. Nesta segunda-feira, 13, o biólogo Durval Nascimento Neto se posicionou sobre a reportagem UFPR e Dnit repassaram R$ 1,7 milhão a instituto envolvido em desvios, publicada neste domingo, 12. Ele afirma que não é servidor do Itti, como consta no site do instituto. "Meu nome está lá por um equívoco. Eu não sou nem nunca fui contratado pela UFPR ou pela Funpar [fundação de apoio da UFPR]", disse, destacando que não há conflito de interesses no trabalho que vem prestando para a universidade.

Nesta segunda, a UFPR optou pelo silêncio. Após a publicação da segunda reportagem da série, a administração central da universidade emitiu uma nota, informando que está avaliando os fatos apresentados e levantando "informações adicionais". Assim que tiver conhecimento do interior teor das reportagens, diz a UFPR, a instituição "se manifestará de forma conclusiva, apresentando providências".

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