Washington Alves/Estadão
Oséas Ferreira teve de trocar livros por dura jornada de trabalho Washington Alves/Estadão

Por trás do menor Enem desde 2005, jovens que tiveram de adiar sonhos

O ensino remoto ruim, em meio à pandemia, desmotivou muitos, enquanto outros tiveram de buscar emprego ou mesmo nem tinham dinheiro para pagar a inscrição

João Ker e Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

Oséas Ferreira, de 20 anos, trabalha como empacotador em um frigorífico. Em algum momento entre o início e o fim da jornada de dez horas, percebeu que o sonho de estudar escapava entre os dedos. Ele queria cursar Direito, mas hoje, quando colegas da mesma idade estiverem a caminho do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ficará ainda mais distante da universidade.

“Tem hora que dá desespero. Sempre gostei de estudar e não tenho oportunidade”, diz o jovem de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Ferreira faz parte de um grupo que se tornou mais numeroso este ano: aqueles que nem chegaram a se inscrever no Enem. Porta de entrada para o ensino superior brasileiro, o exame será aplicado hoje e no próximo domingo, em meio a denúncias de tentativa de controle sobre questões da prova e crise com servidores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo teste.

Desde 2005, o Enem não tinha número tão baixo de inscrições. E, naquela época, a prova nem era usada para entrar em universidades públicas. O total de candidatos que vai fazer este Enem – cerca de 3,4 milhões – é quase metade do que o Ministério da Educação (MEC) esperava de inscritos no início do ano. Em relação ao ano passado, houve redução de 41% no total de inscrições.

A queda é maior entre os candidatos que já haviam concluído o ensino médio. E excluiu ainda mais pretos, pardos e indígenas. O corte na gratuidade para quem faltou no ano passado afastou ainda estudantes pobres que não conseguiram pagar a taxa de R$ 85 para participar. O ministro da Educação, Milton Ribeiro, que brigou na Justiça para não reabrir o prazo de inscrição, minimizou no Congresso o recorde negativo. “Quero saber de fato quantos vão fazer o Enem”, disse.

Em setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a reabertura do prazo de inscrição com gratuidade para quem faltou na edição passada. O Enem de 2020, realizado em janeiro deste ano, teve recorde de abstenção – grande parte de jovens que faltaram com medo de contaminação pela covid-19. A adesão à nova rodada de inscrições agora foi baixa: só 280 mil alunos a mais, que vão fazer a prova apenas em janeiro de 2022.

O ensino remoto ruim, em meio à pandemia, desmotivou os estudantes. “É complicado, não tem como aprender como eu queria. Não me sinto preparada”, diz Karen Carla Alves, de 17 anos. Após quase dois anos de aulas online, a jovem mineira decidiu não se inscrever e tentar só depois uma vaga em Medicina Veterinária.

Já Thiago Henrique Almeida, de 18 anos, começou a trabalhar para ajudar o tio. Morador de Epitaciolândia, no Acre, ele leva e traz gado entre dois municípios do interior. “Não consegui aprender de verdade. A gente só pegava material na escola, e assistia pela televisão, quando dava o sinal”, diz. “Meu tio me disse que no próximo ano vai pagar um pré-Enem para mim. Quero fazer Engenharia Elétrica. Não adiantaria tentar agora.”

Diretores e professores bem que tentaram mobilizar os estudantes, mas a crise fez força contrária. No Amapá, Arnanda Oliveira, responsável pelo ensino médio na Secretaria de Educação, viu famílias saírem da capital e voltarem para comunidades rurais ou ribeirinhas para sobreviver – muitas delas sem computador ou celular.

“A gente já percebeu esse impacto no Enem 2020 e mais ainda este ano. Qualquer ação que envolva WhatsApp, ou algo simples de internet, temos dificuldade de alcance”, afirma. “A educação dificilmente vai ficar em primeiro plano, porque essas pessoas precisam comer.” A queda de inscritos neste Enem é ainda maior na faixa de 21 a 30 anos – 68,8% em relação à edição passada.

Crise

Em Pernambuco, ausências de alunos em aulas preparatórias para o Enem, aos sábados, chamaram a atenção. “Percebemos que muitos estavam indo trabalhar na feira livre, como carregador, qualquer função que oferecesse remuneração”, diz Regina Melo, gerente geral do ensino médio e anos finais do fundamental da Secretaria de Educação.

A morte de parentes próximos pela covid-19 também forçou jovens a buscarem emprego, antes de pensarem em continuar os estudos. “Vimos muitos casos de alunos que precisaram trabalhar para sustentar os irmãos porque os pais faleceram”, diz Sirlei Bayma, gerente do Ensino Regular da Secretaria de Educação e Desporto do Amazonas.

No Rio Grande do Norte, o secretário estadual da Educação, Getúlio Marques, calcula que 20 mil tinham interesse em fazer a prova (chegaram a se cadastrar), mas não tiveram a inscrição concluída, por falta de pagamento ou desistência. “O impacto vai ser grande nessa geração, para os próximos anos, com menos gente qualificada no tempo certo.” Procurado sobre as causas do encolhimento do Enem e políticas para reverter o problema, o MEC não se manifestou. /COLABORARAM ALINE RESKALLA E JOÃO RENATO JÁCOME

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Fragilidade do remoto, empobrecimento e veto de isenção a ausentes afetam Enem; leia análise

Privar os mais pobres do acesso ao ensino superior é um enorme passo para trás na diminuição das desigualdades socioeconômicas

Priscila Cruz*, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 07h57

A queda expressiva no número de inscritos do Enem – que afeta sobremaneira os milhões de alunos das escolas públicas, em especial os mais pobres – tem relação direta com, pelo menos, três fatores. A fragilíssima estrutura do ensino remoto e a quebra do vínculo de muitos alunos com os estudos inviabilizou a preparação de muitos estudantes que, em condições normais, provavelmente participariam. 

Outro fator importante está relacionado ao brutal empobrecimento das famílias, decorrente da crise econômica e potencializado por um auxílio emergencial errático e intermitente (por decisão do governo). Essa situação afeta inúmeros jovens em idade escolar para que complementem a renda familiar e também outras pessoas que enxergam no Enem a porta para um futuro melhor.

Por fim, a decisão do governo Bolsonaro de não rever a regra que nega o direito à taxa de isenção àqueles que não compareceram ao exame no ano anterior dificultou deliberadamente a participação de várias pessoas que em 2020, em um dos períodos mais críticos da pandemia, faltaram no dia da aplicação, e não podem arcar com a taxa de R$ 85. Está aí a verdadeira marca desse governo no Enem, ou seja, tem sido um destruidor da Educação.

Quando se trata de Educação, é preciso combinar respostas emergenciais com políticas de longo prazo. Privar os mais pobres do acesso ao ensino superior é um enorme passo para trás na diminuição das desigualdades socioeconômicas. Bloquear as melhores oportunidades para quem mais precisa, e para aqueles que foram mais prejudicados pela pandemia e abandonados pelo governo federal, custará caro ao desenvolvimento do País.

*MESTRE EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PELA HARVARD KENNEDY SCHOOL OF GOVERNMENT, É PRESIDENTE E CO-FUNDADORA DA ORGANIZAÇÃO SEM FINS LUCRATIVOS TODOS PELA EDUCAÇÃO.

 

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