Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Por mês, 23 professores da rede pública paulista são agredidos na escola

Taxa é a maior registrada no Estado nos últimos dois anos – em 2015, índice era de 15 docentes e em 2014, de 20; capital concentra maioria dos casos

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2016 | 03h00
Atualizado 22 Dezembro 2016 | 07h09

SÃO PAULO - Ao menos 23 professores da rede pública estadual de São Paulo sofrem agressões no ambiente escolar por mês. A taxa é a maior registrada nos últimos dois anos – em 2015 o índice era de 15 docentes por mês e em 2014, 20.

De janeiro a 31 de julho deste ano, as cerca de 5,2 mil escolas da rede pública paulista registraram 164 episódios de agressão. Em todo o ano passado foram 188 e em 2014, 237. Segundo a Secretaria Estadual de Educação, os dados começaram a ser compilados de forma sistemática no fim de outubro de 2013 e, portanto, não há possibilidade de comparar uma série histórica mais longa. 

A capital concentra um em cada quatro casos – foram 42 episódios de violência contra os docentes apenas neste ano, a maior parte (15) na zona leste da cidade. Se consideradas as estatísticas desde o fim de 2013, as cidades com mais casos são Mauá (31), Campinas (27), Guarulhos (20), São Bernardo do Campo (18), Santo André (18), Itapevi (18) e Suzano (16). 

O nome das escolas onde os episódios aconteceram não é divulgado nem o histórico dos fatos. O Estado também solicitou os dados à Secretaria Municipal de Educação da capital, mas a Prefeitura informou que não realiza tal levantamento. 

Além de causar traumas, as agressões podem afastar os professores da sala de aula – e até do magistério. Quando retornam, alguns passam a exercer funções de secretaria ou outros órgãos: são os professores readaptados. Reportagem do Estado publicada em março mostrou que São Paulo deu licenças a 372 professores por dia em 2015, uma em cada quatro delas por transtornos mentais.

Agredida por uma estudante em 2011, a professora de Geografia Maria Clara (nome fictício), de 44 anos, que trabalha em uma escola estadual em um município a 250 km da capital, não se recuperou até hoje. Na época, uma estudante de 17 anos a agrediu com uma cadeira e tentou enforcá-la. Maria Clara solicitou que seu nome e o do colégio não fossem citados.

Segundo a professora, a aluna, que já tinha histórico de ofender e desrespeitar professores, se recusou a fazer um exercício e foi mandada para fora da classe. “Ela se revoltou, pegou a carteira e me ‘prensou’ contra a parede com uma mão. Com a outra, me segurou pelo pescoço. Tive de empurrar para me livrar”, diz Maria Clara, que registrou boletim de ocorrência.

A estudante foi suspensa, mas terminou o ensino médio na mesma escola. Maria Clara pediu afastamento e só retornou à unidade no ano seguinte. “Fui por algum tempo. Eu só chorava e tive de sair novamente.” 

Após se consultar com psicólogo e psiquiatra, ela conseguiu se enquadrar como “readaptada” e hoje trabalha na secretaria da mesma escola. “O trauma ficou. Não posso ter nada enrolado no meu pescoço e, se algum aluno encosta em mim, fico nervosa.” A docente diz que, se voltasse para a sala, nunca mais chamaria a atenção dos alunos. “Devia ter deixado ela sentada e cuidado da minha vida.” 

Internação. Em novembro, uma professora de Matemática de 38 anos da Escola Estadual República da Nicarágua, na Fazenda da Juta, zona leste de São Paulo, ficou gravemente ferida após ter sido agredida por um aluno de 16 anos. Ele ficou irritado por causa de uma nota registrada erroneamente, mesmo depois de a docente ter reconhecido o erro e prometido alterá-la.

A briga começou com um bate-boca. O aluno, então, xingou a docente, que decidiu chamar a diretora para retirá-lo da classe. Ele a ameaçou, se aproximou da professora e deu um soco em sua costela e uma rasteira. Ela bateu a cabeça no chão e foi levada a um hospital pelo resgate. O caso foi registrado no 69.º DP. 

Professores organizaram pelas redes sociais uma campanha repudiando a violência e compartilhando outras agressões. Em nota, o colégio afirmou que o caso foi uma violência não apenas contra a professora, mas contra “toda a categoria”. “Agressões, infelizmente, fazem parte do cotidiano escolar, principalmente as verbais por parte dos alunos. A sensação de impunidade não deve continuar.”

0,07% dos professores. A Secretaria Estadual de Educação de São Paulo afirma que os 164 casos de agressão registrados neste ano atingiram 0,07% dos 207 mil docentes da rede. Segundo a pasta, além de comportamentos agressivos, violência verbal e física, também estão incluídos nesse índice registros de falta de disciplina, como insistência, por parte do aluno, para que uma nota seja alterada. “Os casos mais graves de agressão são registrados pela Polícia Civil”, diz a secretaria, em nota.

A pasta afirma que o Estado sustentou a reportagem em dados de “um sistema – chamado Registros de Ocorrências Escolares (ROE) – criado para identificar situações de vulnerabilidade entre os estudantes e seus pares, com fins exclusivos de administração escolar e pedagógica, sem valor estatístico sobre violência”. O sistema, informa a secretaria, é usado para “identificar casos que precisam de intervenção da diretoria de ensino ou da própria secretaria”.

A secretaria diz ainda que “todo o tipo de agressão é lamentável e, por isso, a Secretaria da Educação reconhece que os conflitos devem ser prevenidos e combatidos por várias frentes de atuação, incluindo os responsáveis pelos estudantes”. Entre as ações adotadas pelo governo está o Sistema de Proteção Escolar, que oferece para as escolas a figura do professor mediador, “que desenvolve estratégias preventivas e promotoras da cultura de paz, com o objetivo de aproximar as famílias para que atuem em parceria com as instituições”. O Estado tem um total de 3.231 professores mediadores, segundo a pasta. 

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