Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Pela dedicação, educação transforma destinos de estudantes

Apesar da dificuldade, a carreira de docente traz realizações. E possibilita a alunos a chance de conseguir mudar suas vidas

Luciana Alvarez, ESPECIAL PARA O ESTADO

28 Abril 2016 | 11h22

Na família de Antonia Alves da Silva, respeito, reconhecimento e ascensão social são palavras que aparecem com frequência quando se fala sobre a vida de professor. Diariamente, Antonia, dois filhos e uma nora ensinam crianças na cidade de São Paulo, matriculadas nas redes estadual, municipal e particular. Apesar das dificuldades - que, não negam, são muitas - a carreira de docente abriu a eles as portas para uma vida plena de sentido, com realizações pessoais e profissionais. Pela educação, Antonia, Roberto, Camila e Monalisa vão desenhando trajetórias de amor e entusiasmo. E ajudam as crianças a traçarem destinos melhores.

ANTONIA ALVES DA SILVA: A primeira a sonhar, a última a ser professora

Filha de pais analfabetos, morando em uma casa sem livros, Antonia teve muita dificuldade na escola. Isso, em vez de a afugentar, aumentou sua vontade de aprender. E foi assim que aprendeu a admirar os professores e passou a alimentar o sonho de ser ela também, um dia, professora. Mas o destino quis que o primeiro professor da família fosse seu filho mais velho. Depois a nora, e a filha. Antonia é a professora mais velha e mais recente.

Não pôde cursar faculdade, então fez carreira como bancária. Garante que não foi o seu sonho que acendeu a chama do magistério nos filhos. “Nunca medi esforços para que se formassem, mas a escolha foi deles.” O que sente ao vê-los professores não é orgulho, mas respeito. “Fico feliz que façam bem uma coisa de que gostam.”

Antonia seguia a vida de bancária até que, numa crise, viu a oportunidade de concretizar seu sonho. O banco foi privatizado, ela corria o risco de perder o emprego. “Eles me cobravam um curso superior. Tinha 42 anos quando entrei em Pedagogia.” A faculdade foi difícil, ainda mais após tanto tempo longe dos estudos. Ouvia de pessoas próximas alguma descrença, diziam que já era velha demais. Mas Antonia preferiu ouvir os incentivos. “Tive professores que me ajudaram, diziam que eu tinha coragem e vontade, e que isso me levaria até o fim.”

Diploma de pedagoga na mão, fez concurso e passou. Há quase dez anos é professora na rede municipal, em creche com crianças de até 3 anos. Apesar da grande quantidade de alunos por sala, da falta de apoio e de material e das mordidas eventuais, Antonia adora o que faz. “No ano passado fui convidada a ser assistente de direção. Recusei. Amo mesmo é estar em sala com os meus bebês.

ROBERTO WAGNER DA SILVA JÚNIOR: Realizado por apresentar aos alunos outro futuro

O primeiro professor da família demorou a seguir carreira. A mãe apostava que Roberto seria advogado. “Foi office boy numa firma de Direito onde gostavam muito dele. Mas ele não quis”, conta Antonia. Preferiu fazer Educação Física porque gostava de jogar bola. Ainda assim, os advogados pagaram metade da sua mensalidade.

Quando se formou, começou como personal trainer. “O dinheiro até era bom, mas oscilava. Achei melhor prestar um concurso para ser professor do Estado”, conta Roberto. Ele passou na prova e, há 15 anos, assumiu a função em uma escola no extremo leste da cidade de São Paulo, em Cidade Tiradentes.

Ainda na faculdade, Roberto conheceu Monalisa, que também virou professora. Com ambos empregados, conseguiram dar uma festa de casamento e ter um bom lugar para morar. “Fui a primeira pessoa da família a ter piso no chão de casa.”

Na carreira, os maiores problemas que enfrenta vêm de fora da escola: a violência e a pobreza. “O professor tem de ser um agente transformador na vida dos alunos, um exemplo para contrapor a visão dos traficantes como ídolo.”

Tem um projeto esportivo e, fora do horário de trabalho, leva os alunos para disputar jogos entre escolas. Mostra mais do que novas táticas: “Eu os levo para verem que existem outros tipos de futuro”. Recentemente viajaram para a cidade paulista de Lins e venceram um campeonato estadual. “É gratificante ver um menino para quem sempre disseram que ele não tem valor voltar para casa com uma medalha no peito.”

O reconhecimento por fazer os estudantes serem respeitados é a sua maior recompensa. “Já tive oito ex-alunos que vieram me procurar para mostrar o diploma de Educação Física.”

MONALISA SANTOS SILVA: Desde os 8 anos, uma vocação

Monalisa nasceu em uma família onde dar aulas era comum: uma avó se aposentou como diretora e tias a seguiram na opção pela docência. Para a menina, tudo parecia uma grande diversão. E, brincando de ensinar, aos 8 anos alfabetizou uma prima. Daí a estudar Pedagogia e transformar a brincadeira em profissão foi algo que “aconteceu naturalmente”.

Quando Monalisa conheceu Roberto na igreja, ambos eram só estudantes. Durante o namoro, os dois acabaram se formando professores. Monalisa passa manhãs e tardes dando aulas. Quando está com a família, continua imersa no universo da Educação. “É inevitável. Em qualquer profissão, a pessoa chega em casa e fala sobre o seu dia. Só que eu tenho um marido professor, professores na família do lado do meu marido e do meu.” Mas Monalisa não reclama: isso faz todos aprimorarem suas práticas. “É sempre um tentando ajudar o outro, mostrando alternativas.”

Como o salário não é dos melhores, acumula dois empregos, nas redes municipal e estadual. “Ser professor é desvalorizado social e financeiramente. Mas gosto muito da profissão, então vejo mais aspectos positivos - e prefiro falar sobre eles.”

Especialista em alfabetização, seu encantamento com o potencial transformador da escola se mantém intacto em 13 anos de magistério. “Tenho uma turma de 3.º ano e a melhor parte é ver um aluno com dificuldade de se alfabetizar finalmente conseguir juntar as letras, as palavras, é ver que ele está decodificando o mundo”, diz. “Essa criança que já tinha passado da idade se sente muito feliz pela conquista. Isso faz a nossa felicidade também.”

CAMILA SILVA DUTRA: Trabalho reconhecido e valorizado

Camila, segundo sua mãe, já nasceu professora. “Ela punha as amiguinhas todas sentadas e ficava ensinando”, lembra-se Antonia. Com o tempo, o interesse foi amadurecendo. Ter uma cunhada estudante de Pedagogia ajudou a confirmar a vocação. “A Monalisa me contava sobre o curso e vi que era o que desejava para mim.”

Tinha só 19 anos quando começou a lecionar - na época fez um curso técnico em magistério, que não existe mais. Na sequência, engatou o superior em Pedagogia, mas já atuando como professora do ensino infantil, que ainda hoje é sua “paixão”. Seu primeiro emprego foi numa creche conveniada da Prefeitura. Ficou seis meses, até que uma colega de faculdade contou sobre uma vaga em uma escola particular. Camila se candidatou e foi chamada.

Passar o dia com crianças pequenas é para ela um privilégio. “Às vezes você vai trabalhar com algum problema pessoal, mas parece que as crianças percebem e vêm dar abraços e beijos. Posso até chegar triste, mas sempre saio da escola feliz. Elas transformam o meu dia.”

O segundo emprego era bom, as crianças ótimas, mas o lugar muito longe da sua casa. Após anos na correria, conseguiu vaga numa escola mais próxima. Mas Camila fez falta para a escola. “A diretora me ligou, oferecendo condições melhores para eu voltar. Aceitei.”

Camila conta com o reconhecimento e a confiança dos empregadores. “Posso soltar a criatividade na hora de planejar as atividades. Se quero um livro ou material diferente, é só pedir.” Não que o trabalho seja fácil. “Acredito na Pedagogia do afeto. Se o professor não conseguir conquistar o aluno, não tem como ele aprender.”

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