Professora do Vértice analisa redação de candidato da Fuvest

Segue abaixo minha avaliação da redação Altruísmo na Essência Humana:

Margareth Aparecida Stockmann*, Especial para o Estadão.edu

01 Junho 2011 | 15h09

 

Título. O título aponta para a tese defendida no texto – o altruísmo faz parte da essência do ser humano e está presente em nosso cotidiano.

 

Introdução. Apresenta o panorama negativo, pessimista, com relação ao ser humano do século 21, egoísta, egocêntrico, sem sentimentos, sem laços. A intenção do autor é, na sequência, contestar esse panorama, respondendo à pergunta retórica com que finaliza o parágrafo inicial.

 

Esse tipo de introdução é muito usada em artigos de opinião. A minha sugestão é evitá-la. Como apresentou o panorama pessimista do qual discorda, o ideal é lançar mão de uma afirmação (tese) que conteste tal pensamento objetivamente, como por exemplo, “no entanto, apesar de tais constatações, o ser humano

ainda carrega em sua essência o altruísmo”, deixando claro, no primeiro parágrafo, o ponto de vista que será defendido ao longo do texto e evitando usar perguntas desnecessárias para conduzir a argumentação pretendida, como podemos observar na sequência do texto em questão.

 

Havendo uma linha de raciocínio lógico, com argumentos que reflitam uma análise, uma leitura da questão mais aprofundada, não precisamos lançar mão de artifícios que podem deixar o texto pouco fundamentado, quer por falta de espaço, quer por perdemo-nos com divagações desnecessárias ao tipo de estrutura pedida nos vestibulares e que podem tornar nosso texto confuso.

 

Segundo parágrafo do texto. Usa a análise da cultura do sacrifício e da mitificação de seres humanos santos para mostrar que estes são grandes expoentes de abnegação, exceções, que não, necessariamente, provam a ausência de altruísmo na humanidade. Ao usar os nomes de São Francisco e madre Teresa, procura mostrar a diferença entre seres especiais e pessoas comuns e, indiretamente, provar a tese defendida que será reforçada no parágrafo seguinte.

 

A construção de parágrafos desse tipo (tentativa de uma análise dialética) pode levar a erros; portanto, só use tal construção se realmente dominá-la.

 

Terceiro parágrafo. O autor retoma o ambiente capitalista e globalizado do século 21 que foi citado na introdução e que, a princípio, seria contrário às manifestações altruístas para mostrar que, apesar dele, elas existem, com enfoque diferente dos exemplos do parágrafo anterior, mas que, principalmente, em momentos de crise, acentuam-se e são mostradas pela mídia.

 

Parágrafo de conclusão. Nele, o autor culpa a mídia por sufocar grandes exemplos de altruísmo presentes no dia a dia, deixando em segundo plano a tese.

 

Análise final. O grande valor do texto em análise está na forma como seu autor “amarra” as ideias defendidas nos parágrafos: 1. estamos ficando mais egoístas?; 2. ícones de abnegação são exceções; 3. mas existem pessoas comuns abnegadas e altruístas; portanto, o altruísmo existe, faz parte da essência humana; 4. no entanto, tais manifestações são sufocadas pela mídia.

 

Mas, observando-se de perto o conteúdo dos parágrafos, somente a sentença “O volume de doações para a caridade é crescente e exemplos de sacrifício em prol do próximo acontecem sempre” (terceiro parágrafo) é usada como prova de que o altruísmo faz parte da essência humana. O texto prioriza a análise de como a

sociedade vê a questão do altruísmo, deixando a desejar quanto ao que defende em seu título.

 

* PROFESSORA DE REDAÇÃO DO COLÉGIO VÉRTICE

 

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