Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Primeiro Enem da gestão Bolsonaro começa neste domingo

Candidatos fazem neste primeiro dia a redação e as provas de Linguagens e Ciências Humanas, expectativa é de que o exame evite alguns temas

Rafaela Borges, José Maria Tomazela e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 03h00

SÃO PAULO, SOROCABA e RIO - O primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) está sendo realizado neste domingo, 3, com 90 questões de Linguagens e Ciências Humanas, além da Redação. Os portões foram fechados às 13 horas, horário de Brasília. Quase 5,1 milhões de candidatos se inscreveram para fazer a prova, principal meio de ingresso para universidades públicas e privadas no País. 

Por ser o primeiro Enem da gestão Jair Bolsonaro, que tem criticado o conteúdo da prova nos últimos anos, há expectativa de cursinhos preparatórios, professores e candidatos sobre possíveis mudanças no estilo das questões.  Já o governo promete um exame “neutro”

Ao meio dia, dezenas de pessoas deixaram a escadaria do número 900 da Avenida Paulista, prédio que abriga faculdades e colégios, e se dirigiram à entrada do local de prova. Alguns preferiram ficar para trás, para combater o nervosismo ao ar livre ou mesmo rever conteúdo de última hora.

Entre as pessoas que se mantiveram na escadaria estava a estudante de Veterinária Giuliana Moscatelli, de 18 anos. Nervosa, ela se sentia intimidada por um grupo de alunos que usava camiseta do colégio Etapa, uma das tradicionais referências paulistanas de sucesso em vestibulares.

Estudante do colégio Santo Agostinho, na região central, tentava espantar o nervosismo, mas não tinha medo de ir mal. "Eu fiz já a prova uma vez, no ano passado, como treineira", conta. "Agora é pra valer".

Giuliana diz ter dificuldade em exatas e considera a prova bastante interpretativa. "De interpretação, eu sou boa."

O cenário é tomado por adolescentes e jovens, mas eles não são os únicos. Aos 36 anos, Ricardo Serqueira de Carvalho é formado em Educação Física, mas quer uma nova graduação, em Engenharia Civil.

Para isso, é candidato ao Enem pela terceira vez. "Não fiz o Enem para a primeira faculdade. Era particular. Agora estou tentando uma pública". Ele não aparenta nervosismo, mas é um dos primeiros a se dirigir à entrada logo que os portões se abrem.

Carvalho acredita que, nas questões deste ano, estarão presentes algumas relacionadas a valores difundidos pelo governo de Jair Bolsonaro.

"Acredito em questões com temas sobre família, pátria e cidadania", ele diz. Para Carvalho, por um lado, isso pode ser bom, pois traz temas novos ao Enem.

"Por outro, é ruim, pois levará à prova conteúdo ideológico que o atual governo diz combater".

Já Giuliana não está tão certa de que ideologias do governo possam orientar as questões. Para a Redação, ela aposta em alguns temas. "Um dos que acredito que tenha chances é a volta de doenças que tinham desaparecido e voltaram."

Ela também acredita que os problemas da Amazônia podem ser o ponto central da Redação. "É uma dissertação e vamos falar o que pensamos, seja contra ou a favor do governo." 

Recepcionista tem sonho de ser juíza

Aos 52 anos, prestes a fazer 53, a recepcionista Vilma Rodrigues de Souza se preparava para fazer a prova do Enem pela primeira vez com “o coração aos pulos”, como disse. Ela tenta entrar em uma faculdade de Direito com o sonho de ser juíza.

“Por quê não? É um sonho que, independente da minha idade, quero realizar. Só não fiz o curso de Direito ainda por falta de dinheiro”, disse.

Ela conta que parou os estudos há mais de vinte anos para criar os filhos. Os dois mais velhos, com 35 e 25 anos, respectivamente, conseguiram se formar. “O caçula tem 16 anos e, no ano que vem, se eu não conseguir agora, ele fará o Enem comigo para treinar. Hoje vejo que o estudo é fundamental”, disse.

Vilma trabalha como recepcionista do Clube de Campo Sorocaba e saiu direto do trabalho para a prova do Enem, em uma universidade de Sorocaba. Ela chegou em um ônibus do transporte coletivo ao local da prova e se acha preparada.

“Fiz os pré-vestibulares na Faculdade de Direito de Sorocaba e fui muito bem, principalmente em Redação. Então, tenho esperança de conseguir, ao menos, uma bolsa.”

Gêmeas fazem provas juntas

Desde pequenas, as gêmeas Luana Cristina e Maria Luísa Marques Andreotti, de 17 anos, moradoras do bairro Vila Nova Sorocaba, em Sorocaba, viveram, brincaram e estudaram juntas. Neste domingo, juntas mais uma vez, as duas seguiram para a prova Enem com muita expectativa e uma pontinha de tristeza.

“Vai ser o nosso desapego. Depois de tanto tempo juntas, se ajudando em tudo, cada uma vai seguir seu destino”, diz Luana.

Ela optou pela gastronomia, enquanto Maria Luísa pretende ser psicóloga. É o primeiro Enem das duas. “Nós sempre tiramos notas parecidas e acho que vamos ter um desempenho semelhante no Enem, pois nos preparamos juntas. Pena que, daqui para frente, teremos caminhos um pouco diferentes”, disse Maria Luísa.

Elas contam que os pais, que levaram as duas de carro ao local da prova, só estudaram até o ensino médio. O único irmão, mais velho, trocou a continuação dos estudos pelo trabalho. O pai das gêmeas trabalhou como confeiteiro em uma padaria durante 20 anos.

“Talvez por isso me inclinei para a gastronomia”, diz Maria Luísa. “Nossos pais e nosso irmão estão fazendo de tudo para que a gente estude, dando o maior apoio”, completa Luana.

Candidato esquece documento no Rio

O fechamento dos portões do Enem na PUC do Rio ocorreu sem problemas. Menos para Luis, que esqueceu de levar documento e, mesmo depois de ter entrado, por camaradagem dos seguranças, foi expulso por uma representante da Cesgranrio presente no local.

Muito abalado e em estado de choque, o rapaz não conseguia nem falar com a imprensa.

"Não quero falar porque eu perdi a prova", disse segurando as lágrimas e indo embora visivelmente em choque.

Um pouco antes do fechamento dos portões, mães e outros parentes ainda olhavam para dentro da universidade na esperança de ver se o candidato tinha conseguido entrar. Faltando dois minutos para fechar os portões, um rapaz desesperado percebei que estava sem caneta e, da porta, pelo lado de dentro para garantir a entrada, chamou, desesperado, por um vendedor. Em segundos, todos na porta começam a gritar pelos "caneteiros",  que, até cinco minutos antes, corriam atrás dos candidatos: "Caneta! caneta!"

Comprada a caneta, pelo lado de dentro, o candidato seguiu tranquilamente para a sala.

Tranquilidade passava longe de Teresa Soares, que levou a filha Ana Vitória, de 17 anos, para testar o Enem. Nervosa, rezava olhando a porta por onde Ana Vitória tinha acabado de entrar. "Ela é muito tímida e estava nervosa com a prova, apesar de ser só um ensaio", explicou.

Marluce Martins de Lima também continuava na porta, apesar do portão fechado e a filha Larissa, de 21 anos, já ter entrado.

"Ela quer trocar de curso, passou pra Ciências Sociais e, agora, quer Engenharia Civil. Estou na torcida", diz.

A prova

A prova vai ser aplicada em mais de 1,7 mil municípios em 10,1 mil locais de prova. O exame terá início às 13h30 e se encerrará às 19 horas. 

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC) responsável pela elaboração e aplicação da prova, sugere que os candidatos não esqueçam que o cartão de respostas só poderá ser respondido com caneta de cor preta e fabricada com material transparente; além disso, o estudante deve apresentar documento oficial de identificação. 

Durante a aplicação da prova, não é permitido o uso de borrachas, corretivos, lápis, lapiseira, livros, manuais, óculos escuros, boné, dispositivos eletrônicos, entre outros itens. 

Para o próximo domingo, dia 10, estão marcadas as provas de Exatas e Ciências da Natureza. A publicação dos gabaritos está prevista para o dia 13 e o MEC só deverá liberar as notas em janeiro. 

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