Peru, champanhe e um monte de livros

Nada de dormir só quando o dia clarear, tomar champanhe demais ou se fartar de comer peru. Para a maioria dos 27.800 vestibulandos que passou para a segunda fase da Fuvest, com início em 5 de janeiro, Natal e Ano-novo serão comemorados com moderação, ao lado de apostilas e cadernos. As festas vão dar lugar ao estudo - mas ninguém reclama. Débora Ferrite, de 18 anos, que disputa uma vaga no curso de relações internacionais, vai passar o fim de ano no interior. Na sua mala, além de vestidos e biquínis, há lugar para os livros e resumos. Ela garante que só vai parar de estudar na hora das ceias. "Não vou dar trégua nem no dia 25 nem no dia 1.º Essa é minha chance e prefiro perder as festas a ter de passar mais um ano fazendo cursinho." Ela conta que é preciso concentração e força de vontade para não ceder à tentação de participar das comemorações. "Fica todo mundo na maior agitação, a família se reúne e tudo é motivo para bagunça. Mas vou resistir e me trancar com as apostilas no quarto mais silencioso." Débora explica que tanto desespero é por causa da sua pontuação na primeira fase. "A nota de corte foi 68 e eu fiz 69. Passei em cima e tenho de recuperar o prejuízo." Organizada, ela dividiu as matérias que caem na segunda fase e estuda uma por semana. "Também já fiz as contas e sei que tenho de acertar 25 questões na prova de história (que tem 40), 25 na de geografia (também com 40) e 50 na de português (que conta com 80)", diz. "Estou me matando de estudar. Acordo às 9h e fico até as 20h, parando só para as refeições. Nas festas, também não vou abusar. Sempre aproveito muito, mas neste ano vou dar uma de chata e dormir cedo." Ter um Natal e um Réveillon "light" também será a tática de Camila Mathias dos Santos, de 18 anos, candidata ao curso de farmácia. Todos os anos, sua família costuma passar o fim do ano no nordeste. Mas, desta vez, todos ficarão "de castigo" em São Paulo porque Camila estará estudando. "Vamos passar as festas em casa. Mas, como minha família está me apoiando muito, ninguém reclama", conta. "Estou estudando tudo o que posso para conseguir entrar na USP e sei que não poderei curtir direito o fim do ano. Espero que o esforço compense." Tentando uma vaga em medicina, Danielle Cesconetto, de 16 anos, também ficará estudando. Mas ela promete se presentear com três dias de descanso no Ano-novo, quando irá para a praia. "Passarei o Natal em São Paulo e vou tentar me concentrar nas apostilas", diz. "Como a minha casa fica uma confusão nessa época, vou para o cursinho." Na bagagem para a praia, ela garante que não levará nenhum livro nem resumo. "Vou tentar relaxar um pouco, recarregar as energias e voltar pronta para encarar a prova", conta. "Mas queria mesmo que meu presente de Natal fosse passar na Fuvest." Este também é o pedido de Maximiliano Bortolace, de 18 anos, vestibulando de administração. "Uma vaga na USP seria a melhor notícia deste fim de ano", afirma. "Já estudei tanto que nem vou levar os livros para as festas." No Natal, ele irá para o Rio de Janeiro. No Réveillon, para o litoral paulista com os amigos. "Não vou carregar nenhuma apostila porque levei no ano passado e não deu certo", afirma. "Vou aproveitar esses dias para descansar e tentar esquecer que tem prova. Só não irei exagerar nas comemorações." Esse é o comportamento correto, segundo o diretor-pedagógico do cursinho Stockler, Agostinho Marques Filho. "Sugerimos que nossos alunos dêem uma parada nesta época porque são raros os que conseguem manter a concentração", afirma. "O clima nas casas está agitado, as famílias viajam e fica difícil estudar direito." O conselho do diretor é que os vestibulandos aproveitem esses dias para dormir bem, ir ao cinema, ler revistas e que, no máximo, revejam os resumos das obras literárias. "Agora não adianta mais se enfiar em fórmulas e apostilas. Mas também não é para abusar nas festas", alerta. "O ideal é aproveitar com moderação para não chegar acabado nas provas." Ter bom senso também é a orientação do diretor do Etapa, Carlos Eduardo Bindi. "Não adianta se trancar no quarto e tentar ignorar as festas de fim de ano", afirma. "Nesta etapa, o carinho da família ajuda e o vestibulando não pode se afastar das pessoas queridas." O ideal, afirma Caio Sérgio Calçada, um dos coordenadores do Objetivo, é que os estudantes aproveitem as comemorações sem se esquecer que têm uma maratona de exames pela frente: "Beber demais, comer em excesso ou passar noites em claro só atrapalham.Mas é preciso lembrar que nem todo mundo é igual. Sempre tem os que não se acalmam se não estiverem com o livro aberto. Para esses, não tem jeito: o conselho é para que estudem. A dedicação não vai fazer mal."

Agencia Estado,

23 de dezembro de 2002 | 16h42

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.