TAMIRIS CAPUCHINHO/FIAP
TAMIRIS CAPUCHINHO/FIAP

Plano de negócio substitui velho TCC

Faculdade de São Paulo incentiva alunos a criar proposta de startup durante a graduação

T[ulio Kruse, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 05h00

SÃO PAULO - Quando resolveu se matricular no curso de Administração, há quatro anos, Elaine Cabrini, de 40 anos, não tinha a menor intenção de se tornar empreendedora. Com um diploma em Pedagogia, seu objetivo era terminar a segunda graduação e se dedicar à carreira acadêmica, principalmente a lecionar. Foi isso que ela respondeu aos professores que lhe perguntaram sobre suas metas de vida, na primeira semana de aula. Os planos de Elaine, porém, mudaram rapidamente.

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“Comecei a enxergar, na possibilidade de empreender, justamente uma alternativa em relação àquele emprego tradicional”, conta. Já no primeiro ano da faculdade, em meio às aulas, ela teve uma ideia de negócio e começou a pensar em como abrir a própria startup – empresa de rápido crescimento, geralmente com base em inovação e tecnologia. 

Na Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), onde estuda, é um caso comum. No lugar dos tradicionais Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), os alunos devem propor a criação de uma startup. No caso de Elaine, a ideia é usar um aplicativo de celular para melhorar os resultados de buscas em sites de compras online. 

Como o protótipo não está completamente pronto, e ajustes devem ser feitos até a apresentação final à banca avaliadora, em outubro, ela preferiu não dar mais detalhes sobre a proposta. “Partimos de um problema que enfrentávamos como consumidores”, diz Elaine. 

Estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que o Brasil tem a segunda maior porcentagem de empreendedores estudantis entre 13 países pesquisados. 

A entidade mediu a proporção de empreendedores que fundam as startups até quatro anos após começarem a graduação. Neste quesito, o País só perde para o Canadá e está entre as quatro nações do mundo que têm mais de 10% de estudantes universitários entre os fundadores de startups.

Ensino básico. O incentivo ao empreendedorismo e à criatividade já não é exclusividade das universidades. A Fiap, que também tem a própria escola de ensino básico na Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo, também aplica metodologias similares em aulas para os ensino fundamental 2 (6.º ano ao 9.º ano) e no ensino médio. Os estudantes têm de propor projetos para resolver problemas reais. 

Como na universidade, as propostas dos adolescentes do ensino médio são avaliadas por empresários e investidores. “O que tentamos fazer com isso é não matar a criatividade das crianças e introduzir questões de lógica, atualidades, a vida digital, ética”, diz o professor da Fiap Guilherme Pereira. “Quando você tem um aluno de ensino médio e consegue empoderá-lo com ferramentas, a capacidade criativa dele compensa a visão de negócio que um aluno de graduação ou pós tem. De alguma forma, a proposta de negócio muitas vezes é tão inovadora quanto a outra.” 

Alguns professores, porém, acreditam que essa tendência ainda é tímida na educação. “Isso não está acontecendo de forma homogênea. Infelizmente percebo que a maioria dos cursos está com um modelo bem tradicional”, diz o coordenador do curso de Administração da Fiap, Cláudio Carvajal.

Entrevista - Taiguara Langrafe, Assoc. dos Cursos de Graduação em Administração

Em termos de metodologia de ensino e conteúdo, como os cursos de Administração estão mudando nos últimos anos?

Nós temos tendências importantes nos cursos de graduação de Administração que são muito ligadas ao protagonismo do estudante na sala de aula. Isso é muito ligado a tendências sociais que temos observado, seja no mercado de trabalho ou na sociedade como um todo. O desafio nosso é criar o protagonismo do estudante também em sala de aula, com aprendizagem, e mediar a relação do aluno com o professor de forma que os ambientes de aprendizagem gerem uma situação de ‘ganha-ganha’ para todos os lados.

Por que é cada vez mais comum ouvir falar na ênfase em 'empreendedorismo' e competências de 'liderança'?

A discussão sobre empreendedorismo é inerente à Administração, desde a formação clássica até a contemporânea. Dada a transformação que tem ocorrido nas organizações, com mais velocidade nas mudanças, maior competitividade, o comportamento empreendedor tem sido cobrado dos funcionários de organizações, que não necessariamente são donos do próprio negócio.

Faz sentido dar ênfase a técnicas de liderança para alunos da graduação, que ainda não iniciaram a carreira?

Acredito que sim, uma vez que esse aluno de graduação já vai começar a criar impacto na sociedade ao sair da graduação, conforme vai entrando no mercado de trabalho. Podemos falar de diversos contextos, o Brasil tem realidades múltiplas. Um aluno de graduação em uma cidade pequena, por exemplo, já está sendo imbuído de técnicas de liderança para iniciar um negócio na região dele. Vai ter um impacto positivo no local.

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