Pessoas com deficiência enfrentam forte calor para fazer Enem em RS

Dificuldades não desanimaram candidatos na capital gaúcha; duração do segundo dia de provas é maior

Lucas Azevedo, Especial para o Estado

09 Novembro 2014 | 13h49

PORTO ALEGRE - O sol forte e a temperatura próxima aos 30 graus, aliados a duas provas extensas e cansativas e a necessidade de depender do transporte público, não são impeditivos para realizar sonhos. Ao menos para dois candidatos que fazem o segundo e último dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo, 9, na Faculdade Porto-Alegrense (Fapa), na capital gaúcha.

Se valendo de uma cadeira de rodas motorizada, Juliana do Nascimento, 21 anos, vence as ladeiras do câmpus, onde milhares de candidatos realizam o exame. Cadeirante desde a infância, Juliana deve encerrar o colégio apenas no próximo ano, mas espera, com encurtar este tempo com uma boa nota no Enem.

"Pela minha idade e se eu for bem no exame, quero tentar encerrar os estudos com esta prova. E depois partir para uma faculdade de Direito, que é o meu sonho", conta a secretária de um centro social na zona norte de Porto Alegre. Juliana não encontrou maiores dificuldades nas provas de sábado. Mas adverte: "Pela minha experiência, tem que prestar atenção nas aulas. Se for só estudar em casa, não dá." Apesar dos ônibus lotados, ela não passou por problemas para acessar o local de prova. "Tem acessibilidade. Está sendo muito tranquilo de entrar na sala de aula."

Superação. No mesmo prédio em que Juliana faz a prova, Paulo Casagrande, 49, procura sua sala. Funcionário publico, ele realiza seu terceiro Enem. Suas notas vêm subindo gradativamente, mas um outro detalhe impediu que ele realizasse seu sonho. "No ano passado, consegui uma vaga na faculdade de Fisioterapia, mas por 16 reais não obtive bolsa de estudos", comenta. Sua renda familiar ultrapassou em poucos reais o limite para o benefício integral. Mas isso não desanima o estudante, que caminha com dificuldade.

Há 28 anos, recém chegado a Porto Alegre vindo do interior do Estado, Casagrande levou cinco tiros em uma abordagem criminosa. Graças ao reflexo, uma das balas que estava endereçada ao coração foi parada pelo seu braço esquerdo. Porem, outro projétil atravessou seu abdome, atingindo a coluna.

"Fiquei 45 dias sem mexer nada. Depois de muita fisioterapia, meus movimentos foram voltando, e um ano e dois meses depois, consegui ficar em pé novamente. Mas ainda não terminou. Olha como essa perna é mais fina que a outra", conta, mostrando a coxa esquerda atrofiada.

Casagrande virou um defensor do sistema de cotas. "Fiquei praticamente dez anos parado sem poder sair de casa, passando um tempão sem acompanhar os estudos. Agora com a internet é mais fácil, mas mesmo assim é muito complicado para quem precisa de cuidados", revela. Ele virou funcionário público ao ser aprovado em um concurso utilizando as vagas às pessoas com deficiência.

Cursando atualmente uma faculdade privada de Gestão em Recursos Humanos, ele pretende conquistar uma bolsa integral para acabar o curso. E, mais tarde, fazer a faculdade de Fisioterapia. "Fiz cinco anos de fisioterapia intensa, quando aprendi a gostar da profissão. Além do mais, quero retribuir tudo o que fizeram por mim."

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