Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Participação de estudantes em escolas cresce com apoio de diretores e professores

É preciso estar preparado para ouvir falas que muitas vezes não gostamos, conta docente do Município

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 05h00

Mais do que a iniciativa dos estudantes, a participação de jovens nas escolas depende do apoio dos colégios e redes de ensino e, em muitos casos, há o trabalho de professores que atuam como incentivadores dos grupos. “A escola precisa estar aberta a esse tipo de prática. Quando se traz o aluno para a discussão, muitas vezes vão surgir falas que a direção não gostaria de ouvir”, diz Bruno Ferreira, formado em História e professor de Educação Digital da Escola Municipal Henrique Souza Filho, em São Paulo.

Ferreira ajudou a conduzir os debates virtuais para a eleição do grêmio estudantil na escola, fez a apuração dos votos e o anúncio da chapa vencedora pelo YouTube. No ano passado, a Prefeitura de São Paulo lançou um programa para que sejam criados grêmios em todas as unidades. A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME) contabilizava 139 grêmios em maio. No fim do ano, chegou a 367 grupos. A rede contabiliza um total de 577 escolas.

“Temos exemplos de grêmios mediadores de conflitos antes da pandemia do novo coronavírus. Também ajudam o professor nesse entendimento com a internet, com a tecnologia que, para eles, é algo tão natural”, diz Rômulo Araújo, da Divisão de Gestão Democrática e Programas Intersecretariais da SME. “Quanto mais a gente escuta o aluno, mais ele melhora a escola.” Um programa da Prefeitura coloca R$ 5 mil nas mãos de cada grêmio para que decidam quais ações devem colocar em prática.

Para Paulo Carrano, coordenador do grupo de pesquisa Observatório Jovem da Universidade Federal Fluminense (UFF), uma escola que estimula a participação é essencial para construir uma sociedade democrática, mas, para haver participação efetiva, é preciso que os jovens sejam envolvidos nos processos de decisão. “Muitas vezes eles são chamados a participar, mas percebem que aquilo não vai incidir fortemente sobre a vida cotidiana, o orçamento da escola, a estrutura e o planejamento."

Carrano acredita que a participação deve ser um eixo estruturante do projeto político da escola e não precisa estar restrita aos grêmios. Também considera importante o envolvimento dos jovens neste momento em que as escolas estão fechadas. “Estamos em isolamento social, mas a comunidade escolar está viva, e o que virá a ser o novo cotidiano vai depender muito das linhas de força que conseguimos articular hoje.”

Outras habilidades

Mais do que os projetos executados na escola, especialistas veem que a participação dos estudantes traz benefícios também no desenvolvimento de habilidades como argumentação e expressão e amplia a capacidade crítica. A empatia, característica de uma boa gestão, também pode ser exercitada. Em escolas particulares de São Paulo, em que o acesso digital não é um problema durante a pandemia, grupos de estudantes se voltam para outros tipos de atividades.

Na Escola Vera Cruz, na zona oeste da capital, por exemplo, alunos de um grupo ligado a ações sociais apoiaram a produção de máscaras e atividades voltadas à educação de jovens e adultos. Também iniciaram um movimento para tornar a escola mais unida durante a pandemia. “No início, a gente achava que não dava para ter a escola sem ir à escola, mas vimos que dá, de um jeito diferente”, diz Olívia Blay, de 16 anos, aluna do 2º ano do ensino médio. 

Os estudantes pediram que funcionários do colégio, como professores, trabalhadores da limpeza e também da biblioteca, gravassem vídeos contando como estavam lidando com a quarentena. As gravações eram publicadas em uma página no Facebook, o que estimulava a interação entre toda a comunidade escolar. “É gostoso saber que eles (funcionários) estão com a gente também”, diz Antonio Losada, de 18 anos, colega de Olívia.

No Colégio Pioneiro, na zona sul, alunos de várias turmas colocaram em prática uma ideia que partiu dos professores. No Instagram, convocaram toda a comunidade escolar a fazer 15 minutos de atividades físicas. O tempo de exercício era convertido em doações de alimentos para comunidades vulneráveis. “Senti que me aproximei dos professores e funcionários e criei laços maiores”, afirma Laís Tsutsumi, de 14 anos, uma das responsáveis pela ação.

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