Por revisão da redação do Enem, grupo organiza abaixo-assinado e passeatas

Petição pública já tem 7 mil assinaturas; documento será utilizado para subsidiar ação judicial

Carlos Lordelo, do Estadão.edu,

31 Dezembro 2012 | 16h48

Revoltados com as notas da redação do Enem 2012, estudantes de todo o País discutem nas redes sociais como pressionar o Ministério da Educação (MEC) a recorrigir os textos antes do dia 7 de janeiro, quando começam as inscrições no Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

 

A redação tem forte impacto na nota final do exame, que é utilizado como vestibular pela maioria das instituições públicas de ensino superior do País.

 

Só o grupo do Facebook "Ação Judicial - Redação Enem 2012" reunia 23,5 mil membros até as 16h desta segunda-feira, 31. A comunidade foi criada na sexta-feira, 28, após a divulgação dos boletins de desempenho dos candidatos do Enem.

 

Os participantes do grupo lançaram um abaixo-assinado virtual para subsidiar uma eventual ação judicial com pedido de liminar contra a União e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC responsável pelo Enem. O documento, que já tem 7,2 mil assinaturas, deve ser entregue ao Ministério Público Federal (MPF) e à Defensoria Pública da União (DPU) na quarta-feira, 2.

 

Na petição pública, os estudantes dizem querer a concessão de vista da prova de redação "em tempo hábil para contestação" bem como o direito a recurso administrativo. "Destacamos a necessidade de urgência da ação ante a necessidade de se inscrever no Sisu, que é o único critério para selecionar candidatos a vagas na maioria das universidades federais", afirma o documento.

 

O Inep não aceita pedidos de revisão da nota da redação. Segundo a Assessoria de Imprensa do MEC, neste ano será cumprido o Termo de Ajustamento de Conduta assinado com o MPF para que os candidatos tenham acesso ao espelho da correção da prova. A "vista pedagógica" estará disponível a partir de 6 de fevereiro, pela internet.

 

Ainda de acordo com o MEC, foram tomadas outras "medidas de aperfeiçoamento" na correção da redação. Entre elas a diminuição da discrepância entre as notas dadas pelos dois avaliadores para que o texto fosse lido por um terceiro corretor, além da criação de uma "segunda instância", ou seja, uma nova banca avaliadora, para os casos em que as discrepâncias persistiram após a análise do terceiro corretor. "Os critérios estavam bem definidos e todos os itens do edital foram seguidos", afirma o ministério.

 

Os alunos insatisfeitos com a correção, no entanto, dizem que não estão reclamando de notas baixas, mas de "notas injustas" e da "arbitrariedade" do Inep por não conceder possibilidade de revisão da pontuação. No Facebook, o grupo argumenta que "o problema da redação não é pontual e tem que ser resolvido com seriedade" pelo MEC. Segundo os estudantes, a correção funciona como um sorteio de loteria.

 

Os candidatos convocaram passeatas em várias cidades do País para a quarta-feira, 2. Os eventos estão previstos para ocorrer simultaneamente, a partir das 14h. Os protestos vão terminar com a entrega do abaixo-assinado nas sedes do MPF e da DPU em cada Estado.

 

'Fator surpresa'

 

Os candidatos que fizeram o Enem nos dias 3 e 4 de novembro tiveram de escrever uma redação sobre movimentos de imigração para o Brasil no século 21. O tema foi considerado inesperado e difícil por alunos e professores. Especialistas consultados pelo Estado após a prova afirmaram que a complexidade poderia resultar em queda média do desempenho dos alunos.

 

A proposta trazia uma coletânea com informações sobre imigrantes do Haiti, que chegam ao País pelo Acre, e sobre a questão dos bolivianos no Brasil. Também havia menção aos movimentos de imigração dos séculos 19 e 20.

 

À época da prova, o professor Rogério Chociay, aposentado do departamento de Letras da Unesp e especialista em redação de vestibular, disse que houve uma "quebra de expectativa". "O tema está um tanto fora do eixo da maioria dos estudantes e além disso não há informações precisas se há de fato um movimento migratório", afirmou. "A proposta é perigosa pelo número de dúvidas. Ela ficou dependente dos textos de apoio e isso complica."

 

Para Caroline Andrade, do Cursinho da Poli, o tema surpreendeu e isso poderia atrapalhar o rendimento. "O inesperado pode causar insegurança e fazer com que a pessoa não consiga construir uma argumentação consistente", disse logo após o exame.

 

Criticado por docentes, a proposta da redação foi defendida pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante. "É um tema bastante contemporâneo, desafiador e não previsto. Porque as pessoas não podem só trabalhar com o previsível, é a formação abrangente que permite responder com criatividade e consistência, e a prova trazia alguns exemplos que ajudavam na reflexão", disse Mercadante.

 

* Atualizada às 17h35

Mais conteúdo sobre:
EnemRedação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.