Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Planalto teme problemas no Enem e pede para presidente do Inep se demitir

Nas redes sociais, ministro da Educação disse que saída de Danilo Dupas foi por 'motivos pessoais' e 'a pedido'; bastidores apontam temor de desgaste. Carlos Moreno assume cargo a partir de agosto

Leon Ferrari e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2022 | 11h46
Atualizado 29 de julho de 2022 | 19h40

A menos de quatro meses da realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Ministro da Educação, Victor Godoy, anunciou, nesta quarta-feira, 27, a saída de Danilo Dupas da presidência do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela prova. Conforme anúncio nas redes sociais, a troca de chefia ocorreu “por motivos pessoais e a pedido”. Quem assume o cargo, a partir de 1º de agosto, é Carlos Moreno.

Conforme apurou o Estadão, Danilo Dupas deixou o cargo a pedido do Palácio do Planalto. A preocupação do governo era que sua atuação, questionada há meses por servidores e especialistas em educação, prejudicasse o presidente Jair Bolsonaro durante a campanha para reeleição. Servidores e especialistas comemoram a indicação de Moreno para o cargo, destacando seu caráter técnico. 

Dupas, que nunca havia trabalhado com avaliações educacionais, assumiu o cargo em fevereiro do ano passado. Durante o período, envolveu-se em polêmicas e teve de enfrentar acusações de interferência do governo federal nas provas do Enem. O ex-ministro Milton Ribeiro, no entanto, o manteve no cargo. Ribeiro é investigado e foi preso por supostos crimes de corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência no caso do gabinete paralelo do MEC, revelado pelo Estadão.

A reportagem apurou que o Planalto temia que eventuais problemas na preparação do Enem ou outras polêmicas envolvendo o Inep poderiam levar a novas investigações em um ministério já fragilizado. As provas deste ano serão aplicadas em 13 e 20 de novembro. 

Após a publicação da reportagem, o Inep afirmou, em nota, que a saída "não ocorre por conta de pedido do Palácio do Planalto". "O gestor tomou a decisão de deixar o cargo em 18 de julho, data em que comunicou o ministro Victor Godoy e assinou sua carta de exoneração." Segundo o órgão federal, a saída por decisão pessoal foi confirmada pelo ministério e por Godoy em diversas ocasiões.

Este mês, em novo embate, Dupas enviou um ofício à associação de servidores do Inep, que fazia oposição a ele, pedindo dados como quantidade de associados e atas das reuniões. A entidade viu a iniciativa como um “assédio institucional” e uma forma de cercear a liberdade dos servidores.

Em novembro de 2021, quando faltavam 13 dias para o Enem, mais de 30 servidores do órgão pediram exoneração e dispensa coletiva. Dupas foi acusado pelos funcionários de assédio e desconsideração de aspectos técnicos na tomada de decisões. Ele negou as acusações. 

Também em novembro, o Estadão apurou que houve supressão de “questões sensíveis” na prova. O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar que as perguntas do Enem teriam "a cara do governo". 

Naquele mesmo mês, em comissão do Senado, Dupas falou ser “comum” a adição e a retirada de questões durante a montagem do teste. E explicou que a “cara do governo é seriedade e transparência”.

Conforme apurou o Estadão, os servidores do órgão foram pegos de surpresa pela troca de presidência. A mudança, no entanto, foi bem recebida pelos funcionários. Nesta quarta, por volta das 14h55, eles receberam um comunicado, pelo e-mail da presidência, anunciando a troca e convidando-os para um encontro com o novo presidente, Carlos Moreno, às 15h no auditório do Inep.

Os servidores encheram o salão e aplaudiram de pé a entrada de Moreno. A fala dele, porém, teve de ser interrompida quando, minutos depois, receberam outro comunicado que mudava a data da conversa para 1.° de agosto - data oficial da saída de Dupas.

'Minha missão é garantir a execução do Enem sem problemas'

Godoy informou que, a partir de 1° de agosto, Carlos Moreno assume o cargo, “respondendo interinamente e garantindo a continuidade dos exames e avaliações fundamentais para toda a sociedade brasileira”. 

Ao Estadão, Moreno disse que a prova do Enem está pronta. "Estou tranquilo porque confio muito nos servidores do Inep”, afirmou. Segundo o novo presidente do Inep, o ministro deu “total liberdade” a ele para atuar e conhecer os detalhes do exame e do que vinha sendo feito na gestão de Dupas. “Minha missão é a de garantir a execução do Enem sem problemas.”

Moreno é um dos servidores mais experientes e mais respeitados do Inep e da comunidade educacional. Ele disse que sua nomeação foi uma surpresa e que foi chamado durante as férias. O nome também foi bem recebido por especialistas, apesar de representantes de universidades manifestarem preocupação com a troca repentina. 

O novo presidente do Inep afirmou que vai avaliar a situação do órgão e analisar possíveis cargos ocupados por profissionais sem experiência em avaliação, como vinham denunciando os servidores.

Moreno é bacharel e mestre em Estatística pela Universidade de Brasília (UNB) e doutorando em Educação na Universidade Católica de Brasília. É servidor de carreira do Inep desde 1985 e ocupava o cargo de Diretor de Estatísticas Educacionais desde 2010. Recentemente, foi condecorado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e recebeu o Prêmio Todos pela Educação pela sua contribuição para a área durante a carreira. 

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