Werther Santana| Estadão
Atividades presenciais em escolas da capital foram retomadas no mês passado Werther Santana| Estadão

Atividades presenciais em escolas da capital foram retomadas no mês passado Werther Santana| Estadão

Prioridade em Educação, alfabetização é pouco citada em planos de candidatos a prefeito de SP

Há documentos de campanha que sequer mencionam leitura e escrita; etapa é uma das que mais devem sofrer impactos da quarentena

Júlia Marques , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Atividades presenciais em escolas da capital foram retomadas no mês passado Werther Santana| Estadão

Área prioritária para garantir a aprendizagem, a alfabetização é pouco abordada pelos candidatos à Prefeitura de São Paulo em seus planos de governo ou sequer mencionada nos documentos. A pandemia forçou o fechamento de escolas desde março e o ensino remoto funciona pouco para alunos mais novos. Especialistas preveem grande impacto no desenvolvimento de competências de leitura e escrita, o que demandará ainda mais foco nessa etapa. 

O Estadão analisou os programas de governo enviados ao Tribunal Superior Eleitoral pelos candidatos Bruno Covas (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Celso Russomanno (Republicanos) e Márcio França (PSB), os mais bem posicionados em pesquisas de intenção de voto. Faltam, de modo geral, propostas concretas de como melhorar os indicadores de alfabetização na cidade.

Com exceção de Russomanno, esses candidatos participaram de entrevistas sobre seus planos nesta área realizadas pelo Estadão, em parceria com o movimento Todos pela Educação. Foram questionados sobre como pretendem melhorar a aprendizagem de crianças paulistanas caso estejam na Prefeitura.

Como o Estadão mostrou, o Brasil ainda patina no em melhorar níveis de leitura e escrita. Resultados de prova federal divulgados esta semana indicam que 27% dos estudantes do 2º ano do ensino fundamental (7 anos) no Brasil não sabem escrever corretamente uma palavra de três sílabas e 4,6% não dominam nenhuma das habilidades de leitura e escrita. O Estado de São Paulo alcançou média de 755,99 nessa prova - não foram divulgados dados por município. A média paulista está um pouco acima da nacional, de 750, mas abaixo  de todos os Estados do Sul, Minas, Distrito Federal, Goiás e do Ceará.  

Atual prefeito,Covas sequer menciona em seu plano de governo a palavra “alfabetização”. Indagado sobre a ausência do termo em entrevista ao Estadão no dia 23 de outubro, ele disse que o plano passaria por atualização. Por nota nesta quinta-feira, 5, a campanha do tucano afirmou que, de fato, a palavra alfabetização não é mencionada no texto, mas está subentendida em expressões como “intensificar a promoção da educação para nossas crianças” e  “garantir o futuro de crianças”. Segundo a campanha, 92% das crianças são alfabetizadas ao final do 2.º ano do fundamental na cidade. E turmas do 3º ano, que estão no final do ciclo de alfabetização, terão um estagiário, aluno de universidade, para apoiar os professores.

Também não há menção para alfabetização no plano de França. O candidato pelo PSB promete abrir as escolas municipais nos finais de semana e feriados, para recuperar aprendizagens perdidas, sem mencionar foco nas habilidades de leitura a escrita. Ao Estadão nessa quinta-feira, 5, a campanha de França afirmou que há “problemas estruturais da alfabetização na rede municipal”. E propõe a criação de Escolas do Amanhã, como forma de qualificar o ensino público “para alcançar o padrão de excelência e qualidade para aprendizagem adequadas de Português, Matemática, Ciências e demais matérias básicas”.

Já Russomanno lista em seu programa para a recuperação pedagógica, em função da pandemia, reforço escolar no contraturno, “especialmente dos alunos de alfabetização”. Ele indica ainda a intenção de fortalecer programas para “correção do fluxo escolar, redução da evasão e aprimoramento dos processos de aprendizagem mediante a implantação de um sistema de indicadores”.

Também fala em fazer avaliação diagnóstica de aprendizagem, mapear escolas com mais defasagem e contratar professores temporários. O candidato pelo partido Republicanos não participou da série de entrevistas sobre Educação realizada pelo Estadão.

Candidato pelo PSOL, Guilherme Boulos, se comprometeu em seu plano de governo a universalizar a alfabetização em São Paulo e zerar o analfabetismo funcional, mas o documento não indica meios de alcançar essas metas. Procurada pelo Estadão, a campanha de Boulos informou que essas propostas estão detalhadas em um Caderno da Educação, escrito por educadores ligados à campanha - este documento trata de alfabetização de jovens e adultos.

Na entrevista ao Estadão na semana passada, Boulos afirmou que a alfabetização será prioridade e considera que suas propostas como melhorias no ambiente escolar, valorização de professores e transporte gratuito para reduzir a evasão têm impacto nos indicadores de leitura e escrita de crianças. Em nota nesta quinta, o candidato afirmou que o direito à educação não se limita a crianças - e deve incluir jovens e adultos que não puderam se alfabetizar ou concluir o fundamental.

Formação em leitura e escrita teve mais impacto na pandemia

A alfabetização é uma etapa delicada e decisiva da trajetória escolar - dela depende o avanço em outras séries e a formação de estudantes com boa capacidade de leitura. O processo demanda a mediação de um profissional e, sem atividades presenciais nas escolas na pandemia, houve dificuldades de interação de professores com alunos. Ainda há poucas conclusões sobre o impacto das aulas remotas nesse processo, mas especialistas temem redução nos indicadores de desempenho.

Para João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, falta aos planos de governo bom diagnóstico do município. “É uma repetição de platitudes não relacionadas aos problemas da rede.  E não vi atenção especial à alfabetização.” Ele considera que crianças nessa fase são as mais prejudicadas pela pandemia. “Estão dependentes de outra pessoa para ler para elas, indicar o que fazer. Se a criança não tem condição de ler o que está no WhatsApp que a professora enviou, ficou mais para trás.”

Para Daniela Caldeirinha, diretora de projetos da Fundação Lemann, a alfabetização tem sido uma “dificuldade enorme na pandemia” porque demanda a interação pessoal. “As crianças que estão nesta etapa certamente precisarão de apoio adicional no futuro, de recuperação e reforço”, diz. Oliveira afirma ser necessário priorizar disciplinas básicas no retorno à escola, como Português e Matemática, e aulas no contraturno focadas na alfabetização.

A diversidade de crianças em uma mesma sala de aula será um desafio adicional. Dependendo do suporte e do tipo de intervenção na família em relação à leitura e escrita, crianças devem retornar à escola em momentos diferentes do processo de alfabetização. “A escola precisa estar habilitada para lidar com buracos de diferentes tamanhos que foram constituídos esse ano. Há pais que fizeram milagres, há os que mecanizaram a escrita de forma horrível e pais que não tomaram nem conhecimento”, explica Silvia Colello, educadora da USP.

Para Silvia, bons planejamentos nessa área demandam primeiro pensar na segurança sanitária para retorno à escola, em um plano de acolhimento emocional das crianças e uma sondagem ampla a fim de entender em que pé os estudantes estão - para então retomar os trabalhos. Planos de governo podem se inspirar em ações já bem sucedidas no País - o caso do Ceará é um exemplo.

“O Estado (Ceará) vem promovendo uma política de alfabetização em regime de colaboração com seus municípios que tem como foco principal o fortalecimento da aprendizagem”, diz Marcia Ferri, gerente do compromisso de Alfabetização do Instituto Natura. Também faz melhorias nos processos de gestão e dá estímulo aos municípios por meio da vinculação de uma parte do ICMS aos resultados obtidos na avaliação das crianças.

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Análise: Prefeitos terão dificuldades imensas na educação e precisam chegar mais preparados

Para Priscila Cruz, do Todos pela Educação, a alfabetização é basilar para as aprendizagens futuras

Priscila Cruz*, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2020 | 12h00

As eleições municipais de 2020 são as mais importantes da história da República. Os próximos prefeitos e prefeitas terão a missão de recuperar e transformar a educação que chega a milhões de crianças no início de sua trajetória escolar, depois de 10 meses de suspensão das aulas presenciais. Do sucesso dessas gestões dependem a educação das etapas seguintes, bem como a capacidade de inovação, crescimento e distribuição de renda do País.

O curto prazo trará a necessidade de medidas inéditas, em contexto de grandes incertezas e de forte restrição fiscal. No entanto, o mandato não pode ficar restrito a essas ações de mitigação dos efeitos da pandemia. Muita energia precisa ser colocada em políticas estruturantes, capazes de um avanço substantivo nos níveis de aprendizagem dos alunos das redes públicas.

Uma delas, que chamou atenção pela sua ausência ou timidez nos programas de governo e sabatinas em São Paulo, é a alfabetização. Ora, a alfabetização garantida nos primeiros anos do ensino fundamental é basilar para as aprendizagens futuras. Mas ainda assim, a maioria das crianças de 6 e 7 anos ainda não está alfabetizada.

Também nos preocupa a falta de clareza dos candidatos a respeito dos “comos”. Há muita promessa de zerar fila de creche, fazer mutirões, expandir conectividade de alunos e escolas, mas pouquíssima clareza de com quais políticas educacionais, quais recursos adicionais, qual equipe. Os próximos prefeitos e prefeitas terão dificuldades imensas. Precisam chegar mais preparados para o início de seu mandatos.

*É PRESIDENTE EXECUTIVA DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

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