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Parecia fake news

O slogan da campanha era o estereótipo perfeito para um e-mail falso do MEC

Renata Cafardo*, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2019 | 07h03

Uma das grandes batalhas que unem educação e jornalismo é contra as notícias falsas. Educadores do mundo todo têm se desdobrado para pesquisar e encontrar soluções sobre como ensinar a diferenciar uma informação confiável das fake news. E o público-alvo somos todos nós: crianças, jovens, adultos e idosos. O problema é quando a informação verdadeira é quase impossível de acreditar.

Na semana passada, deparei-me com o hoje famoso e-mail enviado pelo Ministério da Educação (MEC) a escolas de todo o País, públicas e particulares. A diretora que o recebeu e me ligou era um misto de desespero e incredulidade. Para acalmá-la, eu disse que nada daquilo parecia verdade e que iria apurar rapidamente.

Minha primeira atitude foi procurar a equipe do Estadão Verifica, Caio Sartori e Alessandra Monnerat, jornalistas treinados para checar a veracidade das informações que chegam por qualquer mídia. Eles acharam graça no “pretenso” comunicado do MEC, parecia irreal, mas não encontraram nenhum indício de falsidade. Acendeu um alerta, mas continuei desconfiada.

Recentemente falei de educação midiática aqui na coluna e de uma viagem que fiz aos Estados Unidos para conhecer projetos sobre o assunto. A educação midiática busca ensinar cidadãos a analisar criticamente as informações que recebem. Ou seja, não acreditar de cara - e não repassar - o que chega pelo WhatsApp, e-mail, Facebook etc.

Entre as ferramentas que aprendi para ajudar a desmascarar uma notícia falsa estão: ler nas entrelinhas, procurar alertas de estereótipos, soluções fáceis e técnicas para chamar a atenção. Fora isso, tentar estabelecer qual seria a relação com a realidade do que você está lendo ou vendo. 

O que primeiro chamou a minha atenção foi o slogan da campanha de Jair Bolsonaro, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, colocado numa carta que deveria ser lida aos estudantes. E ainda associado a uma valorização do Hino Nacional, algo que Jair Bolsonaro havia repetido durante a campanha. Parecia um estereótipo perfeito para um comunicado fake do MEC. 

Alguém mal intencionado, que tivesse criado aquilo, faria uma mensagem justamente com algo que mostrasse intenção de doutrinação ideológica, o que o governo diz querer combater. 

Depois, notei que o e-mail pedia para que as crianças fossem filmadas sem qualquer menção à autorização dos pais. Dava até detalhes de quantos mega bytes deveria ter o vídeo, que era para ser enviado para o MEC. Qualquer um diria que isso não podia ter relação com a realidade. 

Ainda mais que o pedido vinha de quem comanda a educação no País, que deveria zelar pelo cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Só podia ser mentira, quase conclui. Fake news.

Mas outras escolas também começaram a receber a mesma comunicação. Será que um hacker teria invadido o mailing do MEC? 

Nada disso. Procurei o ministério e tive a confirmação oficial. Era tudo verdade. O ministro Ricardo Vélez Rodríguez tinha feito o inacreditável. Juntou o Hino Nacional com pedidos completamente fora da lei e criou a maior confusão no País. Teve de reconhecer o erro e voltar atrás, duas vezes.

Quando o que parece incontestavelmente fake é verdade, só se pode concluir que quem está a anos-luz da realidade são algumas autoridades. O problema não é de informação, mas de formação. Torna-se mais importante ainda investir em educação de qualidade - em vez de se preocupar com o Hino Nacional. Para formar cidadãos mais plenos, com senso crítico apurado, que irão escolher nossos representantes no futuro. 

* É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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