Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

PM cumpre reintegração de posse do Centro Paula Souza

Tropa de Choque não usou balas de borracha ou bombas de gás; estudantes ocuparam prédio em protesto por merenda em Etecs

Isabela Palhares e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2016 | 06h19

SÃO PAULO - Depois de oito dias tomada por manifestantes, a sede administrativa do Centro Paula Souza, na região central de São Paulo, foi desocupada nesta sexta-feira, 6, pela Polícia Militar. Ao menos 30 pessoas foram retiradas à força do prédio. Alunos ainda invadiram, também nesta sexta, duas Diretorias Regionais de Ensino, na capital e em Guarulhos, para pressionar o governo Geraldo Alckmin (PSDB) a melhorar a qualidade da merenda.

A execução da reintegração de posse teve início às 6h40. Mas a ação policial começou antes. Às 5h50, cinco jovens – quatro maiores e um menor de idade – que saíam da ocupação foram abordados pela polícia em um táxi. Com eles havia material de informática (notebooks, pentes de memória de computador e cabos) com identificação de patrimônio da autarquia e medalhas que pertencem ao Paula Souza. 

Os quatro maiores de idade, que disseram ser alunos da rede estadual, foram detidos sob acusação de furto qualificado, associação criminosa e corrupção de menor. O adolescente foi liberado e deixado com responsáveis legais. Segundo advogados dos jovens, a polícia também apreendeu o celular dos cinco e encaminhou para perícia.

Enquanto isso acontecia, estudantes tentaram furar o bloqueio montado pela PM na região central e chegar ao prédio do Paula Souza. Acabaram detidos pelas barreiras com escudos dos agentes dos Comandos de Policiamento da Capital e de Choque. Os policiais leram a ordem de reintegração dada pelo Tribunal de Justiça e avançaram contra os manifestantes, que recuaram.

Alunos tiveram de ser arrastados para fora do prédio, mas não houve uso de bombas nem de bala de borracha – embora existisse aval da Justiça. O tenente Felipe Neves destacou que a operação não deixou feridos. “Foi uma ocorrência positiva, com resultado bom.”

A estudante Inaê Lima, de 17 anos, admitiu que esperava que a ação da PM fosse “muito mais violenta”. Ela contou que foi levada para fora do prédio por cinco policiais, que seguraram seus braços, pernas e cabeça, mas não ficou ferida. A aluna relatou que os estudantes não tentaram agredir os policiais. “Foi uma resistência bonita, fizemos um cordão com os braços. A cada um que saía, a gente unificava de novo.” O jornalista Mauro Donato, do site Diário do Centro do Mundo, relatou ter ficado ferido após, segundo ele, ter sido agredido no rosto com um cassetete por um policial. 

Estragos. No interior do prédio, segundo a polícia e o Centro Paula Souza, houve depredação. Extintores de incêndio foram acionados em alguns locais. Uma porta corta-fogo foi danificada e ao menos outras duas acabaram arrombadas. Diversos móveis teriam sido empilhados como barricada. A autarquia ainda acusou os manifestantes de furtar objetos e dinheiro de funcionários e de ter colado telefones e computadores às mesas.

A diretora-superintendente, Laura Laganá, afirmou ter ficado “indignada”. “O prédio está destruído. Há muitos equipamentos furtados. É uma pena, pois esta é uma instituição que só faz o bem à juventude de São Paulo e sofreu um ataque cruel.” Ela elogiou a ação da PM, que julgou “correta”, e disse acreditar que a maioria dos ocupantes fosse “vândalos”, sem ligação com a comunidade escolar. “Nossos alunos estão revoltados. A maioria (que ocupou) não é aluno.”

Novas ações. Depois de terem sido retirados do prédio, os estudantes definiram uma nova estratégia: invadir Diretorias Regionais de Ensino, além de colégios – já são 14 unidades tomadas na capital (12 técnicas).

Nesta sexta, duas diretorias foram tomadas – a regional Centro-Oeste, em Perdizes, e a regional Sul de Guarulhos. “Vimos que ocupar prédios administrativos tem um grande efeito, porque tem impacto em várias escolas”, disse Douglas, de 18 anos, que pediu para seu sobrenome não ser divulgado.

Os alunos disseram ainda que invadir prédios administrativos foi a forma que encontraram para “burlar” a pressão de diretores, que estariam intimidando os estudantes que tentam ocupar as escolas. E também porque muitas unidades escolares tiveram a segurança reforçada pela PM na tentativa de evitar novas invasões, como o Estado mostrou na quarta-feira. Em nota divulgada nas redes sociais, os alunos disseram também que vão “ampliar e unificar” a luta com estudantes de outros Estados.

O governador Geraldo Alckmin criticou as invasões. “Alguns ficam glamourizando esse tipo de coisa. É errado, é ilegal”, afirmou durante inauguração de uma obra viária em São Roque, região de Sorocaba. Ele voltou a dizer que o movimento é “nitidamente” político. “Poucos estudantes prejudicam 300 mil alunos das Etecs.”

Segundo a Secretaria Estadual de Educação, as duas diretorias são responsáveis por 161 escolas estaduais e a invasão atrapalha o atendimento a alunos, pais e professores. / COLABOROU JOSÉ MARIA TOMAZELA

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