Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Plantão médico

Projeto criado há dez anos pela USP reúne alunos e professores tutores para debater e trocar experiências sobre a graduação e os desafios da profissão

Felipe Mortara, Estadão.edu

21 Fevereiro 2011 | 22h20

Aluna do 5.º ano de Medicina da USP, Thais Pereira, de 25 anos, teve de revelar a uma paciente que ela tinha câncer. “Eu chorei muito, mas depois pensei  que estou aqui para ajudar e não para sofrer”, conta.

 

Para Otávio Ribeiro, de 24, aluno do último ano do curso, o maior desafio foi trabalhar numa enfermaria para crianças com aids. “Lidar com esses  sentimentos é o tipo de coisa que não se aprende na aula.”

 

Ser médico é bem mais difícil do que dominar os aspectos técnicos da profissão. Mas não precisa ser tão complicado quanto mostram algumas séries de TV, nas  quais os dramas dos doutores parecem insolúveis. A rotina do estudante pode ficar bem mais leve, se ele contar com o apoio de professores e colegas.

 

Foi pensando nisso que a Faculdade de Medicina da USP criou o projeto Tutores, em 2001. O programa promove encontros mensais de professores mentores e  pequenos grupos de alunos para refletir sobre a profissão e a vida de médico.

 

Todos os anos, os 180 calouros são sorteados e entram em um dos 80 grupos de 12 a 14 estudantes já existentes. Os membros do grupo, assim como o tutor,  permanecem os mesmos até o fim da graduação. Mesmo sendo uma atividade voluntária, o Tutores reúne em média de 30% a 50% dos 1.080 alunos da faculdade. Há  quem frequente os encontros sempre, outros que vão às vezes – e quem nunca participou.

 

Nas reuniões, de duas horas, os futuros doutores podem falar sobre qualquer coisa. Da ética médica ao relacionamento com pacientes, colegas, chefes,  professores e com o próprio hospital. Há lugar também para assuntos corriqueiros, como o melhor ônibus a tomar quando é preciso ir à Cidade Universitária ou  como lidar com aquele professor mais polêmico.

 

“O que se busca trabalhar aqui é a construção da identidade como futuro médico por meio de um mentor”, afirma Patrícia Bellodi, coordenadora técnica da  iniciativa.

 

Para a professora-tutora Ivete Prado, o encontro é um momento de reflexão sobre as relações de poder na instituição. “Se há algo com o qual o estudante não  concorda, ele precisa aprender como agir, conhecer seus direitos”, diz. Temas polêmicos como aborto e eutanásia aparecem com frequência na sala. “Trabalhar a  questão da responsabilidade e como cada um lida com a morte é muito importante.”

 

“Uma vez a gente discutia o que é ‘ser ético’. Ivete contou do conselho de um professor. Segundo ele, para saber se um procedimento é ético, basta se  perguntar: ‘Eu faria isso com a minha mãe?’”, diz Fernando Silva, de 21, do 4.º ano. “Aqui resolvo muitas dúvidas existenciais. Se ficasse remoendo em casa,  entraria em depressão.”

 

DEPOIMENTO

 

Patrícia Bellodi

Coordenadora técnica do projeto Tutores

 

“O projeto busca oferecer ao futuro médico um tutor, que acompanhará seu desenvolvimento pessoal e profissional ao longo do curso. Cabe ao tutor encorajar,  refletir sobre a jornada do ser médico, sobre como está sendo feito esse percurso. Queremos aproximar professores e alunos, promover a troca organizada de  experiência entre os diferentes anos do curso.

 

Ao longo destes dez anos têm sido discutidos temas fundamentais, como a escolha da especialidade, mercado de trabalho, aspectos éticos e humanistas da  formação. Aparecem ainda assuntos ligados à estrutura e dinâmica do curso, como a integração dos conteúdos básicos e clínicos, a importância da iniciação  científica, o internato e a relação com os pacientes. E aspectos pessoais do estudante, como adaptação ao curso, estratégia de enfrentamento de dificuldades,  escolhas.

 

O projeto tem indicadores qualitativos e quantitativos. Avaliamos o conteúdo dos encontros, a adesão, satisfação e impacto.

 

Mudanças curriculares importantes têm sido propostas pelos tutores a partir do que escutam dos alunos. Os tutores relatam mudanças na sua visão do curso e de  si mesmos, um rejuvenescimento. Os alunos afirmam que puderam conhecer melhor a faculdade, ampliaram as amizades e passaram a ver a Medicina de uma forma  mais positiva.”

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