Professora de Petrolina vê indícios de fraude em caso de aluno que quase gabaritou Enem

Para moradores da região onde redação do exame vazou, estudante identificado pela PF não foi o único beneficiado

Tiago Décimo, O Estado de S. Paulo

24 Novembro 2010 | 19h43

Professores e estudantes da região de Petrolina (PE), onde a Polícia Federal constatou o vazamento do tema da redação do Enem, realizado no início do mês, dizem acreditar que o caso não foi isolado.

 

"Acredito piamente que houve mais vazamentos, por vários relatos que recebemos", afirma a diretora do cursinho pré-vestibular Tema, Vera Lúcia Medeiros. Ela aponta como suspeito o desempenho de um outro estudante de Remanso (BA) de 17 anos que frequentou o Tema e acertou 172 das 180 questões do exame - e gabou-se do resultado nos dias seguintes. "O desempenho dele antes da prova não indicava esse resultado", diz Vera Lúcia.

 

A própria investigação da PF que apontou o vazamento dá margem a especulações. De acordo com as apurações oficiais, um caderno especial de questões, chamado caderno ampliado - feito em dimensões maiores que os cadernos de perguntas entregues aos estudantes -, foi violado pela coordenação da aplicação da prova no Colégio Ruy Barbosa, de Remanso, no norte da Bahia, cerca de duas horas antes do início da prova.

 

Segundo a polícia, o caderno deveria ser aberto apenas em caso de necessidade se algum aluno tivesse dificuldade de ler alguma questão por causa do tamanho reduzido das letras. "Havia mais de dez fiscais de prova no local onde o caderno foi aberto e alguns folhearam a prova antes do exame", afirma o delegado Márcio Alberto Gomes.

 

Durante as investigações, ficou constatado que um desses fiscais, Marenilde de Brito Affonso, professora do mesmo colégio, vazou o tema da redação, passando a informação para o marido, Eduardo Ferreira Affonso, também professor e vice-presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Remanso.

 

Ele fez uma pesquisa na internet sobre o tema e, depois, ligou para o filho, Eduardo Ferreira Affonso Júnior, que prestava o Enem em Petrolina, para informar o que havia descoberto. Não contou, porém, a fonte do vazamento. "Ele disse apenas que o tema vazou na internet", conta o delegado.

 

O estudante, de 21 anos, procurou professores do cursinho onde estuda, o Colégio Geo. Disse que o tema havia vazado e perguntou como deveria ser escrita a redação. O boato se espalhou rapidamente pelos locais de prova da cidade. Quando houve a confirmação de que o tema da redação citado por Eduardo ("trabalho e escravidão") tinha relação com o tema da prova, "O Trabalho na Construção da Dignidade Humana", e que um dos textos de apoio para a redação era justamente a relação entre trabalho e escravidão, um dos professores de Eduardo, Marcos Antonio Freire de Paula, denunciou o caso a veículos de imprensa da cidade - o que levou a Polícia Federal a apurar o vazamento.

 

"Nós tivemos a coragem de denunciar. E quantos não tiveram?", diz o professor Marquinhos, como é conhecido na cidade, levantando suspeita de que outros casos tenham ocorrido sem que a imprensa ou a polícia tenham tomado conhecimento. "No fim, não importa se foi beneficiado um ou cem alunos. O que importa é que está provado, mais uma vez, que o sistema é falho."

 

Segundo o delegado, não é possível dizer se houve outros vazamentos. "Imagino que os outros aplicadores de prova que estavam na sala deram uma olhadinha na prova, por curiosidade, mas o que foi demonstrado pela investigação é que apenas um deles vazou o que acreditava ser o tema da redação", diz.

 

Investigação

 

A Polícia Federal iniciou a investigação sobre o caso no dia 10, tomando o depoimento dos professores consultados por Eduardo. No dia seguinte, o estudante foi ouvido - e contou a mesma versão que já havia dado à reportagem do Estado no dia anterior, de que havia ficado sabendo do tema da redação por outros estudantes. "O depoimento dele contrastava com o dos outros envolvidos e fomos buscar mais informações nas cidades citadas, Remanso, que é onde mora a família dele, e São Raimundo Nonato (PI), que foi, segundo ele, de onde partiu o vazamento", conta o delegado.

 

No dia 13, equipes da PF foram aos dois municípios e ouviram informalmente cerca de 30 pessoas, entre elas os pais de Eduardo, que negaram envolvimento no caso. Foi nesta data que os agentes ficaram sabendo que o caderno ampliado havia sido aberto antes da realização do exame, em Remanso.

 

"A investigação concluiu que a citação de São Raimundo Nonato como fonte de vazamento tinha sido apenas para despistar as investigações", afirma Gomes. De acordo com ele, a apuração não conseguiu determinar quem foi o autor da abertura da prova antes do tempo.

 

Havia dois coordenadores no local da prova, Antônio Fernandes e Kátia Campinhos Passos. "Entrevistamos a Kátia, que negou ter aberto o caderno, mas não o Antônio", diz o delegado. "Não fomos pelo caminho de responsabilizar quem abriu a prova, porque não houve intenção de cometer irregularidade, apenas de mostrar um procedimento."

 

No dia 16, os agentes e o delegado voltaram a Remanso, para colher depoimentos formais. A mãe de Eduardo continuou negando envolvimento no caso, mas o pai acabou confessando. "A partir dali, a família colaborou com as investigações", diz o delegado. "Convocamos novamente a mãe, que também confessou. Foi o pai do estudante que se dispôs a entregar seu computador para análise."

 

Na perícia feita no equipamento, os policiais encontraram sete buscas com o tema trabalho e escravidão. A primeira, às 10h06 (11h06 no horário de Brasília) e a última às 10h09. Foi a primeira prova material de que o tema da redação havia sido vazado. "Com esse dado, partimos para a conclusão do inquérito."

 

"Pedimos também a quebra dos sigilos telefônicos seguindo o caminho da informação traçado pelos depoimentos", conta Gomes. "A mãe ligou, do telefone fixo do colégio, para a casa de sua sogra (Pedrina Brito), onde estava o pai do estudante. Depois, ele ligou, do celular, para o celular do filho." De acordo com o delegado, parte dos extratos resultantes das quebras de sigilo telefônico ainda não está concluída - deve ser entregue à Justiça Federal na semana que vem. Marenilde e Eduardo foram indiciados por violação de sigilo funcional qualificado (por ter causado prejuízo à administração pública e a outras pessoas), crime com pena prevista de até seis anos de prisão.

 

"Não acredito que sejam presos, porque são réus primários e têm bons antecedentes", avalia Gomes. "Eles só quiseram ajudar o filho na prova. Ele está há três anos tentando entrar na faculdade de Medicina." O estudante não foi indiciado, mas teve a prova desclassificada pelo MEC.

 

Pais e filho não foram encontrados para comentar o indiciamento. Marenilde pediu licença de dois dias no colégio onde trabalha. Segundo sua sogra, os pais deixaram a residência na qual moram no início da manhã de hoje sem avisar aonde iam ou quando voltavam.

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