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PF detém candidatos com gabarito e tema da Redação antes do Enem

No Ceará, secretário tinha ponto eletrônico e texto pronto. No Amapá, concorrente admite acesso prévio

O Estado de S. Paulo

07 Novembro 2016 | 15h59
Atualizado 07 Novembro 2016 | 22h04

A Polícia Federal já tem indícios de que candidatos acusados de tentar fraudar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no fim de semana tiveram acesso antecipado a gabaritos e ao tema da redação. Esse fato, aliado a coincidências com o tema de uma prova falsa vazada na web em 2015, já motivam o pedido de anulação da redação. O Ministério da Educação nega qualquer vazamento.

O secretário da Saúde de Alto Santo, Antônio Diego Lima Rodrigues, de 34 anos, foi preso em flagrante com ponto eletrônico em Fortaleza e levava no bolso da calça um texto pronto sobre o tema da redação. A delegada da Polícia Federal Fernanda Coutinho contou que Rodrigues recebeu uma mensagem com o gabarito da prova por volta das 11h30. Agentes da PF o retiraram da sala de aplicação e o detector de metais acusou o dispositivo eletrônico. Ele será enquadrado por crime contra a fé pública e associação criminosa.

A prefeitura de Alto Santo, cidade de 16,3 mil habitantes, na região do Baixo Jaguaribe, publicou nota informando sobre a prisão do secretário e seu afastamento. Rodrigues é enfermeiro e tentava pontuar para ingressar no curso de Medicina.

No mesmo Estado, um candidato em Cedro foi flagrado com dispositivo eletrônico. Em Independência, uma candidata tinha um segundo aparelho celular na bolsa e ali estava o gabarito das provas de domingo (Linguagens e Matemática). Já em Juazeiro do Norte outra concorrente tinha o gabarito escrito na roupa. Os três vão responder por fraude, estelionato e uso de documento falso e integrariam um mesmo grupo que buscava burlar a segurança do exame. Do mesmo esquema, em Santarém (PA), uma suspeita foi detida com anotações que condiziam com algumas questões da prova. Todos se tornaram alvo da Operação Jogo Limpo.

As investigações da Jogo Limpo começaram no Maranhão e envolveram apurações em Piauí, Ceará, Paraíba, Tocantins, Amapá e Pará. De acordo com a Superintendência da Polícia Federal em São Luís, 22 suspeitos de participar do grupo criminoso já estavam sendo investigados desde o ano de 2015. 

A PF fez o cruzamento de dados e encontrou respostas idênticas deles na edição do ano passado. Os mesmos concorrentes se inscreveram na edição deste ano e teriam recebido de forma antecipada o gabarito das provas. 

Amapá. Em Macapá (AP), um homem de 31 anos também foi preso pela Polícia Federal por fraude. Para chegar a ele, policiais federais se passaram por aplicadores de prova. Quando o suspeito deixou a sala, na Faculdade Estácio, os policiais federais encontraram em um de seus bolsos um texto com o tema da redação. O homem confessou que foi fazer a prova já sabendo o tema, passado por uma amiga. 

O concorrente pagou fiança e foi liberado para responder em liberdade por fraude em certame de interesse público. A pena varia de 1 a 4 anos de prisão.

Sobre as operações contra fraudes no Enem, na noite desta segunda-feira, 7, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e a Polícia Federal informaram que "as operação deflagradas ontem (6/11) são reflexo da ação conjunta entre as instituições, que trabalham em parceria para garantir a segurança e a lisura do certame".

A nota diz ainda que "os casos identificados, que estão sob investigação, delimitarão a responsabilidade dos envolvidos". O Inep e a PF reiteraram o "empenho para apurar os fatos, garantindo que não haja prejuízo aos participantes do ENEM 2016". 

Coincidência. Outra questão que levou até a questionamentos judiciais nesta segunda foi o fato de o tema da redação - “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil” - ser o mesmo que aparece em uma imagem divulgada no ano passado pelo Ministério da Educação (MEC) ao desmentir um boato de vazamento. As informações contidas na proposta da redação são parecidas com as da imagem do ano passado.

Em nota, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela prova, afirmou que “o gráfico que apoia o desenvolvimento da redação é baseado em estudo de domínio público e o gráfico da prova falsa divulgada às vésperas do Enem de 2015 é baseado no mesmo estudo, mas ‘tem recorte diferente’”. Para o Inep, há “coincidência”. / JOSÉ MARIA TOMAZELA e CARMEN POMPEU, ALCINÉA CAVALCANTE e DIEGO EMIR, ESPECIAIS PARA O ESTADO

 

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