Passaporte para o futuro
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Passaporte para o futuro

‘A melhor aposta é investir, e investir bem, na Educação Básica’, diz especialista

Eduardo Geraque, Media Lab Estadão
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15 de junho de 2020 | 15h00

A pandemia do novo coronavírus afeta de forma expressiva estudantes às vésperas do Enem e do vestibular, bem como alunos e professores de toda a Educação Básica. Em conversa com o Estado, Olavo Nogueira Filho, diretor de Políticas Educacionais da organização Todos pela Educação, fala dos impactos mais significativos e da urgência de preparar agora a volta às aulas. Veja os principais comentários do especialista.

Sistema Nacional de Educação

A crise escancara problemas que já existiam no ensino e reforça a urgência por mudanças estruturantes. Há muito tempo se fala na criação do que seria chamado de Sistema Nacional de Educação (SNE) – na linha do que o Sistema Único de Saúde (SUS) representa para a Saúde. Se tivéssemos isso, o impacto da ausência do Ministério da Educação em um momento como este teria sido amenizado. Mais do que isso, a disparidade teria sido atenuada. O esforço da grande maioria das secretarias de educação é salutar, mas a qualidade do que temos visto como resposta emergencial é muito heterogênea. Não precisava ser assim. Essa é uma lição poderosa. Quando retornarmos para um cenário de “normalidade”, vamos precisar de um SNE.

Legado 1

Não são poucos os casos de trabalho árduo, compromisso e competência liderados por inúmeras escolas. Isso precisa ser reconhecido quando a turbulência passar.

Legado 2

Não são poucos os relatos de famílias, de diferentes classes sociais, que passaram a dar um novo significado ao trabalho dos professores. Se sairmos da crise com um entendimento coletivo reformulado, de que ser professor é algo muito complexo e que requer muito preparo, motivação e boas condições de trabalho, isso pode ter repercussões relevantes na qualidade das políticas docentes a médio e longo prazo.

Impactos

Em um estudo lançado recentemente, o Todos pela Educação buscou o que nos ensina a experiência de países que passaram por situações de suspensão de aulas por longos períodos – em função de pandemia, desastre natural ou pós-guerra. Duas questões se destacam: os impactos emocionais em estudantes e professores serão fortes e duradouros e o risco de abandono e de evasão escolar aumentará, em especial no Ensino Médio e para os alunos em maior vulnerabilidade. São problemas que já existiam, mas que serão brutalmente intensificados. Para que a evasão por desinteresse seja evitada, é muito importante que haja articulação da Educação com outras áreas, como Saúde e Assistência Social. A Educação, sozinha, não dará conta.

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Os impactos emocionais em estudantes e professores serão fortes e duradouros
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Olavo Nogueira Filho, Diretor de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação

Respostas

No curto prazo, é fundamental mitigar os impactos da suspensão de aulas presenciais com ações de ensino remoto, mas uma resposta à altura só poderá ser dada na volta às aulas presenciais. Há algum espaço para planejar o retorno às aulas e isso não deve ser desperdiçado. O primeiro passo é entender que não se trata de “retomar de onde paramos”; as crianças, os jovens e os professores não estarão voltando de férias.

Retorno Gradual

É essencial promover um retorno gradual e observar precauções com a saúde mental e física de alunos e professores; organizar programas de recuperação intensiva para aqueles que tiveram dificuldades de manter os estudos em dia; aplicar avaliações contínuas e aprofundar a comunicação com os pais e responsáveis. Ainda que esses sejam desafios maiores nas redes públicas, são iniciativas essenciais também para escolas privadas.

Tecnologia

É inegável que o uso da tecnologia nas escolas básicas entrou no centro do debate. Quando os alunos retornarem às aulas no formato presencial, é provável que haja elevados graus de disposição e abertura para introduzir de vez a tecnologia como instrumento pedagógico. Mas será preciso muito investimento para fazer desse novo impulso algo perene. A crise escancarou o que já sabíamos: há muitas diferenças no acesso a recursos tecnológicos entre classes sociais, e muitos professores não têm formação específica e segurança para lidar pedagogicamente com esses recursos.

Ensino Remoto

A utilização da tecnologia como aliada contínua – sem substituir o protagonismo do ensino presencial – vai muito além de dar sequência ao uso de soluções temporárias de ensino remoto, ou de simplesmente “digitalizar a sala de aula”. O uso adequado e estruturado da tecnologia, aliado ao trabalho docente, é o que pode contribuir para a aprendizagem dos alunos. O professor é chave. E isso não vai mudar.

ENEM

Para muitos [estudantes que vão prestar vestibular], a confusão e a ansiedade foram exacerbadas por uma verdadeira lambança do Ministério da Educação na questão do Enem. O MEC se apegou a uma argumentação indefensável, e usou a prova como instrumento político. Mesmo que tenha finalmente recuado e adiado o exame, há de ser registrado o quanto o governo federal contribuiu para tornar uma situação muito difícil ainda mais complicada.

Não basta adiar por 30 ou 60 dias. Temos defendido no Todos um adiamento que permita tempo adequado de recuperação para aqueles – que não são poucos – que terão tido pouco ou nenhum acesso às ações de ensino remoto. Ao que tudo indica, e olhando para o cenário nos países que tiveram maior impacto sanitário, estamos falando de três a quatro meses sem aulas presenciais, a depender da região. Se nossas autoridades têm algum apreço pelo princípio de justiça, elas têm que sentar com as universidades e encontrar uma solução. Mesmo que isso signifique impactar o calendário de 2021 e de 2022.

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A crise escancarou o que já sabíamos: há muitas diferenças no acesso a recursos tecnológicos entre classes sociais, e muitos professores não têm formação específica para lidar com esses recursos
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Para o Estudante

Recomendações genéricas pouco ajudam num momento de impactos múltiplos e tão heterogêneos. Boas orientações individualizadas têm muito mais chance de vir dos professores do que de qualquer outro lugar.

Questão Central

O desafio educacional, que já era grande antes da crise, fica ainda maior. A crise fiscal será brutal. O cobertor, que já era curto, ficará menor.

Reconstrução

A melhor aposta é investir, e investir bem, na Educação Básica. Para muitas crianças e jovens, na situação atual, o trabalho pedagógico bem realizado vai muito além de aprendizagem. No longo prazo, uma escola boa, capaz de fazer com que os alunos aprendam e se preparem para a vida, é a única coisa que possibilitará um cenário de oportunidades para todos e que impactará no desenvolvimento do País e na redução da vergonhosa desigualdade brasileira. Garantido o investimento necessário na Saúde, é na Educação que reside nosso passaporte para um futuro diferente, melhor.


 

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