Por dentro das 'tomas' chilenas

Ocupação de mais de 700 escolas e faculdades e protestos com milhares de jovens põem em xeque o modelo educacional

João Paulo Charleaux - Especial para o Estado

26 Julho 2011 | 00h00

SANTIAGO - Desde o fim do ano passado, marchas de estudantes ganharam as manchetes em várias partes do mundo. Na Inglaterra e na Grécia, por razões econômicas. No Oriente Médio, por motivos políticos. A onda finalmente chegou à América do Sul, com uma peculiaridade: só no Chile atualmente é possível ver multidões de até 100 mil jovens saindo às ruas para pedir melhorias no próprio sistema educacional.

Iniciada em junho, a onda de protestos enfrentada pelo presidente Sebastián Piñera é a maior registrada no país desde a redemocratização, em 1990. Estima-se que mais de 700 escolas e faculdades estejam ocupadas por estudantes em greve.

Toda semana, dezenas de milhares de alunos dos ensinos médio e superior saem às ruas da capital, Santiago, para exigir uma ampla reforma, que passa por uma reforma constitucional para mudar o financiamento estudantil. Já enfrentaram várias vezes bombas de gás lacrimogêneo e a ameaça da cavalaria da tropa de choque da polícia, os carabineros.

Apenas na última semana, Piñera demitiu oito ministros, entre eles o da Educação. Mas só provocou mais indignação entre os manifestantes ao dizer, no dia 21, que a educação é um “bem de consumo”.

Olhando de fora, as “tomas” (ocupações) de colégios e faculdades podem parecer uma bagunça. Mas o movimento é bem organizado no colégio público José Toribio Medina, conhecido como Liceo 7, em Santiago.

Os mais de 30 estudantes acampados na escola foram divididos em grupos de acordo com as principais tarefas do dia, como limpeza, portaria, segurança, alimentação e comunicação. As entradas foram bloqueadas e a fachada está cheia de faixas e cartazes.

Doações

O aluno do ensino médio que se apresenta como Beiby Mozo, de 17 anos, conta que a associação de pais e mestres tem apoiado o acampamento e vizinhos da escola doam alimentos e material de higiene.

Como no Oriente Médio, os alunos se comunicam pelo Facebook. Mozo relata que ele e os colegas respondem a críticas na rede social convidando os opositores a participar das assembleias que realizam.

Participar de uma toma parece ser mais duro do que enfrentar uma semana de provas. No dia em que a reportagem do Estadão.edu visitou o Liceo 7 fazia muito frio, quase zero grau. Mozo e outros dez estudantes dormiam onde antes funcionava o refeitório da escola, em colchões no chão. Do lado de fora, a neve cobria quase toda a Cordilheira dos Andes.

“Apesar do frio, temos de aguentar”, afirma Mozo. “Não queremos perder o ano letivo, mas também não podemos abandonar a luta maior, mais estrutural.” Os estudantes acampados usam o banheiro do ginásio para tomar banho e dividem toda a comida que conseguem. “Estou há um mês nesta luta. Volto para casa a cada dois ou três dias, quando dá.”

Jorge Guerrero, de 14 anos, vive no Liceo 7 desde junho. Ele pretende fazer faculdade de Psicologia, mas, como tem dois irmãos, sabe que sua família nunca poderia arcar com o pagamento dos estudos dos três.

“Estou lutando aqui por uma educação gratuita, por um sistema mais justo e igualitário.”

Universidade paga

O financiamento estudantil está no centro da mobilização dos jovens chilenos porque todo curso universitário no país é pago, mesmo nas instituições públicas. Quem não tem dinheiro é obrigado a pegar empréstimo bancário. E, desde os anos 90, as dívidas de crédito educativo são administradas por bancos, com taxas de mercado.

Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Chile, ocupada há mais de um mês, o aluno do 2.º ano de Arquitetura Sebastián Soarez, de 19 anos, explica o drama dos estudantes. “O custo anual do curso pode chegar a R$ 8,5 mil, o que é impagável para a maioria das famílias, especialmente as que têm mais de um filho estudando”, conta.

A única forma de escapar dessa cobrança é ganhando uma bolsa, como Sebastián. Morador do bairro de Puente Alto, periferia da capital, ele é um caso raro. Egresso do Instituto Nacional José Miguel Carrera – a escola mais antiga do país, fundada em 1813 –, Sebastián teve notas altas no exame equivalente ao vestibular do Chile. Com isso, foi premiado com uma bolsa do governo.

Mais do que democratizar o acesso ao ensino superior, os estudantes dizem lutar por uma mudança de visão. Para eles, é necessário que a educação não seja mais vista como um negócio. “Somos contra a educação com fins lucrativos. A educação deve ser um direito, não uma mercadoria”, argumenta Sebastián.

O estudante recebeu a reportagem com as mãos cheias de tinta. Estava trabalhando na confecção de cartazes. Empolgado com a experiência das tomas, ele diz já não saber mais se prefere estudar Arquitetura ou dedicar-se à política. “Estamos vivendo uma experiência empolgante aqui, construindo massa crítica, aprendendo a participar da vida política do país”, afirma.

O governo Piñera afirma que todas as tomas são violentas, uma vez que impedem outros estudantes de continuar tendo aulas. Embora as aulas regulares não estejam acontecendo, professores que aderem à causa dão palestras e aulas magnas em escolas e faculdades. Continuar estudando, afirmam os grevistas, é um dos objetivos do movimento.

Popularidade

Apesar das críticas do governo, as organizações estudantis contam com o apoio do sindicato dos professores e da entidade que reúne reitores das universidades. Mais importante, conquistaram a simpatia da população. Uma pesquisa recente indicou que os estudantes têm 82% de aprovação. Enquanto isso o presidente chileno só vê sua popularidade despencar desde o resgate dos mineiros soterrados por dois meses, em outubro. Hoje, o nível de aprovação de Piñera está em 31%.

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