Portugal e Espanha: Para quem procura língua e costumes parecidos

País luso tem cursos de especialização; na Espanha, pós mais procuradas são os mestrados

Luciana Alvarez, Especial para O Estado

26 de fevereiro de 2019 | 03h00

Kauê Sichier e a mulher, Alyne Guevara, sempre falavam sobre a possibilidade de morar fora do Brasil por algum tempo. Em agosto se mudaram para a capital portuguesa, onde ele hoje faz um mestrado em Psicologia. “Foi uma boa opção que a gente encontrou, um local onde seria possível realizar o nosso sonho.”

Antes de se mudar, o casal aproveitou as férias para visitar instituições de Lisboa. “Depois, foi bem fácil realizar o processo de inscrição e visto. Do planejamento até o curso, levei um ano e meio. Mas fiz o tudo sozinho e fui aceito”, conta ele, que estuda na Universidade Autónoma de Lisboa. 

A exigência, porém, está sendo menor do que ele esperava. “Como o curso inicial aqui é mais curto, são só três anos, estou achando bem fácil. Vou aproveitar meu tempo aqui e fazer também uma especialização em psicogerontologia”, diz. Alyne, que veio para acompanhá-lo, também já começou uma especialização.

Portugal é um dos poucos países da Europa que oferece cursos chamados de especialização. Eles, no entanto, são semelhantes a cursos livres e extensões do Brasil, pois apresentam grande variação de duração e formato - alguns de apenas seis meses, outros de até dois anos. 

“As especializações costumam ser bem curtas, sobre algum tema útil para a prática profissional, mas não são tão reconhecidas como os mestrados”, explica Deborah Manzotti, da Consultoria Portugal. “Além disso, se for um curso de menos de um ano, o visto de estudante não dá direito a trabalhar nem a trazer a família.” Em Portugal, a área mais procurada para pós-graduação é o Direito, afirma Deborah. 

Prática ou teoria. Na vizinha Espanha, as pós-graduações mais procuradas são mesmo as maestrias, os mestrados. No país, há uma divisão entre as chamadas oficiais e não oficiais ou próprias. Apesar de o nome não oficial assustar, há muitos programas de alta qualidade e de bom renome no mercado de trabalho. Mas, enquanto a oficial é oferecida pelo governo, a não oficial fica a cargo da instituição de ensino. São cursos com orientação prática e forte articulação com o mercado. Por não terem enfoque investigativo, eles não abrem caminho para um doutorado na sequência. 

“Na prática, é mais barato e mais fácil de homologar no Brasil como mestrado se for uma oficial”, explica Renata Barbalho, da consultoria Espanha Fácil. “Se o objetivo é ter a expertise para aplicar no mercado, as pessoas optam muito pelas não oficiais. A procura pelas oficiais se dá, por exemplo, por funcionários públicos que depois precisam de reconhecimento no Brasil para contar na carreira”, conta Renata. 

Estudar fora serve de trampolim para trabalho especializado no exterior

Isabela Obeica já tinha a mãe e o irmão mais novo morando em Portugal quando decidiu também se mudar, levando junto seu marido e filho. “Trabalhava com moda, mas fiquei um tempo afastada do mercado depois que tive filho. Fazer uma pós era minha ideia para voltar. Então nós fomos assaltados no Brasil. Assim, decidimos que seria bom sair do País”, conta ela que cursa Gestão de Recurso Humanos na Universidade Europeia de Lisboa. "Viemos para ficar, pela qualidade de vida." O visto de estudante foi uma forma de mudar de país com todos os documentos já certos.  

O marido já conseguiu trabalho, mas não em sua área. Ele também entrou em um mestrado, para tentar oportunidade melhor em breve. Isabela sente que, como ela mesma e o marido, há muitos brasileiros que também buscam no mestrado uma forma de conseguir um trabalho mais especializado no novo país. "Na minha sala há cinco brasileiros além de mim. E todos pensam em ficar de vez", relata.

De fato, histórias como a de Isabela são bem comuns em Portugal. “Com raras exceções, quem vem fazer uma pós-graduação aqui usa o curso como um trampolim de imigração. Quase ninguém tem a intenção de voltar", conta Deborah Manzotti, da Consultoria Portugal. O país europeu acaba sendo muito procurado por oferecer algumas facilidades burocráticas, para além do idioma. "Quem tem OAB no Brasil consegue fazer uma validação na Ordem de Portugal e atuar aqui", cita. No caso de fazer a graduação em universidades portuguesas, há muitas que aceitam a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como prova de entrada para a licenciatura.

O custo de vida, um dos menores da Europa ocidental, e o baixo valor dos cursos são outros fatores de atração para as terras lusitanas. Os valores cobrados pelas instituições de ensino, chamados de propina, giram em torno de 3 mil euros ao ano. "As anuidades mais caras são de 7 mil euros", afirma Deborah.

No país vizinho, os mestrados também são uma forma de os brasileiros terem as portas abertas para empregos em suas áreas de formação. “Na Espanha, as pessoas confiam muito no que elas já conhecem. Se você chega aqui com um diploma da USP (Universidade de São Paulo) ou de uma instituição sem prestígio não faz diferença porque eles não conhecem nenhuma delas”, comenta Renata Barbalho, da consultoria Espanha Fácil. Assim, quem deseja trabalhar na sua área, acaba optando por fazer uma maestria. “Tem muitas pessoas que vem acompanhar o marido ou a mulher numa transferência de trabalho, mas para eles também se posicionarem bem no mercado, acabam optando por fazer a maestria aqui.”

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