Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Pretos no Enem e Amplia: campanhas mobilizam voluntários para pagar inscrições de negros

Movimentos surgiram nas redes sociais e reuniram milhares de apoiadores; prazo para quitar boleto de R$ 85 termina nesta quarta, 10

João Abel, O Estado de S. Paulo, e Brenda Zacharias, especial para o Estado

08 de junho de 2020 | 22h17

SÃO PAULO - Dois grupos de voluntários -- Pretos no Enem e movimento Amplia --  mobilizaram, por meio das redes sociais durante a última semana, milhares de encontros em prol da solidariedade: candidatos negros e indígenas que vão prestar o Enem 2020 com ‘padrinhos’ e ‘madrinhas’ dispostos a pagar a taxa de inscrição da prova, garantindo, assim, a chance de tais grupos pleitearem uma vaga no ensino superior.

O prazo para a quitação do boleto de R$ 85 para realizar o exame, que ainda não tem data definida depois de um adiamento motivado pela pandemia, foi prorrogado até esta quarta, 10. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão que realiza a prova, cerca de 300 mil inscritos ainda não haviam pago a taxa de inscrição desde a data inicial, 28 de maio.

O que são os movimentos Pretos no Enem e Amplia?

Além da extensão do prazo do pagamento da taxa, a discussão sobre o racismo no País, que ganhou força nas redes sociais por meio de campanhas virtuais como a #BlackOutTuesday, incentivou a publicitária Lyara Vidal a oferecer, em um post no Twitter no último dia 2, o pagamento de boletos de jovens negros que tiveram a isenção da taxa negada. Um amigo de Lyara, o podcaster Luan Alencar, replicou a ideia em seu perfil e, juntos, levaram a iniciativa a um grupo de cerca de 80 ouvintes e colaboradores do podcast Budejo.

“Alguns disseram que não conseguiriam pagar, mas queriam ajudar com a divulgação”, relembra Alencar. Com a ação conjunta, que ganhou o nome Pretos no Enem, alcançaram a marca de 750 voluntários no dia seguinte. Até esta segunda, 8, o projeto reunia mais de 25 mil pessoas dispostas a pagar ao menos um boleto. Atualmente, participam da organização 72 pessoas de diferentes áreas, como comunicação e dados.

“Eu acho que tudo começa com um sentimento de impotência que a gente tem hoje em dia e que é ainda maior com o contexto de pandemia. Nós vemos tudo o que está acontecendo e se pergunta: ‘mas será que o máximo que eu posso fazer é uma hashtag no Twitter ou um post no Instagram?’”, avalia o podcaster. “Então, decidimos partir para a prática e tentar atacar o problema do racismo pela raiz: o acesso à educação.”

Movimento semelhante aconteceu com o professor Cristiano Ferraz, que ouviu a ideia no podcast de Alencar e a replicou em seu perfil privado no Instagram. Após uma rede de amigos compartilhar a ideia nas redes, o post inicial contabilizou 12 mil curtidas e 70 mil comentários. Agora, com outros 70 voluntários, organiza o movimento Amplia, que conta com cerca de 50 mil interessados em pagar inscrições.

 

 
 
 
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Como participar dos projetos?

Ambos os projetos fazem a ponte entre alunos que não puderam pagar os boletos ainda e os interessados em colaborar. Toda a comunicação é feita pela internet: os voluntários preenchem um formulário online com informações de contato e de quantas taxas podem pagar; depois, recebem por e-mail o boleto. Por fim, os organizadores respondem os alunos com os comprovantes.

No momento, apenas o Pretos no Enem ainda recebe inscrições de novos voluntários para pagar os boletos; o Amplia as encerrou no domingo. Apesar da boa resposta de interessados em colaborar, os organizadores falam da dificuldade de atingir os principais personagens -- os próprios candidatos. “É um segmento com muita dificuldade de acesso à internet. [Os projetos viralizaram] dentro de uma bolha, mas não conseguimos ainda chegar no jovem que está na periferia”, diz Ferraz. Quem se enquadrar no perfil pode se inscrever até às 23h59 de hoje no Amplia. O Pretos no Enem ainda não definiu o prazo.

Em nenhum dos projetos existe uma triagem de participantes, como comprovação de renda. No caso do Pretos no Enem, os organizadores conversam com os estudantes para entender novas demandas. “Surgiu como um projeto antirracista. A ideia não é para diminuir desigualdade econômica, mas desigualdade racial”, afirma Alencar.

E, além de auxiliar no pagamento das taxas de inscrição, os movimentos pretendem continuar auxiliando os estudantes negros e indígenas na preparação para o Enem. “Algumas pessoas escreveram nos comentários que tinham interesse em ser tutor de um aluno, ou que queriam doar um computador que têm em casa. É o primeiro degrau”, diz Ferraz.

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