Marcos Müller/Estadão
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Por que não falar de saúde mental?

Temos de enfrentar nossas resistências para poder ajudar os que apresentam transtorno mental

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2022 | 05h00

Clara é uma garota de 9 anos, filha única, mora com os pais e a avó materna. Está matriculada em uma escola particular e sempre foi uma boa aluna: nunca deu trabalho para fazer as lições de casa e, apesar de não estudar muito fora do período escolar, aprende o que precisa.

Desde os 6 anos, mais ou menos, Clara tem medo, muito medo. De tudo. Teve aqueles medos todos da infância: monstros, bandidos, sequestros. Fica sempre ansiosa enquanto os pais não chegam em casa.

Não é uma ansiedade passageira: ela se descontrola, sua frio, seus batimentos cardíacos aceleram e chora sem parar.

Seus pais já haviam tentado muitas estratégias para ajudar a filha: estimulavam a enfrentar o medo de diferentes maneiras, apontavam a realidade da segurança de sua casa, forçavam a menina a sair com eles, por exemplo. Quando perdiam a paciência, aplicavam castigos também. Mas nada resolveu.

Um dia, um pouco antes do início da pandemia, o pediatra que a acompanha desde o nascimento orientou os pais a procurarem um psiquiatra para Clara. Eles relutaram muito, mas, enfim, cederam. Hoje, Clara faz tratamento com esse médico e com uma psicóloga também. Ela não tem um diagnóstico fechado ainda, mas os pais ouviram do médico que Clara apresenta um transtorno ligado à saúde mental.

A família se isolou, e os pais dizem que estão aguardando a filha melhorar para voltar à “vida normal”. Não costumam dizer que a filha segue em tratamento para quase ninguém e os poucos parentes que sabem nada comentam. A mãe deixou o trabalho remunerado para cuidar da filha e pouco faz em sua vida, além disso. Isolados, eles tiveram de mudar toda a sua rotina de vida. O bem-estar da família toda também está comprometido, portanto. Eles estão sem apoio emocional.

Por que os pais de Clara demoraram a buscar ajuda profissional para a filha? Por que se isolaram do convívio social? Por que se calam quanto ao tratamento dela? Porque temos, ainda, muitos preconceitos em relação aos problemas ligados à saúde mental, essa é a questão.

Nenhuma família fica constrangida por ter de levar um filho ao médico, não esconde de ninguém doenças que ele tenha ou tratamentos. Tratamos a saúde física com naturalidade, não é? Já a saúde mental...

Precisamos enfrentar nossas resistências e preconceitos para conseguir ajudar os mais novos que apresentam algum tipo de transtorno mental. Precisamos lembrar que quem apresenta algum transtorno mental tem sempre sofrimento psíquico, muitas vezes intenso. Já basta a eles ter de lidar com isso, não é? 

É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONA E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

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