Ana Gagliardo
Ana Gagliardo

Professor precisa de espaço para inovação

Desde o curso superior, docentes são ensinados a preparar aulas expositivas

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

Ninguém estava preparado para a pandemia, mas os professores não tiveram escolha: precisaram encontrar formas de continuar seu trabalho. Além de dificuldades de conexão e de equipamentos, a falta de prática em inovar parece ter sido uma barreira importante. Quase dois meses após o fechamento das escolas, em maio, uma pesquisa do Instituto Península mostrou que 80% dos docentes ainda não se sentiam preparados para ensinar online e pouco mais da metade deles contou que não havia recebido suporte da escola.

Para Alexandre Schneider, presidente do Instituto Singularidades, uma instituição de ensino superior focada em formação de professores, é papel tanto da faculdades quanto das escolas que empregam os docentes estimular a inovação por parte dos professores. “A maioria das faculdades tem um currículo muito distante da realidade. Desde o início, ele precisa ser formado com uma interação com a prática”, defende.

Segundo ele, o modelo ideal é diferente do conceito de residência médica, em que depois de vários anos de estudos o profissional começa a trabalhar sob supervisão de outros mais experientes. “No Singularidades, desde o primeiro semestre de faculdade o futuro professor vai para a escola. Primeiro para observar, depois ajuda o professor titular no planejamento e, aos poucos, assume mais responsabilidades”, explica.

A única forma de esse modelo funcionar é com uma interação entre ensino superior e escolas onde os professores vão atuar depois de formados. “É preciso criar uma relação de confiança”, diz Schneider, que lembra que apenas ensinar a lidar bem com a tecnologia não é suficiente para ser inovador. 

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Você pode usar uma plataforma para dar aulas tradicionais. A inovação que importa é mais nos métodos e no processo pedagógico
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Além do compromisso das escolas em colaborar na formação inicial dos professores, elas precisam promover atualizações relevantes constantemente e dar espaço para que os docentes experimentem novos modelos. Nem sempre isso acontece.

Ana Gagliardo começou aos 15 anos de idade, como voluntária, a trabalhar em projetos de educação popular. Mais tarde, fez faculdade de Letras e se tornou uma professora também do ensino básico oficial. De acordo com ela, era mais fácil experimentar formatos diferentes de aula na educação popular, em geral cursos extras no contraturno, do que no ensino regular.

“Em muitas escolas, eu encontrava resistência quando saía do modelo de educação bancária, aquela em que o aluno recebe algo do professor para usar depois”, diz. “Sempre tive muito mais abertura na área social para utilizar dinâmicas, ferramentas e metodologias inovadoras.”

Nova fase

Isso mudou há dois anos, quando ela foi contratada pela escola Luminova. “Eu sinto que é uma instituição que valoriza a criatividade, que abre espaço para o pensamento crítico, com uma equipe muito diversa”, elogia. Segundo Ana, um professor inovador só vai conseguir desenvolver seu potencial em um colégio também inovador. “Tem de casar o projeto político pedagógico da escola com o que o professor acredita. E, claro, tem de ser uma escola que bote em prática de verdade seu projeto”, afirma.

A professora defende ainda que a inovação só vai promover mais aprendizado se partir de uma escuta ativa dos estudantes. “Não é falar só do que o aluno quer, mas pôr o aluno no centro da aprendizagem. Se vamos estudar vírgula, aproveito para conectar com as práticas dele. A gente fez uma atividade de mandar mensagem por WhatsApp com e sem as vírgulas, para mostrar como fica mais organizado e as pessoas entendem melhor.”

Diretor acadêmico da Luminova, Luizinho Magalhães diz que é difícil encontrar no mercado professores inovadores, porque falta uma cultura de inovação na academia e nas escolas. “Basta ver como são normalmente os processos seletivos para professores: eles têm de dar uma aula expositiva para uma banca”, afirma. Como é isso o que costuma ser pedido, é para esse tipo de educação que os profissionais se preparam.

“Busco alguém criativo, que tenha facilidade para mudanças. Assim que a gente contrata, oferece uma pós-graduação em metodologias ativas.” Para o diretor, a inovação tem de ser um aspecto da escola. “Os próprios alunos não querem, porque sempre receberam aulas explicadas”, diz Magalhães.

A Luminova é uma rede de ensino, e professores de todas as unidades recebem um roteiro de aulas. Ainda assim, o diretor acadêmico garante que a proposta é experimentar sempre. “Temos um planejamento, mas só mostramos como o professor deve começar. Depois eles têm liberdade. No ano passado, com a temática do outubro rosa, por exemplo, uma unidade de levou mães que tiveram câncer para conversar com os alunos. Outra unidade montou um salão de cabeleireiro na escola, para quem quisesse doar cabelos para fazer peruca.” 

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