Pesquisador vê educação como jardim de infância tecnológico

Se crianças na pré-escola têm espaço para construir brinquedos e ferramentas criativas que lhes permitem pensar, testar e aprender, por que estudantes mais velhos devem virar ouvintes inanimados numa sala de aula onde o professor os enche de dados e teorias? O norte-americano Mitchel Resnick aprofundou-se nesta questão e suas conclusões estão evidentes já no nome do grupo que ele coordena, o Lifelong Kindergarten (algo como ?jardim da infância para toda a vida?), que realiza pesquisas sobre aprendizagem, no Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT).Para Resnick, um físico com PhD em ciências da computação, é necessário desenvolver novos materiais para que as crianças possam crescer construindo soluções criativas que envolvam as várias áreas do conhecimento. Estes novos materiais podem ser ?brinquedos? mais complexos, como pequenos robôs e engenhocas a serem montados e programados pelas crianças. ?E o computador pode ser uma nova ferramenta para este aprendizado?, disse ele em São Paulo, onde esteve pela primeira vez, na semana passada.Resnick cita o caso de um adolescente indiano que, ao participar de atividades do Computer Clubhouse ? programa do Media Lab ? em sua cidade, brincava com um microscópio acoplado a um computador, que permitia observar imagens das amostras na tela do monitor. ?Por curiosidade, o garoto trouxe uma gota de água de sua casa para ver no microscópio, e ficou horrorizado?, conta Resnick. Começou a fazer uma pesquisa sobre a origem da água em seu bairro, as péssimas condições de higiene na fonte, a forma como as famílias a usavam, a incidência de doenças etc.Impacto na compreensãoO estudante indiano fez uso de conteúdos de várias disciplinas da escola para compreender um problema de sua comunidade e, ao fim do processo, liderar uma campanha para que as famílias começassem a ferver a água antes de beber. ?Assim, integram-se atividades estanques, com maior impacto na compreensão.?Da mesma forma, Resnick lembra crianças que desenvolveram soluções para questões menos ?vitais?, como a garota norte-americana que criou um sistema para impedir o irmãozinho de xeretar seu diário, com uma câmera fotográfica acoplada à capa para flagrar o bisbilhoteiro toda vez que ele a abrisse. ?A tecnologia tem de ser dada às crianças e jovens de modo que faça sentido para eles?, diz o pesquisador. ?E o mais importante é que eles podem mudar os sistemas que criam.?Sociedade criativaO trabalho de Resnick leva em conta que a sociedade humana atual é muito mais do que uma ?sociedade da informação?, pois é preciso saber dar uso à informação. ?O conceito evoluiu para o de ?sociedade do conhecimento?, e estamos agora buscando uma evolução para a ?sociedade criativa??, afirma o pesquisador. ?As pessoas precisam continuar aprendendo por toda a vida, e dando soluções criativas para seus problemas e necessidades.?A tecnologia ajuda neste sentido, porque permite simulações e construções simples no processo de aprendizado. Para Resnick, o sistema educacional predominante resiste a mudanças e, como tal, põe barreiras às novas dinâmicas propostas para o espaço escolar. ?Estamos falando em difundir novas idéias sobre o aprendizado, e isso é difícil, mas é importante reparar que a tecnologia ajuda na difusão destas idéias?, avalia. Ele prevê que as mudanças serão lentas, mas que ocorrerão com maior facilidade ao longo das próximas gerações. ?As crianças de hoje é que estarão melhor preparadas para as mudanças sistêmicas.?Novos instrumentosEm tempos de programas de ?inclusão digital massiva?, cientistas como Mitchel Resnick são importantes fontes para revelar resultados da aplicação de novas tecnologias na educação. O coordenador do Lifelong Kindergarten é professor de Pesquisa sobre o Aprendizado no MIT e vem trabalhando há pelo menos dez anos nesta área. Implementou projetos como o Programmable Bricks, em que as crianças usam blocos contendo dispositivos eletrônicos programáveis, e é co-fundador do programa Computer Clubhouses, que disponibiliza novas tecnologias em lugares acessíveis à população. Resnick falou ao Estado, com exclusividade:Estado ? Pode-se melhorar e ampliar o aprendizado usando-se música, esportes, laboratórios de ciências ou simplesmente observando um bosque. Novas tecnologias e o computador fazem realmente alguma diferença? Quando e onde o computador seria fundamental para se aprender mais e melhor?Mitchel Resnick - Temos constatado, com pesquisas ao longo dos anos, que muitas experiências de aprendizado estão ligadas à invenção de coisas, ao ato de projetar e criar coisas. Claro que podemos criar sem computadores. Você pode usar blocos de madeira e construir uma torre. Quando faz isso, você aprende o que faz as coisas ficarem de pé, o que faz as coisas caírem. Pode misturar tintas e aprender alguma coisa sobre cores. Com os computadores, ampliamos a extensão do que podemos aprender. Com os blocos, podemos aprender sobre forma, tamanho e estrutura, e com os computadores podemos aprender mais sobre a interação com o mundo dinâmico, sobre coisas que crescem, se envolvem e se comunicam. Devemos focar o uso de computadores no aprendizado através de projetos e criação, porque sabemos que esta é a maneira pela qual as pessoas aprendem melhor. Os computadores permitem projetar e criar mais coisas, não apenas torres mas animações, simulações e instruções robóticas.Estado - Quando falamos em novas tecnologias, falamos necessariamente em custos e investimentos elevados. Isso não torna muito difícil pensar em tecnologia na educação?Resnick ? Uma das vantagens da tecnologia digital é que seu custo está caindo continuamente. É verdade que estas tecnologias hoje são caras em sua maioria, mas custam menos do que custavam anos atrás e devem ficar ainda mais baratas no futuro. Acredito seriamente que elas serão acessíveis a mais e mais pessoas. Mas acho que haverá outro grande problema: muitas das pessoas que têm acesso às novas tecnologias as usam apenas para jogar games. Nada contra jogar games, mas queremos promover experiências de aprendizado... Penso em como ajudar as pessoas a aprender usando tecnologias de forma criativa e produtiva.Estado ? Implementar suas propostas significa promover uma mudança razoável nos sistemas educacionais, e isso certamente desperta resistências. Como o Sr. está enfrentando estas resistências?Resnick ? Uma das abordagens com que trabalhamos é: o quanto podemos mostrar, com bons exemplos, que a tecnologia pode fazer grande diferença. Em programas ligados a escolas, como os de atividades pós-aulas, procuramos mostrar como isso muda a vida dos estudantes e seu modo de pensar, e esperamos convencer os outros. Mas há muitas fontes de resistências, e por isso não há uma resposta simples sobre como superá-las. Temos grandes desafios. Ainda temos de ajudar as pessoas a ter um melhor entendimento sobre aprendizado e educação ?não apenas sobre tecnologia -, e mudar a forma como muitos pensam sobre aprendizado e educação. Diferentes pessoas têm imagens diferentes sobre o que é aprendizado e sobre como deveria ser a educação. Tentamos ajudar a estabelecer novas formas de pensar, e isso tem de ser feito de diversas maneiras diferentes. Trabalhamos com tecnologia onde professores estão sendo treinados, e enquanto são treinados eles podem ir tendo novas idéias sobre educação...Estado ? Seu esforço para difundir novas idéias e tecnologias nas escolas pode ser visto com um esforço para difundir produtos de determinadas companhias. O Sr. não teme isso?Resnick ? Algumas vezes isso acontece, certamente. Algumas pessoas estão apenas tentando empurrar produtos. E isso não ocorre só com quem produz tecnologia e computadores: as editoras de livros também estão tentando empurrar produtos. O que temos de saber, com segurança, é se a tecnologia poderá ser usada por razões corretas, se ela pode trazer mudanças reais... Mas não é uma questão que tenha uma resposta simples... Porque diferentes pessoas podem sugerir novas tecnologias por razões diferentes, e algumas delas devem ter em mente razões simplesmente comerciais. Mas muitos querem trazer mudanças à educação. Temos de olhar e entender quais delas podem fazer grande diferença na vida das crianças. Acho que muitos produtos tecnológicos oferecidos trazem poucas possibilidades de mudança nos modos tradicionais de fazer as coisas. Temos sempre de saber como a uma tecnologia pode nos ajudar a ter mais capacidade do que tínhamos antes, como ela pode dar mais poder a quem aprende, para que este possa escolher novas tecnologias no futuro... Nos Estados Unidos, cada vez mais pais têm computadores em casa, e a maioria não sabe muita coisa sobre softwares, sobre formas de ensinar... Não ajuda muito se apenas dermos a eles o nome de um produto específico, porque os produtos podem mudar de um ano para outro... Um conselho que costumo dar é: escolha um produto que dê a seu filho a oportunidade de explorar e se expressar.

Agencia Estado,

07 de abril de 2003 | 18h48

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