Fabio Motta / AE
Fabio Motta / AE

Professor de cão-guia

USP abrirá centro para treinar animais, cuja fila de espera tem 5 mil pessoas; curso só era oferecido no exterior

Felipe Mortara - O Estado de S. Paulo

26 Julho 2011 | 00h00

Alertar sobre buracos, mas também ampliar o círculo de relações sociais. Para cegos, um cão-guia é o passaporte para mais qualidade de vida. O passaporte, porém, é restrito: embora o País tenha 16 milhões de pessoas com alguma deficiência visual, organizações não governamentais estimam que haja no máximo 80 animais em atividade. Quase 5 mil pessoas estão na fila de espera. Esse é um dos motivos pelos quais a USP decidiu criar um centro de referência para adestrar esses cães, mas ainda há dúvidas sobre o perfil de profissional mais adequado para a tarefa.

Não existe no mundo venda legalizada de cães-guia, só doações. A maioria dos animais em atividade aqui foi treinada nos Estados Unidos ou na Nova Zelândia. O País tem só uma dezena de profissionais capacitados para adestrá-los, a maioria formada no exterior – o investimento para fazer o curso, de até três anos de duração, pode chegar a R$ 200 mil.

Ligado à Faculdade de Veterinária, o centro de referência vai definir padrões de treinamento e oferecer cães a cegos de todo o País. “Temos de pensar como é que se seleciona, se educa e se cuida do cão, do ponto de vista médico-sanitário”, diz Linamara Battistella, secretária da Pessoa com Deficiência de São Paulo – a pasta é parceira da USP na criação do centro.

Alguns especialistas acreditam que veterinários não são os profissionais mais indicados. “A pessoa deve entender muito de cães, só que mais ainda sobre a realidade da pessoa com deficiência visual”, diz Alberto Pereira, de 35 anos, dono do labrador Simon e consultor em acessibilidade.

Formado na Nova Zelândia, o economista Moisés Vieira Júnior já adestrou cerca de 60 cachorros. Mas tem dado aulas de inglês para viver. “A questão é dinheiro, para formar profissionais e ter um canil.”

“Fora, um instrutor ganha U$ 4 mil mensais e treina até oito animais por vez. Aqui a oferta de trabalho é irregular, as ONGs dependem de doações”, afirma a advogada Thays Martinez. Ela dirige a IRIS, entidade que já ofereceu 24 cachorros a cegos desde 2002, mas não entrega nenhum animal há 2 anos.

Adestrador desde os 17 anos, George Thomaz Harrison, de 35, percebeu ao cursar Psicologia que poderia aplicar conhecimentos da faculdade em animais. “Em vez de dar choque em ratinho, meu projeto de conclusão de curso foi condicionar um cão para ser guia. Depois conheci profissionais e vi que minhas técnicas eram condizentes”, diz George, fundador da ONG Cão Guia Brasil, em Niterói. “Treinar cachorro nos EUA é igual à Disneylândia, mas andar com ele aqui é Sarajevo. Não há calçadas adequadas.”

“No exterior é tudo lindo e maravilhoso. Aqui os postes são colados nos muros, tem saco de lixo no meio da rua”, concorda o advogado Genival Santos, de 32, dono da cadela Layla.

O analista de sistemas Gabriel Vicalvi, de 25, espera um cão desde 2008. “Acho que vai dar mais segurança para me virar na selva de pedra.” Morador de São Paulo, ele teve o local de trabalho mudado recentemente e ainda sofre para se orientar com a bengala na nova região.

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