PF prende quadrilha que fraudava vestibulares de Medicina

Segundo investigação, 15 pessoas participavam do esquema em cinco Estados

Chico Siqueira, Especial para o Estado

13 Março 2012 | 14h36

ARAÇATUBA - A Polícia Federal prendeu nesta terça-feira 15 pessoas acusadas de fazer parte de uma quadrilha que há mais de dez anos fraudava vestibulares de Medicina de faculdades privadas. A PF identificou que neste período a quadrilha atuou em pelo menos 13 vestibulares, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Piauí e Goiás. A PF não revelou nome dos acusados e nem das escolas, mas garantiu que elas são particulares e que não se comprovou a participação de nenhum funcionário dessas escolas nas fraudes. No entanto, a PF tem nomes de ‘dezenas’ de estudantes e pais que pagaram R$ 60 mil para a quadrilha ‘aprovar’ seus filhos nos vestibulares e que agora deverão responder por estelionato.

As investigações foram comandadas pela Polícia Federal de Araraquara, no interior de São Paulo, de onde partiu a denúncia --de uma faculdade de medicina da região--, revelando a existência da quadrilha, há cerca de quatro meses. As prisões foram feitas na Bahia, Tocantins, Pará, São Paulo, Goiás e Rio Grande do Sul. De acordo com o delegado Nelson Edilberto Cerqueira, da PF de Araraquara, a quadrilha era liderada por um médico de Goiânia, dono de um hotel na Bahia, cujo nome não foi divulgado. Durante a operação, denominada Arcano, foram apreendidos computadores, documentos, agendas, equipamentos eletrônicos e dois revólveres --um deles devolvido ao dono que comprovou a posse da arma.

Segundo o delegado Cerqueira, o grupo – que cobrava R$ 60 mil de cada aluno que passava nos vestibulares-- atuou por 10 anos, aprovando dezenas de alunos por ano. “Este número ainda estamos levantando, mas com certeza são muito mais de 20”, disse. Os acusados deverão responder por formação de quadrilha e estelionato. Segundo ele, o próximo passo da PF agora será levantar informações contidas em computadores e outros materiais apreendidos na operação. Com eles, a PF espera identificar os estudantes e os pais que pagaram a quadrilha. Eles também deverão ser processados por estelionato.

De acordo com o delegado, como os acusados colaboraram com a Polícia Federal e as investigações devem demorar mais que os 10 dias de prazo da prisão temporária, a PF optou por liberá-los após os depoimentos.

Células da quadrilha

Os estudantes respondiam as provas por meio de respostas recebidas em pontos eletrônicos. As respostas eram repassadas por alunos especialistas, que faziam as provas de suas áreas e saíam antes do horário limite. O resultado das questões era enviado para uma central, em Goiânia, de onde eram repassadas aos pontos dos vestibulandos.

Para isso, a quadrilha funcionava por meio de cinco células: a) corretores, b) treinadores, c) pilotos,  d) assistentes e e) coordenador.

a) A célula dos corretores era formada por alunos de cursinhos pré-vestibulares que selecionavam os estudantes e pais interessados em pagar R$ 60 mil para passar nos vestibulares de faculdades particulares. Mas o dinheiro só era pago depois, em caso de aprovação do estudante.

b) “Uma vez cooptados, os estudantes passavam pelos treinadores, que formavam o segundo grupo da quadrilha”, explicou Cerqueira. Os ‘treinadores’ eram profissionais que ensinavam os vestibulandos como usar os pontos eletrônicos. “Eles ensinavam como usar os pontos sem chamar atenção, como disfarçar e até faziam treinamento às vésperas do vestibular, simulando o ambiente da prova”, contou Cerqueira.

c) No dia da prova, entravam em ação os pilotos, que eram professores de cursinho ou estudantes, especialistas em determinadas matérias e respondiam somente as questões de suas áreas.  “Cada piloto respondia às questões de sua área e deixava a sala antes do horário limite para dar tempo de enviar as respostas a outra célula da quadrilha, a dos assistentes”, contou. Cada piloto respondia uma parte específica.

d) Os pilotos repassavam as respostas para a célula dos assistentes, que eram pessoas preparadas para enviar os dados a uma central, em Goiânia, do coordenador, o líder da quadrilha. Dessa central, o coordenador montava os gabaritos e os enviava com para os assistentes, que por sua vez, repassava as respostas para os pontos eletrônicos dos vestibulandos. “Os gabaritos nunca eram feitos com 100% de acertos para não chamar a atenção”, disse Cerqueira.

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