Rafayane Carvalho
 'É como se a população tivesse a mesma oportunidade que os nobres tinham no passado, e alguns ainda têm, de ter tutores para seus filhos', compara Marcelo Succi Rafayane Carvalho

Personalização do ensino exigirá Inteligência Artificial

Para a Unesco, IA poderá acompanhar a progressão dos alunos, seja em atividades individuais ou em grupo

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

01 de abril de 2022 | 15h00

Um curso literalmente para chamar de seu: considera interesses, gostos, dificuldades e até estado de ânimo para que você aprenda da forma mais confortável e efetiva possível. "É como se a população tivesse a mesma oportunidade que os nobres tinham no passado, e alguns ainda têm, de ter tutores para seus filhos", compara Marcelo Succi, professor de novas tecnologias nos cursos de Engenharia, Administração e Design na FAAP.

Succi se refere à aprendizagem personalizada, vitrine do uso de IA na educação. No documento "Inteligência artificial na educação: mudanças e oportunidades para um desenvolvimento sustentável", a Unesco menciona dois campos nos quais a inteligência artificial pode dar contribuições significativas: a personalização da aprendizagem e sistemas de gestão escolar. No primeiro segmento, a inteligência artificial poderá acompanhar a progressão dos alunos, seja em atividades individuais ou em grupo. As ações podem ser monitoradas, com detecções de falhas de aprendizado e até a percepção do estado de ânimo dos estudantes.

Com o aprendizado de máquina resultante dos dados produzidos pelos estudantes, a inteligência artificial poderá auxiliar em diagnósticos precisos e indicar as trilhas de aprendizagem mais afins a cada estudante, desde a educação infantil até a pós-graduação.

Para os professores, a tecnologia pode assumir o papel de assistente virtual, ao gerar relatórios sobre a progressão das turmas ou responder dúvidas que se repetem com frequência, o que libera tempo para o educador dedicar mais à tutoria dos estudantes.

"Poderemos ter um feedback imediato, que afere melhor a aprendizagem em relação às avaliações periódicas – essas provocam uma ansiedade que muitas vezes atrapalha o resultado. Também se vislumbram cursos sem testes ou provas formais, de forma que o estudante nem perceba que está sendo avaliado", explica Succi.

Já nos sistemas de gestão escolar, a inteligência artificial poderá, entre outras coisas, automatizar a produção de relatórios e sugerir insights e abordagens sobre assuntos como evasão escolar e atualização curricular. Mas é preciso atuar com responsabilidade e compromisso social. Por mais promissores que sejam os avanços tecnológicos, não se pode esquecer que o atual sistema educacional é fincado na desigualdade. A implementação das novas ferramentas deve partir da premissa de buscar a equidade e não ampliar o fosso.

Nesse contexto, o próprio relatório da Unesco cita seis medidas fundamentais, que seriam: políticas públicas abrangentes para o desenvolvimento sustentável; inclusão e equidade na educação; preparação dos educadores e sistemas que atendam às demandas educacionais; desenvolvimento de sistemas de dados inclusivos; pesquisas significativas sobre IA em educação; e ética e transparência na obtenção, aplicação e divulgação de dados.

Na mira dos grandes

Ações para promover a inteligência artificial e o futuro tecnológico na educação estão na pauta também de gigantes na área da tecnologia.  A Amazon Web Services – AWS, plataforma de serviços de computação em nuvem ligada à Amazon, já fornece soluções como gestão de dados para edtechs e grupos educacionais como Ânima e Cogna. Atualmente, a empresa oferece programas de capacitação voltados a iniciativas de ensino digital. 

Dentre os projetos, há o AWS EdStart, aceleradora de startups de tecnologia educacional que visa a ajudar empreendedores a construir a próxima geração de soluções de aprendizado online, análise e gerenciamento de câmpus em nuvem. A proposta inclui treinamento técnico e suporte, além de acesso a uma comunidade global de especialistas em EdTech. "Além de inteligência artificial, recursos como analytics, segurança cibernética, cloud computing são exemplos nos quais profissionais dos mais diversos campos deverão estar alinhados", comenta Paulo Cunha, diretor geral para o Setor Público da Amazon Web Services (AWS) no Brasil.

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'Eu, robô e assistente de professor'

Na volta da pandemia, a Unicamp comprou robôs educacionais para trabalhar salas em tempo real; e os exemplos (e simuladores) vêm crescendo, sobretudo na Medicina

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

31 de março de 2022 | 15h00

Com o avanço tecnológico, um novo personagem tem conquistado o papel de ator coadjuvante no processo de ensinar. São os chamados robôs educacionais. A versatilidade chama a atenção, com usos que variam da transmissão da aula para quem assiste de forma remota ao de facilitadores das atividades práticas realizadas pelos universitários. 

A Faculdade São Leopoldo Mandic utiliza dois robôs nas aulas de medicina para simular atendimentos clínicos relacionados à obstetrícia. Trata-se dos modelos SimMom, a "robô grávida", e o New B, o "robô bebê". 

A SimMom simula as atividades uterina e fetal, contrações, permite a indução do trabalho de parto e a supervisão de possíveis complicações que podem ocorrer no momento do nascimento de uma criança.  O NewB permite o treino dos primeiros atendimentos ao recém-nascido. É possível controlar a frequência respiratória, a expansão torácica, fluídos como o sangue, líquido amniótico e urina, bem como as funções cardíacas, medição de pressão sanguínea e funções das vias aéreas.

"O treinamento com simulações favorece a formação pedagógica e garante mais segurança a quem for atendido por esse médico, seja durante o período de aprendizado, seja no futuro", afirma Kátia Piton Serra, coordenadora do internato e residência médica na área de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade São Leopoldo Mandic, que oferece o curso de Medicina na unidade localizada em Campinas.

As reações dos robôs, como se fossem pacientes reais, permitem verificar os erros e os acertos dos alunos. Com apoio da equipe técnica, os professores podem programar os autômatos para desempenhar quadros clínicos específicos, criando situações que exigem o trabalho em equipe ou momentos propositalmente tensos e estressantes. O objetivo é ajudar o futuro profissional a desenvolver as competências socioemocionais necessárias para atuar no campo da Medicina. 

"Antigamente, o aprendizado se dava diretamente com os pacientes, o que era muito angustiante para os alunos e para a própria pessoa atendida. O grande passo que demos com os robôs é ajudar os alunos a se ambientarem ao mesmo tempo que promovemos uma formação mais sólida em aspectos técnicos, socioemocionais e até mesmo éticos", conclui a coordenadora.

Aproximação virtual

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), 220 robôs educacionais foram adquiridos para auxiliar os professores nas salas mais numerosas. São os equipamentos de transmissão inteligente – ETI's, que funcionam como um estúdio de transmissão portátil. São compostos por uma câmera, microfones e um monitor, acoplados a um pedestal móvel.

Para melhorar a experiência das aulas, os robôs contam com recursos como a captação das vozes restrita ao espaço da sala, evitando a interferência de ruídos externos e outros sons distrativos. Sua câmera realiza rastreamento automático, permitindo que o professor não se preocupe em se manter em uma posição pré-definida. 

Um dos usos dos robôs é em projeções das aulas em salas gêmeas – espaços utilizados para diminuir a aglomeração nas salas principais, e que comportam 30% dos integrantes da turma. A qualidade dos equipamentos tem possibilitado com que esses sejam aproveitados em outras demandas da Unicamp, como em bancas de mestrado e doutorado, com a possibilidade de participação de membros externos, e em reuniões de trabalho com grupos de pesquisa cujos membros estão em universidades diferentes.

"O uso dos ETI’s garante a presença de docentes e discentes na universidade, além da aproximação virtual de colaboradores que, de outro modo, não estariam presentes" explica Roberto Donato da Silva Junior, assessor docente do gabinete da reitoria da Unicamp.

Seja como assistente do professor, seja "incorporando" um participante de banca de mestrado não presente fisicamente, os robôs educacionais já garantiram matrícula antecipada nessa volta às aulas pós-pandemia.

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Faculdades já testam o formato híbrido que ficará no pós-pandemia

Webinar e lives entraram de vez no cronograma do ensino superior; e até o processo de seleção se manterá virtual em muitas instituições

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

31 de março de 2022 | 15h00

Após tantas expectativas, o "novo normal" finalmente chegou. Para as instituições de ensino superior, significa o retorno dos estudantes e professores às salas de aula quase como era antes da pandemia. Além das máscaras, a metodologia também é um diferencial. Ferramentas utilizadas durante o período de isolamento que mostraram resultados positivos foram inseridas na formatação dos cursos de graduação e pós-graduação.

No Insper, algumas disciplinas eletivas serão mantidas no formato virtual. "Em diversas eletivas, ficou mais fácil ter professores intercambistas com as aulas a distância. Com o novo formato, pudemos aumentar a variedade de especialistas, abrindo o leque de países e instituições" explica o diretor de graduação da instituição, Guilherme Martins. "Quando a pandemia chegou, tudo se tornou online, não houve critério de escolha. Porém, tentando ver agora pela ótica do copo meio cheio, tiramos conclusões sobre o que funcionou." 

Além das aulas eletivas, palestras e encontros com ex-alunos influentes no mercado também acontecerão de forma remota. O webinar, formato de seminário online que virou moda na pandemia, também entra de vez no calendário acadêmico. A porta de entrada ao Insper também foi modificada: os vestibulares terão uma versão digital na qual os alunos farão as provas em computadores da instituição.  

Entram na conta também ferramentas que não apenas possibilitam a transposição do presencial ao virtual, mas cuja eficácia é realmente atrelada ao modo remoto, como as que envolvem simulação computacional de ambientes como uma empresa ou uma cadeia de suprimentos. Importante lembrar, diz Martins, que essas atividades oferecem ainda a formação para situações que os alunos devem encontrar em um mercado no qual o home office ganha força. "Ao executar a distância um projeto em grupo, o estudante aprende a como trabalhar remotamente. Ele ganha esse skill, se torna mais preparado para lidar com uma tendência das empresas."

No campo dos cursos de especialização, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) ofereceu, durante a pandemia, treinamento para que os professores soubessem conduzir as famosas lives, que ficaram gravadas para consulta posterior. O formato foi tão bem aceito pelos estudantes que continuará em cursos de MBA, Especialização e de curta e média duração.

"Temos uma parcela dos alunos que não quer voltar ao presencial. Assim, adaptamos nossas salas de aula para o formato híbrido e aumentamos a oferta de opções de aulas e cursos remotos", comenta Paulo Lemos, diretor de Educação Executiva da FGV.

"Adaptamos os materiais para ficarem mais dinâmicos, temos professores tutores que se encontram via aplicativos de comunicação com os alunos. Inclusive tivemos um aumento no número de alunos com as atividades remotas durante a pandemia e acreditamos que esse movimento deve continuar."

Inspirados pela pandemia

Na FGV, os desafios do trabalho remoto inspiraram a criação de duas disciplinas no MBA em Gestão Estratégica de Pessoas: Gestão de Equipes e Talentos e Storytelling. Em Gestão de Equipes e Talentos são abordados temas como gestão de equipes virtuais autogerenciáveis e em redes colaborativas. Já Storytelling trata da condução de reuniões presenciais e virtuais, marketing pessoal e relacionamento com a mídia e as redes sociais.

O campo dos cursos de pós-graduação stricto-sensu também conta com medidas implementadas na pandemia e que vieram para ficar. Na PUC-SP, as defesas de teses de doutorado e dissertações de mestrado terão a opção de membros externos das bancas avaliadoras atuarem remotamente, o que facilitará a participação de especialistas de outras instituições e estrangeiros. "Muitos especialistas não podiam vir às bancas presenciais por questões de agenda, tempo ou distância. Com a participação remota, podemos ampliar o leque de membros externos, que ajudam a dar um importante olhar externo às pesquisas", diz Márcio Alves da Fonseca, pró-reitor de pós-graduação. 

Outra decisão da PUC-SP é sobre as reuniões e atividades dos grupos e redes de pesquisa, que também não precisarão mais ocorrer exclusivamente de forma presencial.

"Há uma impressão generalizada de que a atividade de pesquisa é estritamente individual e solitária, do pesquisador com o seu objeto teórico. Na verdade, é uma atividade que se dá em rede, com pesquisadores que podem ser de outras áreas. É uma atividade colaborativa que, com as novas tecnologias digitais de comunicação, pode ser facilitada e ampliada", diz ele.

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Professores da época de lousa e giz voltam às salas de aula para aprenderem a ser digitais

Pós-graduações procuram fazer com que as novidades deixem de ser motivos de receio e sejam utilizadas como importantes suportes pedagógicos

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

31 de março de 2022 | 12h00

O lápis de cor, a cola e a tesoura ainda sobrevivem na lista de materiais da educação infantil e ensino fundamental. Mas já há novos integrantes na relação que fica cada dia mais cara: o tablet, por exemplo, já virou item de série nas escolas privadas. E é só o começo. Com o avanço das tecnologias nas escolas, logo o óculos de realidade virtual vai ter seu lugar cativo na mochila. 

Para os estudantes é uma incorporação óbvia – toda a geração matriculada na educação básica é nativa digital –, mas para professores que nasceram antes dos anos 2000 e estudaram em escolas de lousa e giz, é preciso uma corrida contra o tempo. Primeiro para se familiarizar com o recurso tecnológico, depois para aprender a ensinar com o uso daquela ferramenta. Para essa segunda missão, vale recorrer aos cursos que abordam o uso da tecnologia na educação. 

Na FAEP,  a pós-graduação em Educação e Tecnologia foi estruturada com o objetivo de fazer com que as novidades deixem de ser motivos de receio e sejam utilizadas como importantes suportes pedagógicos. Dentre os temas abordados estão os objetos digitais de aprendizagens, como videoaulas, animações e simuladores. O curso também se debruça sobre o estudo das plataformas e ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), que, apesar de servirem principalmente às atividades a distância, também dão suporte às aulas presenciais.

Os educadores também aprendem a como utilizar pedagogicamente o que muitos consideram o principal inimigo do bom andamento das aulas: o celular. "É um objeto que tanto pode funcionar como ferramenta para produção de materiais multimídia educativos, como apoio na aplicação de metodologias ativas", exemplifica Katia Cristina Marcolino, coordenadora do curso. 

Voltado a educadores das redes pública e privada, o programa desta pós-graduação contempla temas como Tecnologia da Informação e da Comunicação na Educação, Projetos Interdisciplinares, Múltiplas Competências para os Profissionais da Educação, e Cenários e Modalidade da EAD. O curso é a distância, tem 420 horas e duração mínima de 6 meses.

Já na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a especialização em Educação e Tecnologias tem como um dos eixos a melhor compreensão das particularidades da relação entre a Educação e as Tecnologias, seja na forma presencial ou a distância.

"Temos muitas possibilidades de usar a cultura digital para somar ao universo analógico. Os livros digitais, por exemplo, podem ter animações, vídeos e uma interatividade avaliativa", explica Daniel Mill, coordenador da pós-graduação."São ferramentas que permitem estratégias pedagógicas em condições expandidas ao que tínhamos anteriormente."

 Os matriculados no curso – que acontece a distância e tem 400 horas de duração – podem customizar a formação de acordo com os interesses e as necessidades. No total, são oferecidos 70 componentes curriculares para que o estudante monte o itinerário formativo. Dentre as habilitações estão docência na educação a distância, formação de professores na cultura digital, recursos de mídias na educação, jogos e gamificação na Educação, metodologias ativas de aprendizagem, e design instrucional.

Quem escolhe a habilitação "Formação de professores na cultura digital", por exemplo, vai explorar as diversas possibilidades de composição de práticas pedagógicas mediadas por tecnologias digitais, como: curadoria e organização de conteúdos e planejamento de materiais didáticos, feedback/acompanhamento dos estudantes etc.

Mill faz uma ressalva importante. Apesar de ser comum relacionar tecnologia aos aparatos mais modernos, é importante entender o próprio conceito do termo. "Tecnologia vai além da cultura digital e engloba recursos analógicos, como o que está no desenvolvimento de materiais como lápis e canetas, utilizados na escrita. Temos de ter em mente que sempre há um recurso tecnológico no processo de aprendizagem."

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Um jogo em que todos viram profissionais. A gamificação se tornou tendência até em faculdades

Além de deixar as aulas mais dinâmicas e reduzir retenções, o uso de games possibilita maior retenção dos conteúdos e desenvolvimento de criatividade, colaboração e autonomia

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

31 de março de 2022 | 10h00

Uma cena no mínimo angustiante: o estudante de Enfermagem tem a missão de aplicar a dosagem exata de um medicamento que, se incorreta, pode levar a complicações graves ou até ao óbito do paciente. Após muito refletir, o aluno define a dosagem, prepara a seringa e faz a aplicação. O resultado? Uma mensagem pipoca no computador com o aviso de que o procedimento foi correto e, com isso, ele obteve 500 pontos.

"Meus alunos adoram atividades gamificadas. São propostas que fogem da rotina e eles se dedicam bastante, ficam mais motivados para desenvolver novos aspectos de aprendizagem e habilidades diferentes", explica Sandra Hass, professora das disciplinas de Farmacologia do curso de Farmácia da Universidade Federal do Pampa – Unipampa. "As taxas de reprovação diminuíram drasticamente".

Por meio de jogos e atividades lúdicas, as metodologias de gamificação chegaram primeiramente à educação básica e agora ganham espaço no ensino superior. Em síntese, trata-se da aplicação de estratégias típicas de jogos – como desafios e competições simuladas – que trazem uma série de benefícios relacionados tanto às habilidades técnicas como às socioemocionais. Além de deixar as aulas mais dinâmicas, o uso de games possibilita maior retenção dos conteúdos e desenvolvimento de criatividade, colaboração e autonomia.

As aulas do curso de Farmácia na Unipampa contam com metodologias de gamificação desde 2016 e, além dos ganhos pedagógicos, houve um benefício ambiental: a redução do uso de testes com presença de animais. Com os simuladores dos games, os alunos aprendem sobre os efeitos dos compostos em organismos sem que os bichos tenham de ser submetidos aos experimentos. 

"Geralmente se utilizavam animais no ensino para ver a ação de um composto no sistema cardiovascular e respiratório, por exemplo. Muitos alunos até se recusavam a fazer as aulas. Na gamificação temos softwares que são capazes de demonstrar o mesmo efeito, com recursos que tornam o aprendizado ainda melhor", completa Hass.

Game nas humanas

Jogar também é coisa de quem faz cursos da área de Humanas. Na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), alunos do curso de graduação em contabilidade criam e administram empresas fictícias cujo desempenho determina as notas de avaliação acadêmica. 

As atividades acontecem na disciplina "Análise da Decisão", com alunos organizados em equipes e com exercícios práticos daquele ramo de negócios. Um exemplo foi quando a turma se dividiu na gestão de empresas do segmento de moda. 

"Os grupos criaram marcas para as empresas, podiam ser concorrentes ou parceiros, produziram vídeos institucionais e utilizaram modelos matemáticos para tomada de decisão" explica Daielly Melina Nassif Mantovani, professora da disciplina.

No percurso, os estudantes apresentavam os planos de atuação – que poderiam seguir fases como de expansão dos negócios ou, se não estavam indo bem, cronograma de recuperação dos lucros. 

Assim como ocorre com o "passar de fase" no universo dos games, a professora notou constante progressão dos alunos, resultado principalmente de um elemento determinante da gamificação: as avaliações constantes feitas por indicadores de desempenho coletivos e individuais.

"Foi essencial a estratégia de feedback rápido, profundo e personalizado. Isso permitia que cada um percebesse o que precisava melhorar e assim o investimento nos pontos de aperfeiçoamento era mais objetivo. Os jovens, já acostumados com os videogames, passam a aprender de forma mais interessante."

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Universidades da era da Inteligência Artificial, em que alunos parecem estar em 'salas de ficção'

Na realidade virtual, equipamentos como sensores de movimentos, luvas e óculos podem ser acoplados ao corpo do estudante para tornar a simulação mais verossímil e permitir a imersão em uma situação próxima da real

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

31 de março de 2022 | 10h00

Com os avanços tecnológicos, cenas típicas de filmes de ficção científica se tornaram reais em salas de aula. Recursos como realidade virtual e realidade aumentada ganham espaço em cursos de graduação da área de Saúde, com detalhes típicos de produções hi-Tech hollywoodianas. As tecnologias permitem aos estudantes ver ambientes ou objetos em três dimensões e em tempo real, com uma interação próxima à que ocorre no mundo físico. Na realidade virtual, equipamentos como sensores de movimentos, luvas e óculos podem ser acoplados ao corpo do estudante para tornar a simulação mais verossímil e permitir a imersão em uma situação próxima da real.

"Os alunos podem ter a experiência de estar em um hospital público, por exemplo, conhecendo em detalhes o ambiente e ganhando segurança antes de ter o contato com o paciente", explica Priscila Cruzatti, Gerente de Inovação e Saúde Digital do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

As Faculdades Oswaldo Cruz contam com o Centro de Inovação e Saúde Digital, que atende todos os alunos da instituição, como os da graduação em enfermagem, tecnólogos em Radiologia e os matriculados em cursos de pós-graduação. Na instituição, um tópico importante dentro da realidade virtual é a atuação em sala cirúrgica. Toda a atividade é construída tendo como base as salas cirúrgicas do hospital,  locais nos quais os alunos farão o futuro desenvolvimento das práticas. "O aluno reconhece o instrumental, como equipamentos de anestesia. Também aprimora suas decisões, escolhendo como vai montar os ambientes. Há pontuações e caso não consiga o resultado esperado, repete a experiência imersiva quantas vezes forem necessárias" explica Letícia Faria Serpa, Gerente de Educação do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Além do aprimoramento técnico, a realidade virtual também auxilia no desenvolvimento de habilidades socioemocionais. A competência de comunicação efetiva é uma delas. "Há momentos imersivos nos quais se treina a comunicação de más notícias ao paciente. Temos a possibilidade de gravar as atividades e depois debatê-las, analisando ações que poderiam ter sido feitas de outra forma e enriquecendo o aprendizado". 

Realidade Aumentada

Enquanto na realidade virtual o estudante é transportado para um outro ambiente, a realidade aumentada mescla elementos virtuais e reais com o uso de aparelhos como celulares e tablets. É como no jogo Pokemon Go, no qual os monstrinhos aparecem na tela do celular quando o usuário aponta a câmera do equipamento para certas partes da cidade. A realidade aumentada é uma das tecnologias que compõem o currículo dos alunos da Universidade do Oeste Paulista – Unoeste. A instituição possui a sala Betha, um ambiente que reúne mesas interativas, holografia, peças impressas em 3D, celulares, tablets e projetores. Recursos que possibilitam, por exemplo, acompanhar uma cirurgia em tempo real em diferentes perspectivas.

O espaço atende alunos das graduações em Biomedicina, Educação Física, Farmácia, Enfermagem, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Nutrição, Odontologia e Psicologia.

De acordo com as demandas dos professores, são preparados aplicativos específicos para cada atividade, bem como elementos podem ser gerados em impressoras 3D para

garantir precisão aos estudos. Nas aulas de Medicina, por exemplo, é possível combinar objetos impressos tridimensionais a imagens criadas em um telefone celular. Se o objeto impresso é um coração, ao direcionar a câmera do celular o órgão pode aparecer de forma animada, com o pulsar das veias e os batimentos. 

Ao mesmo tempo, uma tela touch screen apresenta infográficos que explicam o órgão em detalhes. "Alunos visitantes que experimentaram a tecnologia nos dizem que compreendem em minutos conceitos que levavam meses para entender", explica Antônio Sérgio Alves de Oliveira, designer instrucional responsável pela criação da sala Betha. 

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'Inteligência artificial já consegue inferir estado cognitivo e estilo de cada aluno'

Especialista atua na área de ciência da computação com ênfase em inteligência artificial e destaca a necessidade de uma legislação específica para a área

Entrevista com

Rosa Maria Viccari

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

01 de abril de 2022 | 15h00

Ninguém duvida que - em mais tempo ou menos tempo - a inteligência artificial vai revolucionar a educação. Mas quais desafios tecnológicos, orçamentários e éticos estão no caminho?  "Com dados, a inteligência artificial consegue inferir, com relativo sucesso, o estado cognitivo, afetivo, estilo de aprendizagem, aptidões e, também, os pontos fracos de cada aluno", explica Rosa Maria Viccari, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora da Cátedra Unesco (órgão ligado às Nações Unidas) em Tecnologias de Comunicação e Informação na Educação.

"Por outro lado, o histórico de um determinado estudante pode ser utilizado quando este for procurar vaga em uma escola ou fazer processo seletivo para um emprego. Neste contexto, a necessidade de uma legislação específica vem sendo aconselhada por diferentes pesquisadores da área." Rosa Maria Viccari atua na área de ciência da computação com ênfase em inteligência artificial aplicada à Educação, abordando temas como sistemas tutores inteligentes, sistemas multiagentes e lógica para a computação.

Com o avanço das tecnologias, é esperado um aprendizado cada vez mais personalizado. Como observa esse avanço, considerando o estágio das aplicações tecnológicas atuais?

A tecnologia apresenta bons resultados na busca de soluções para problemas delimitados, como a personalização. Com dados, a inteligência artificial consegue inferir, com relativo sucesso, o estado cognitivo, afetivo, estilo de aprendizagem, aptidões e, também, os pontos fracos de cada aluno. Esses dados permitem que sistemas avançados de ensino personalizem estratégias, conteúdos e atividades. Mas sistemas que possuem essas capacidades são ainda muito caros, requerem muito esforço de programação e treinamento. No Brasil, ainda são pouco utilizados. Podemos vê-los em ação e algumas plataformas de ensino de segundo idioma. Juntamente com a inteligência artificial, tecnologias como a Realidade Aumentada e a Realidade Virtual vêm facilitando o desenvolvimento de aplicações que não eram viáveis até então. Com essas tecnologias é possível gerar sensações de participação e possibilitar experiências antes só possíveis em laboratórios físicos, muitas vezes pouco acessíveis pelo custo. Esses sistemas conseguem obter sucesso se estiverem aptos a trabalhar um conjunto de competências e habilidades necessárias na formação dos estudantes, como autonomia, capacidade de atuar em ambientes compostos por grupos de pessoas e por sistemas automáticos inteligentes que participam em situações de tomada de decisão, capacidade de resiliência. Essas necessidades são mais difíceis de serem automatizadas do que, por exemplo, o ensino de lógica matemática.

A personalização da educação envolve coleta de dados e vemos um questionamento às grandes empresas de tecnologia, as Big Techs, que administram essas informações. Quem deve administrar tais dados e de que forma?

A inteligência artificial teve um crescimento espetacular em termos de resultados com o aprendizado de máquina, o “Machine Learning”, baseado em grande quantidade de dados. Uma grande quantidade de dados sobre uma determinada população pode auxiliar governos a traçarem políticas públicas em várias áreas, dentre elas a educação. Essas ações podem ser gerais, para um país, mas também específicas para uma determinada região. Os dados fazem a diferença para a adequação das ações. Por outro lado, o histórico de um determinado aluno, obtido por meio do uso de diferentes aplicações educacionais – como, tutores inteligentes, assistes pessoais educacionais, chatbots e plataformas – podem ser utilizados quando este for procurar vaga em uma escola, ou mesmo, fazer um processo seletivo para um emprego. Neste contexto, a necessidade de uma legislação específica vem sendo aconselhada por diferentes pesquisadores da área.

É a questão do monitoramento versus privacidade. Como você enxerga a questão da privacidade nas tecnologias educacionais?

Certamente a adaptação é feita por meio da monitoração. Logo, é preciso existir um conjunto de recomendações de boas práticas no uso das informações pessoais. Instituições como a Unesco, a Unicef e a OCDE, dentre outras, estão publicando documentos sobre o tema para orientar os países membros. Dentro desse contexto, um dos temas relevantes da pesquisa é a ética nos sistemas de inteligência artificial. Pessoalmente, considero a forma da legislação um pouco mais complexa. É difícil contemplar avanços rápidos da tecnologia bem como explicar o processo utilizado pelos algoritmos de inteligência artificial, por exemplo. Ou seja, o direito de um indivíduo saber como um algoritmo chegou a uma determinada decisão que o afeta versus o sigilo industrial da empresa que é proprietária do algoritmo. Logo, estamos frente a situações complexas, sejam elas educacionais ou não.

As tecnologias podem colaborar para a valorização da diversidade e promover a inclusão de grupos historicamente prejudicados? 

Se falarmos do ensino para pessoas portadoras de deficiência isso é viável com a tecnologia atual. Por exemplo, com os avanços da visão computacional e do processamento da linguagem natural, é possível utilizar produtos disponíveis para o reconhecimento de imagens e descrição do seu conteúdo, em tempo real. Também temos aparatos tecnológicos, frutos da computação, neurociência e engenharia eletrônica, feitos para manter a atenção dos alunos durante aulas presenciais. Porém, sistemas de reconhecimento de imagens podem apresentar viés de aprendizagem e discriminar pessoas. Penso que precisamos estar atentos a estas e a outras tecnologias e decidir o que nos serve como seres humanos.

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