Pelo fim dos 'templos do saber inalcançável'

O Estadão revelou recentemente  em reportagem baseada em uma análise do Todos Pela Educação sobre dados do Censo Escolar, que nem um terço das escolas públicas do País possui biblioteca. O rastilho de pólvora da informação correu os veios das redes sociais e colegas e amigos logos repercutiram a barbárie.

Alexandre Le Voci Sayad*,

29 Janeiro 2013 | 03h26

Eu fui um que fiquei chocado ao saber  que 85% das escolas de São Paulo não têm acervo de livros, e que no Maranhão as que têm somam pífios  6%.

O problema de dados como este são os buracos maiores que eles escondem – acreditem, a tragédia é mais complexa e, como sempre, esbarra na gestão.

O que os números ocultam é como funcionam as poucas bibliotecas que existem. Livros fechados em prateleiras são tão inúteis quanto a falta deles. Muitas das escolas que têm um acervo, não têm programas ou metodologias que estimulem a criança e o jovem a abrir um livro e iniciar um gosto pelo universo literário. Não é incomum, Brasil afora, bibliotecas fechadas a chave, com horários de funcionamento curtos; o argumento para isso beira a mediocridade.  Em minha vida de repórter cansei de escutar que os livros ficavam guardados porque os estudantes acabam por “estragá-los”.

Não diferente é, muitas vezes, a situação das salas de informática; gestores preocupados em manter os equipamentos “em ordem” limitam o seu uso.

Ora, se todas as pesquisas apontam a crise da escola pública como uma questão de apelo e sentido, ou seja, o estudante do ensino evade principalmente porque a escola não cria vínculos com ele, a multiplicação de tecnologias educativas que conectem jovens aos livros à internet deve ser prioridade. Uma questão de gestão porque tange pela enésima vez a formação dos gestores e professores das instituições públicas.

Não nego que o acesso aos livros é um primeiro passo, mas não é suficiente; as bibliotecas precisam existir, mas hoje não há governos que gastem dinheiro em metodologias adequadas. A sociedade civil já desenvolveu dezenas de projetos de círculo de leituras e de produção de comunicação por jovens, mas têm dificuldade em criar alianças com o poder público para multiplicá-las em escala nacional.

Engana-se quem pensa que essa questão é apenas brasileira; as escolas canadenses começaram a sentir falta de freqüência nas suas bem equipadas bibliotecas e resolveram isso de uma maneira simples, mas ousada: reinventaram-na, dessacralizando o livro e valorizando a linguagem. A estratégia foi aproximar os vídeo-games do mesmo espaço.

Em entrevista para site Cult Montreal, o CEO do arquivo nacional de Bibliotecas de Quebec, Dr. Guy Berthiaume, diz tratar-se de um efeito semelhante quando os quadrinhos e os jornais passaram a dividir espaço com a chamada “alta literatura”, para atrair públicos mais jovens às bibliotecas; novas linguagens se complementam num mesmo espaço e, segundo ele, uma estimula a outra.

Alguns especialistas americanos vão um pouco além; a biblioteca atual deve ser um espaço de  eventos, tecnologia e criação. No caso, há o resgate da velha garagem novamente em cena, como espaço criativo.

Nesse sentido, devia preocupar os governos menos a meta de construção de 130 mil bibliotecas até o final de 2020, mas o que fazer para que as existentes não se tornem almoxarifados higiênicos  ou templos de um saber inalcançável.

* ALEXANDRE LE VOCI SAYAD É JORNALISTA E EDUCADOR. DESENVOLVE PROJETOS INTERDISCIPLINARES COMO FOCO EM EDUCAÇÃO PARA ESCOLAS, GOVERNOS E EMPRESAS. é AUTOR DO LIVRO IDADE MÍDIA: A COMUNICAÇÃO REINVENTADA NA ESCOLA, PUBLICADO PELA EDITORA ALEPH.

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