Polícia é bem-vinda, mas não resolverá tudo

Solução para o aumento da violência na USP também passa por investimento em infraestrutura e pela mobilização da comunidade

Bruno Queliconi*, Blogueiro do Estadão.edu

20 Maio 2011 | 12h12

O problema com a segurança no câmpus da USP se arrasta há anos, desde 2008 ouço sobre esse assunto. Recentemente houve uma explosão de crimes graves na Cidade Universitária. Sequestros relâmpagos, que praticamente não existiam, ocorrem regularmente - 12 no último ano entre o Instituto de Química e a Farmácia. Assim, acho que cabem duas questões para discussão: por que nunca houve grandes reclamações e como tentar resolver o problema.

 

A trágica morte do aluno da FEA na quarta-feira serviu de estopim para todos reclamarem. A repercussão causada pelos sequestros e por esse caso trouxe a polícia para dentro do câmpus sem que as vozes que normalmente protestam conseguissem impedir.

 

O DCE, o Sintusp e a Adusp são organizações eleitas que não representam de forma efetiva os seus votantes. Sempre conheci mais pessoas que eram a favor de uma fiscalização policial dentro do câmpus do que contra, algo que nunca se refletiu nas declarações dessas instituições.

 

Aqui, cabem duas colocações. O Estadão.edu está promovendo uma votação pelo Facebook em que pergunta sobre a presença ou não da polícia no câmpus. Veja você mesmo os resultados. E fizemos uma enquete, na qual temos 4 mil votantes e 90% de apoio à polícia. Vale lembrar que é enquete simples, indica a tendência e não a reflete a realidade perfeita por não ser estatisticamente representativa e não ter a mesma força de uma votação. Esses são os argumentos que tenho contra as declarações do DCE e gostaria de, aqui, deixar um protesto contra essa atitude deles.

 

Em relação à permissão para a polícia entrar no câmpus, a questão é complicada, existem argumentos contra e a favor. Os contrários entendem a polícia como um órgão de opressão usado pelo Estado para impedir manifestações e cercear a liberdade de expressão uspiana. Esse argumento é muito mal sustentado, considerando que vivemos em um Estado de Direito e, por mais que exista corrupção na polícia, ela não tem como parte de sua ocupação prender a oposição ao governo.

 

Do outro lado temos os favoráveis, que acreditam que a presença da polícia no câmpus acabará com a sensação de insegurança que existe, além de resolver o problema da criminalidade crescente. O que também não é completamente verdade. A polícia passa uma sensação de segurança temporária que acabará dentro de meses e não solucionará o problema a longo prazo.

 

Ao meu ver, a resolução do problema de forma efetiva passa por diversas mudanças na relação com a polícia, na estrutura da Guarda Universitária, na estrutura do câmpus (melhor iluminação) e, o mais importante, na preocupação de todos com a segurança sua e do próximo.

 

Infelizmente, a presença da polícia reforçando a segurança no câmpus é necessária na atual conjuntura, pois é a solução mais rápida e eficiente para um problema que se agrava rapidamente. Agora, como colocado anteriormente, essa solução não é a mais eficiente e nem permanente para o problema.

 

A solução passa por uma renovação da estratégia de segurança dentro do câmpus. Precisamos de uma Guarda Universitária treinada e com vontade de proteger o patrimônio da universidade (tanto físico quanto pessoal). A terceirização dos seguranças permite o barateamento dos custos diretos, mas causa um aumento no número de processos desses funcionários contra a USP e um aumento da gastos com outros tipos de segurança, devido à sua ineficiência. Cabe levantar que não é falta de vontade. Considerando o baixo salário que eles ganham, poucos têm coragem de brigar com bandidos que sabem onde encontrá-los.

 

A iluminação na USP é ótima, para uns beijos no carro e para bandido se esconder. Existe uma necessidade de mudar a iluminação da Cidade Universitária com urgência. A instalação de postes mais modernos e eficientes permitiria uma redução dos gastos energéticos e um aumento na segurança.

 

Entre os alunos existe uma política de que, se não é comigo, eu não vi. A grande maioria já presenciou o consumo e até venda de drogas dentro do câmpus. Todos precisamos colaborar para que os criminosos não estejam mais na USP e isso deve começar nos Centros Acadêmicos e nas festas onde a venda de droga ocorre livremente. Os crimes devem ser reportados e somente com a ajuda de toda a comunidade conseguiremos reduzir a criminalidade que se alastra.

 

Todos devem ajudar a criar um novo meio de proteger o espaço, não devemos depender exclusivamente da polícia. Ela deve estar lá para obrigar que a lei seja obedecida quando necessário, mas a sensação de segurança deve existir sem ela.

 

Cabe uma crítica à polícia. Com a permissão de entrada no câmpus e quando acionada pela Guarda Universitária, essa deve aparecer rapidamente. Não é possível esperar 10 minutos até o criminoso acabar de roubar o carro ou vender toda a droga para que a polícia apareça. Ela deve chegar rapidamente ao lugar do problema.

 

Até onde fui informado, nesta sexta haverá uma reunião de emergência para tentar melhorar as condições de segurança no câmpus. Espero que dessa reunião saiam ideias e datas de implementação e não promessas! Sei que parte do que foi colocado aqui está nas propostas analisadas pela reitoria, mas pouco adianta ter propostas quando nada é colocado em prática.

 

Gostaria de terminar lembrando a todos que a universidade é um lugar onde ideias afloram principalmente pela liberdade dada a seus integrantes para trabalhar e discutir os problemas e dogmas. Merece atenção uma frase que me disseram ontem, originalmente de Benjamim Franklin: "Um povo que aceita perder uma fatia de sua liberdade em troca de segurança não merece ter nem liberdade nem segurança." Devemos lembrar que, apesar de ser necessário depender da polícia, agora ela deve ser uma companheira na solução dos problemas, e não a solução.

 

Devemos trabalhar em conjunto para que todos possamos viver com tranquilidade dentro da USP, e dessa maneira consigamos conciliar os prós e os contras da presença da polícia, sem diminuir a liberdade de ninguém, mas aumentando a segurança de todos.

 

Por último, gostaria de sintetizar dizendo que a polícia é bem-vinda dentro da USP e necessitamos dela agora. Mas devemos pensar em como solucionar melhor o problema sem a polícia ter toda a responsabilidade sobre a segurança dentro do câmpus.

 

* Esse texto só foi possível ser produzido após longas conversas principalmente com os colegas Mônica Takahashi, além de conversas com Luiza Grecco e Santiago de Paiva, entre outros

 

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