PF quebra sigilos e refaz roteiro de vazamento do Enem

Candidato de Petrolina (PE) soube do tema da redação pelos pais, de Remanso (BA); a mãe dele trabalhou na aplicação do exame

Estadão.edu

24 Novembro 2010 | 16h34

A Polícia Federal (PF) em Juazeiro (BA), a 502 quilômetros de Salvador, quebrou sigilos telefônicos e teve acesso a arquivos de computador para traçar o roteiro do vazamento do tema de apoio à redação do Enem, no dia 7 deste mês.

 

Eram cerca de 10 horas (horário local) quando a professora de Remanso (BA) Marenilde de Brito Affonso, aplicadora do exame para deficientes visuais no Colégio Ruy Barbosa, abriu a remessa de caderno de provas na presença de sete fiscais. A orientação do Inep, órgão responsável pelo Enem, era de que a conferência do material só fosse feita a cinco minutos do início do exame - às 11h55, no horário local. A checagem das provas deveria ser registrada em ata, o que não ocorreu.

 

No depoimento em que confessou o vazamento, Marenilde disse à PF que ligou para a casa de sua sogra e repassou ao marido, Eduardo Ferreira Affonso, o tema da redação como sendo "trabalho e escravidão". Mas o título era de um texto de apoio, pois o tema efetivo do exame era "O trabalho na construção da dignidade humana".

 

10h06. Eduardo começa a pesquisar sobre o assunto "trabalho e escravidão" na internet. Às 10h17, ele liga para o filho Eduardo Ferreira Affonso Júnior, de 21 anos, que faria a prova em Petrolina, no sertão do São Francisco, a 769 quilômetros de Recife. O pai explica a Júnior sobre o vazamento do tema sem contar como soube da informação.

 

O estudante Eduardo Ferreira Affonso Júnior soube pelos pais de tema de apoio à redação do Enem

 

O relógio marcava por volta de 11h quando Júnior pediu ajuda a professores do cursinho Geo Petrolina Pré-Vestibular para desenvolver a redação caso fosse sobre trabalho e escravidão. Ele disse aos docentes que o tema havia vazado em São Raimundo Nonato (PI) e ele havia sido informado. O boato se espalhou e outros candidatos recorreram aos professores de português Marcos Freire, Ramón Bandeira e Diego Alcântara.

 

Depois da prova, os professores deram entrevista a emissoras de rádio e televisão locais informando sobre a possibilidade de vazamento. A PF instaurou inquérito e, após dez dias de investigação, concluiu pela culpa do casal Marenilde e Eduardo. Eles foram indiciados por violação de sigilo funcional e podem ser punidos com 6 anos de prisão. O filho teve a prova cancelada pelo MEC.

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