Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Plano de Enem digital faz MEC correr para aumentar banco de questões

Com versões impressa e online em 2020, prova exigirá nível de dificuldade equivalente nos dois formatos; especialistas veem risco de qualidade menor

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2019 | 05h00

A versão digital do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prometida pelo Ministério da Educação (MEC) para começar a ser aplicada em 2020, ainda esbarra no aumento do banco disponível de questões e na falta de estudos que comprovem que esse formato tem o mesmo nível de dificuldade do atual, com a prova em papel. O ministério afirma ter acelerado o processo para criar novas perguntas para o teste. Apresentado em julho, o Enem Digital será aplicado no ano que vem para 50 mil candidatos. 

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Após críticas do presidente Jair Bolsonaro a edições do exame em outros anos, mudanças na estrutura da prova têm criado expectativas em professores e candidatos. Na sexta-feira, 8, Bolsonaro disse que é importante que o teste reconheça a “família” e o valor do “Estado brasileiro”.

No último sábado, véspera do 1.º dia do Enem, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, destacou o novo projeto como uma “ação inovadora do governo” e uma “modernidade que trará mais conforto”. 

O projeto-piloto planejado para o próximo ano, no entanto, só vai ser testado por o que hoje representa apenas 1% dos 5 milhões inscritos. O plano é aumentar gradativamente o número de candidatos com prova online até 2026, quando a versão em papel será extinta. Com a mudança gradual, o MEC terá de produzir uma prova a mais por ano. Hoje, já são elaboradas duas versões a cada edição - a regular e a de presos. Até o fim da transição gradual, seriam necessários mais de mil questões.

É sigiloso o tamanho do Banco Nacional de Itens (BNI), que guarda todas as perguntas que podem cair no Enem. Há anos, especialistas, técnicos e ex-presidentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC responsável pela prova, alertam para a necessidade de crescer o banco. Mas elaborar itens é caro e demorado, por seguir rigoroso processo para garantir qualidade e sigilo (mais nesta página). O custo estimado da produção de cada item é de R$ 2 mil a R$ 4 mil.

“A gente está em processo de aumento exponencial do banco. Temos uma equipe se dedicando bastante para essa produção exponencial, trabalhando até mais tarde e aos finais de semana”, disse ao Estado o presidente do Inep, Alexandre Lopes. Ainda segundo ele, não houve reforço na equipe de elaboradores de itens, mas intensificação do trabalho do grupo atual.

Para especialistas, pedir para que elaboradores acelerem a produção pode causar prejuízo. “Cada item passa por processo rigoroso antes de ser aprovado para o banco. Com pressão, a probabilidade de reprovar na revisão ou pré-teste é maior”, diz Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Todo item é avaliado por três revisores e passa por pré-teste com alunos de ensino médio de redes públicas e privadas. Além de o item ter de cobrir a matriz curricular exigida, é preciso que tenha diferentes níveis de dificuldade. “É um processo humano, que exige criatividade de quem elabora. Não é como aumentar escala de produção em fábrica”, diz Alavarse.

Em nota, o Inep informou manter o mesmo protocolo para criar itens, com a mesma metodologia e com base na matriz de referência do Enem. Disse ainda prever abrir ainda este ano chamada pública para que professores de ensino médio e superior participem da elaboração e revisão de itens - a última chamada pública foi em 2016 e os contratos, com instituições que cederam funcionários para a função, acabam em 2020. 

Técnicos temem falta de estudo sobre proposta online

Uma das principais preocupações de técnicos do Inep ouvidos pelo Estado é com a falta de estudo comprovando que a versão digital tem nível de dificuldade igual ao da prova impressa. Eles temem que órgãos de controle, como o Ministério Público, questionem a validade da prova sem a comprovação. Especialistas dizem ser preciso testar se o aluno gastará mais ou menos tempo para fazer a prova e se é possível ter a mesma estratégia de elaboração. “O aluno consegue ter visão geral das 90 questões em poucos segundos porque folheia rapidamente a prova. Conseguirá isso com a mesma rapidez?”, indaga Alavarse.

Para Ernesto Faria, diretor do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), estudos com avaliações estrangeiras, como o Pisa, mostram que a plataforma influencia. “Muda a forma de responder, de pensar na elaboração. Não que seja positivo ou negativo, mas é preciso medir o impacto”, diz ele. "Afinal, vão colocar alunos em condições diferentes para fazer uma prova que vai decidir quem vai ter direito a uma vaga em universidade pública. É um bem público muito caro que está sendo distribuído e é preciso garantir que todos têm as mesmas condições de elaboração da prova", completou.

Questionado sobre os estudos, o Inep disse ter feito “diversas reuniões” com equipe técnica “de mais de 20 especialistas” para analisar a proposta. Mas, ao responder a questionamento do Estado, via Lei de Acesso à Informação, disse estar finalizando “estudos nesse sentido”.

Estudantes se dividem sobre novo modelo

Estudantes ainda se dividem sobre a versão digital do Enem. Matheus Vigari, de 18 anos, já fez a prova como treineiro e presta o exame pela segunda vez para tentar vaga no curso de Direito. “Gosto da ideia, porque a gente fica mais tempo na tela de computador do que com papel. Eu me sinto mais objetivo nas minhas escolhas.” Mas vê vantagens no modelo tradicional. “No papel, temos oportunidade de ter um rascunho e grifar o que é importante.”

Aluno do 2º ano do ensino médio do Colégio Poliedro, Pedro Bicudo, de 16 anos, faz o Enem pela segunda vez como treineiro e não aprova. “Para uma prova como essa, precisa de muita estrutura e tem pessoas do interior do Brasil que terão de se deslocar até uma sede para fazer”, diz o estudante. Para ele, a tecnologia pode interferir na concentração dos candidatos.

Estudante da mesma escola, Claudia Parente Nyari Righi Leite de Araújo Monteiro, de 16 anos, está fazendo a prova pela primeira vez como treineira e se preocupa com a situação dos estudantes que não têm acesso às tecnologias. "Tem pontos positivos e negativos. Se pensar pelo ambiente, não tem o uso desnecessário do papel, mas consigo me concentrar mais com o papel, porque a gente só foca em escrever e assinalar. Mas a prova digital  vai mostrar mais ainda as diferenças entre as escolas particulares e públicas. Só vai aumentar essa disparidade", diz. 

A escola onde eles estudam tem como meta preparar os alunos para o novo modelo. "Nosso objetivo é que os alunos não tenham surpresas ao fazer vestibulares e provas. Temos simulados online, modelos de inscrição e palestras em sala de aula. Estamos preparando os alunos para manter o ritmo e enfrentar os principais problemas, porque eles têm a habilidade do uso, mas essa é uma atividade que não é corriqueira", explica  Luiz Otávio Ciurcio Neto, coordenador do Ensino Médio do colégio.  

"O Enem digital é uma solução boa por conta do método de avaliação que já é usado em outros países, mas, no Brasil, o acesso a computadores é um problema, seja por falta de computador ou de banda larga. Quando a população não tem acesso aos bens digitais, pode ter desigualdade. Como 80% dos nossos alunos são de escola pública, começamos a trazer essa inclusão digital para eles." /COLABOROU PAULA FELIX

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